Ingenue - Atoms for Peace
No começo de 2011, ao anunciar o álbum The King of Limbs, o Radiohead disponibilizou de imediato um vídeo para o single Lotus Flower, que consistia basicamente no vocalista Thom Yorke vestindo um chapéu coco, camisa branca e jeans, dançando de um jeito muito esquisito. Disseram que era comédia, ironia, nonsense. Dois anos depois, Thom volta a dançar em Ingenue, primeiro videoclipe de sua nova banda o Atoms for Peace, que este ano lançou Amok, seu debut. Estaria o cantor levando a tal piada longe demais? Nada disso.
Em ambos clipes, Thom segue passos criados pelo consagrado coreógrafo Wayne McGregor - entre outros títutlos, CBE (Comandante de Maior Excelência da Ordem do Império Britânico). Sir McGregor é famoso pela ousadia que aplica nas criações de sua companhia Random Dance. Não apenas pelos movimentos anatomicamente sofisticados e desafiantes, mas também pelo uso constante de tecnologia de ponta, como estruturas de luzes LED, movimentos gerados por algoritmos, projeções e bailarinos virtuais.
Outra característica marcante de sua carreira é a profundidade de seus estudos sobre a relação entre corpo e mente no desenvolvimento das coreografias. Seus bailarinos relatam que o trabalho costuma ser tão exaustivo para a cabeça quanto é para o corpo.
Apesar de serem movimentos essencialmente estranhos, é fácil notar que Thom Yorke não é um bailarino de verdade, ainda mais no novo clipe, em que contracena com Fukiko Takase, esta sim uma dançarina da Random Dance. A pouca prática do cantor com a dança, todavia, não tira os méritos da empreitada. É até curioso se pensar como a dança contemporânea ainda é pouco explorada em clipes de música popular. Mesmo exemplos como este clipe da cantora Pink ou este outro do Sigur Rós, em que a dança é um elemento estético, não são tão radicais quando os das bandas de Thom Yorke no sentido de trazer como videoclipe unicamente o registro das peças de dança.
Não um registro simplista, entretanto. Dirigidos por Garth Jennings (Que tem no currículo a adaptação d'O Guia do Mochileiro das Galáxias e dezenas de videoclipes), Lotus Flower e Ingenue utilizam os recursos audiovisuais de modo a mostrar a dança da melhor forma possível, em certa medida semelhante ao trabalho de Win Wenders em seu Pina. Comparando os dois, Ingenue mostra certamente um avanço nesse sentido.
A câmera se movimenta ao redor dos dançarinos, e mesmo ons planos estáticos mantém certa instabilidade, por dispensar o uso de tripés, ao contrário de Lotus Flower, onde além de imóveis, a maioria dos planos retrata Thom apenas de frente, dando mais destaque à figura do cantor do que aos movimentos coreografados. A montagem, beneficiada pelo trabalho mais dinâmico da fotografia, tem uma fluidez condizente com a canção, com destaque para o plano/contraplano entre palco e platéia (vazia) no momento em que o casal se deita no chão do palco.
A própria coreografia é mais complexa, usando menos o recurso de movimentos aleatórios do que em Lotus Flower. Mas a maior diferença é a presença de Fukiko, naturalmente. Tendo um par de corpos à sua disposição, McGregor consegue trabalhar muito mais claramente a relação entre o eu-lírico da canção e seu interlocutor, que não é simples nas letras de Yorke. Com movimentos plasticamente bonitos e momentos de grande delicadeza, o vídeo de Ingenue amplia a significância da música e reafirma que o interesse de Thom em trabalhar com dança é realmente sério e está longe de ser uma mania passageira.
por Rafael












