Nunca havia visto Isaac pessoalmente, mas ouvia as reclamações vindas de Jason. Não sabia exatamente o porquê, mas o rapaz tirava o líder de sua órbita, talvez porque com o negócio de armas lucrando cada vez menos, estavam nas drogas o futuro da gangue. E agora Jason era obrigado a confiar seu futuro em um cara de uns dezoito anos, um metro e oitenta de pele e osso, mas perspicaz como uma raposa. O Gallfory filho odiava depender de quem quer que fosse, na verdade ele odiava ainda mais saber que tinha de depender de alguém. Sua relação com Maya ainda era boa porque ainda não havia percebido que sem a latina, provavelmente não estariam durando tanto tempo depois da morte de seu pai. Pela primeira vez havia sido chamada a uma daquelas reuniões de orçamento, afinal ela havia insistido em contratar Isaac bem debaixo do nariz dos coreanos. Notava que o britânico escolhia tudo do mais caro e do melhor, para negociar com Jason e fazer seu produto de qualidade incrível e que ela havia mandado vender com preço maior do que de antes, depois de muito brigar com o amante. Esperto. Aquele misto de booksmart e streetsmart que tanto Minho quanto Taeyoung e ela mesma possuía. Apertou a mão alheia, sabendo o quanto o amante desaprovava a gentileza da latina com os seus subordinados. “Maya.” Se voltou para Jason. “Jason me falou que anda pedindo alguns equipamentos e químicos novos. Ele é jovem, mas ainda parece que faz parte da geração dos avós, que o importante era fazer tudo ruim, barato para lucrar na quantidade.” O líder bufou, mas não retrucou a mulher. Maya se voltou para o rapaz e cruzou as pernas, ignorando a terceira pessoa ali. “Eu sou uma mulher de luxos, Isaac. Uma moça de Manhattan, que cresceu aqui e sabe muito bem o que seus iguais querem. Gostamos de coisa boa, independente do preço. Desembolsamos milhares de dólares com uma bolsa porque sabemos que elas vão durar por anos. Drogas não são diferentes.”
“Maya, eu disse que…” Jason interveio e Maya ergueu a mão, em sinal que o líder ficasse em silêncio. “Nossos clientes eram adolescentes da região, que usavam qualquer merda que coubesse na mesada. Mas são os pais deles em quem devemos focar. Os figurões do mercado financeiro vivem com o nariz branco e as donas de casa do Upper East Side precisam de maconha medicinal para ajudar com a enxaqueca. Eles gostam de coisa boa, entregue sem levantar suspeitas e estão dispostos a pagar.” Se voltou para Jason, que já sabia onde aquela conversa iria parar. Maya cresceu em um berço de ouro e dinheiro nunca havia sido um problema, diferente da maioria de seus empregados e até mesmo de Louise. Se sua esposa tivesse o mesmo status de sua amante, dificilmente engoliria os chifres que recebia há anos. “Quero saber, Isaac… Concorda comigo?” Inquiriu Maya, com uma das sobrancelhas levantadas.
Estava cada vez mais claro que Maya tinha poder sobre Jason, porém Isaac não era estúpido o suficiente para depositar sua fidelidade trabalhista nela e descartar a chefia dele. Seu jogo naquele momento era fazer com que o chefe da gangue aceitasse seus pedidos e compreendesse a importância da produção em seus negócios, ao passo que precisava passar uma boa impressão a morena. Agora, qual seria esta boa impressão? Queria ela alguém que desafiasse Jason? Alguém que trabalhasse sob seu comando? Ou queria ela apenas mais algum brinquedinho em seu parque de diversões? De qualquer forma, o britânico não podia deixar de se divertir com o tom casual e afrontoso que a mulher usava e ao mesmo tempo concordava com sua fala. Isaac nunca havia trabalhando para uma gangue de grande porte, o máximo que havia chegado a fazer era produzir para alguns bulliers na antiga universidade, mas após criar seu próprio negócio sempre o manteve nas sombras. Fazia sua química em casa e vendia no campus de faculdades e em algum outros pontos que tinham jovens ricos e covardes o suficiente para não se meter com as gangues e que acreditassem que o valor correspondia à qualidade - o que, de fato, acontecia no caso de Isaac - e evitava peixes grandes com os Savages e os coreanos. Porém, o que o loiro não sabia de negócios, ele sabia de drogas e Isaac havia visto o produto que era vendido pela gangue até então. - Olha, Jason, Maya está certa. Eu posso não saber sobre a figurões do mercado financeiro e donas de casa, mas eu sei sobre como deixá-los viciados. - respondeu com um pouco mais de convicção, mirando a morena ao seu lado, ainda que sua fala fosse direcionada ao homem em sua frente. - O que vocês vendiam era uma maldita merda e uma coisa tem que ficar clara: I don’t do horse shit. - agora seu olhar era direto em Jason e seu sotaque carregado. Vendo que o chefe da gangue parecia ponderar o pedido de Maya, mas não queria dar o braço a torcer, Isaac viu a oportunidade de colocar suas cartas na mesa e inclinou-se para frente para demonstrar sua determinação. - Seu lucro não está no consumidor antigo, está nas festas em mansões e escritórios da bolsa. Nós não estamos no maldito Bronx onde a droga tem que ser barata ou em State Island onde não podem nem pensar em uma droga diferente das tradicionais. Você é domina uma das maiores gangues de Manhattan e essa gente quer luxo, quer novidade, quer algo que dê energia durante o dia, as acalme durante a noite e as põe em um lindo sonho colorido nos finais de semana. - fez uma pausa, voltando a se recostar na cadeira. - E eu posso fazer isso para você, mas você precisa deixar isso acontecer. - finalizou em um tom mais casual do que seu breve discurso e aguardou a resposta de Jason.
Maya ouvia atentamente às palavras de Isaac e concordava com elas, em uma expressão séria, sem tirar os olhos de Jason. Ele sabia como fazer drogas e tinha sido uma adição e tanto ao time. Teve de enterrar quatro italianos para que Minho cedesse e deixasse que Maya ficasse provisoriamente com o drug designer a contragosto de Taeyoung. Eles podiam esperar, o negócio de armas deles estava crescendo junto com o de produtos falsificados importados da China. E não eram apenas bolsas e sapatos. Tudo que pudesse imaginar, os coreanos conseguiam trazer um igual pela metade do preço e com qualidade duvidosa para ser revendido em Chinatown. Ou para madames emergentes que não saiam diferenciar uma Louis Vuitton real de uma falsa. "Isaac sabe o que está fazendo, Jason." Ela disse por fim.
Jason mordeu o lábio e começou a rabiscar coisas em um papel, Maya sabia que não passavam de riscos sem sentido que ele fazia para parecer que estava calculando coisas. Como se soubesse precificar seus produtos sem ajuda de uma planilha de Excel feita por alguém mais competente. "O que está me pedindo é muito além do que posso pagar, é quase um preço de um laboratório completamente novo, sem a matéria prima..." E começou uma ladainha que Maya interrompeu. "Isaac, de quanto precisa?" Tirou da carteira um talão de cheques e suspirou, se inclinando para pegar uma das canetas de Jason. "Se preferir, eu posso ir com você comprar o que precisa. Conheço nossos fornecedores e eles adoram visitas, principalmente as que gastam muito." Jason se arregalou e inquiriu o que a morena estava fazendo. "Estou dando um laboratório novo de presente para os Savages. Sabe que para mim isso não é nada e quero ver nossos negócios prosperando. Pode me considerar uma... sócia." Era claro que fazia aquilo para o irritar, e esperava que Jason mordesse sua isca. Seria mais um motivo para que ele fosse eternamente grato a ela e Maya mostrar que estava certa e que o líder estava equivocado. "Isaac, precisa de um lugar maior? Se não me engano o nosso laboratório é uma caixa de sapatos... Podemos ver um galpão ou algo do tipo caso você se mostre bom mesmo no que faz."