o que tem em casa
é estranho não ouvir minha voz. tudo é quieto demais e tem tanta liberdade que eu não sei o que fazer com todas essas opções de gastar meu tempo. soa rude não poder compartilhar meus pensamentos engraçados, parece egoísta não precisar dividir minha atenção com o lado de fora, mal educado servir apenas uma taça de vinho numa sexta-feira à noite. eu não sei como entreter essa solidão, me acostumei demais a interpretar desejos inaudíveis e criar confortos externos para me aconchegar na paz que eu propiciei. agora sou o eco do meu silêncio e nada o irrompe. me enxergo num reflexo infinito que nunca muda, só aguarda, como se esquecesse que precisa fazer alguma coisa, afinal. é uma ansiedade de que algo aconteça de uma vez, mas nada acontece. e se repete. eu pulo do sofá e ando determinada até o próximo cômodo, como se o propósito fosse aparecer assim que eu chegasse lá. eu crio um desejo e finjo que quero aquilo até que se torne verdade, mas só se concretiza quando escapa de mim e se acata no interesse de fora. nada é meu, é tudo do maldito espelho que eu me tornei. o que eu refletirei agora se não tem mais ninguém pra me olhar? nada vibra pra me dizer que a solidão acabou, já não existe mais o limite de tempo que interrompe minha ansiedade, nenhum planejamento pra ocupar o vácuo da espera. não tem pelo que esperar, apenas minha voz muda, que sai rouca e melancólica, porque já não precisa se explicar em tom algum, é prescindível agora.













