Pode entrar, fique à vontade. Estamos frente a frente nessa sala. A sós. Vejo que estás nervoso, tua respiração ofegante sobrepõe o silêncio que eu faço. Ofereço-te uma taça de vinho, pra relaxar, tu aceitas mas pede que eu chegue logo ao ponto. Não tenho pressa, o que direi aqui nada mais é do que a compilação de tudo o que já aconteceu. Não somos desconhecidos, tu bem sabes, não há o que temer.
Bom, um ano se passou desde a última vez em que estivemos juntos. Rápido? Considero que foi tempo necessário para que eu elaborasse minhas propostas. Dessa vez não tem juiz, mas as regras são claras. Não devemos descumpri-las. Faremos um acordo. Tudo bem para ti?
Serei sincera e direta, sem arrodeios: A vontade carnal se fez tão presente a ponto de eu te convocar para vir até aqui. Saudade acumulada. No momento em que digo isso tu abres um sorriso aliviado, uma pena não ser tão simples assim. Não me entenda mal, não esqueci tudo o que aconteceu, não resolvi escrever uma nova história, do zero. Longe disso, aliás, tal hipótese nem passou pela minha cabeça. Teu semblante mais uma vez muda. Talvez não seja tão fácil me ouvir falando isso, não é? Logo eu, que sempre fui tão tua… A verdade é que as circunstâncias mudaram, mas a vontade dita no princípio, não. Linha tênue entre felizmente e infelizmente.
Nesse momento, entrego-te uma folha com as normas que criei e peço para que leia, com atenção. Ao ler, percebo que dás sorrisos cínicos, rejeitando-se a acreditar que estou propondo aquilo. Tu gargalhas na metade da leitura, no ponto que considero como o mais importante, em que peço para que, a partir do momento em que assinares, me chame apenas pelo meu nome, em todas as situações. Logo tu, que sempre me chamara de “meu bem”. Creio que o bem agora esteja de mal. Ou sempre estivera mascarando a realidade.
Terminas de ler e pergunta-me se falo sério. Em meio a situação e circunstâncias bestifico-me ao ver que pensas, que à essa altura, ainda tenho tempo para brincadeiras. Meu rosto sério responde tua questão sem que eu precise pronunciar palavra alguma. Mas, continuo.
Eu te quero por hoje, apenas. Sem cobranças, mensagens no dia seguinte, sem falso romantismo ou projeção inexistente do que um dia já chamamos de amor. Bobagem. Não que eu tenha desacreditado do mesmo, pelo contrário. Mas, nunca aconteceu conosco e dou-te a certeza de que nunca acontecerá. Não és o homem da minha vida, e nem será os pais dos meus filhos, como em um dia vão, planejamos. Planos esses que fiz questão de esquecer. O “pra sempre” nunca deu certo pra nós.
Por isso quero pular toda a parte dramática, emotiva e sentimentalista que um dia veio a existir. Não precisamos disso. Não preciso. Sabe o que sempre deu certo? A atração carnal, e é dela que venho falar. Não vou específica-la pois creio que está explícito no meu olhar. Sempre fomos bons nisso. Apenas nessa parte. Somos felizes sobre uma cama bagunçada, apresentando a versão mais natural e animal de nós mesmos, do que em qualquer outro lugar. E é isso que quero. Entenda, te quero muito, por hoje.
Por isso trouxe-te até aqui. Nosso acordo consiste no agora. Fingimos desconhecimento, nos encontramos apenas para fins que beneficiam ambos, isso não te agrada? Deixei tudo transparente para que não conteste-me após ou venha a fazer algo que está fora da papelada. Preciso que assines, como garantia da sua lealdade. Não quero correr o risco de ter que simular discussões de relacionamento uma vez que o mesmo não existe. Não existe. Ficou claro para ti?
O papel está em tuas mãos, entrego-te agora a caneta. Sairei da sala e te darei mais um tempo pra refletir sobre o que já vivemos, e o que viveremos. Não efetivamente juntos. Apenas unidos por um querer efêmero.
Ao decidir, deixe o papel sobre a mesa e saia. Não esqueça de checar o endereço e horário no final da folha, caso concorde. Ah, e não se atrase. Sei que não o fará. Pois, conheço-te bem, meu bem.