Eu joguei água no rosto 3 vezes antes de me olhar no espelho, mas as olheiras continuavam lá.
-Cada dia mais bonito Victor…-repeti irônicamente para mim.
A viagem de avião foi muito mais cansativa do que a de ônibus, eu estava em pânico porque tinha medo de lugares fechados e de altura. Eu sentei ao lado de Ana e confesso que consegui manter postura enquanto ela estava acordada, mas assim que ela dormiu minha paranóia se ativou e eu não parava de imaginar as coisas mais doidas que poderiam acontecer, foi assim até chegarmos em São Paulo.
Um aviso sério me foi dado.
“Nada de faltas Victor. Não nos esquecemos que você fugiu de casa.”
Eu fiquei fora por 4 dias e só perdi 2 de aula, não entendia tal preocupação, além do mais eu contribuí para que todos comparecessem ao casamento de Victor. Foi uma viagem e tanto.
Vinicius me prometeu escrever e é claro, mandar fotos. Vinicius era um homem de fé, acredito que muito do que o levou a África era esse seu traço forte de fé. Eu ainda pensava bastante sobre a possibilidade de viajar também, fazendo algo bonito, e em todas as minha imaginações do futuro Ana estava nele, as vezes com sua banda tocando lá fora, outra com uma viajem de férias, algumas com uma lua de mel ou mudança (assim como meu irmão), eu explorava cada possibilidade com os olhos brilhando.
Peguei meu celular e fiquei olhando a foto de perfil de Ana, dava para ver que ela estava online. Eu queria muito que ela me mandasse uma mensagem, ou mandar uma para ela, mas achei melhor deixar ela ajeitar suas coisas e não grudar nela a deixando sem espaço.
-Vai querer carona filhão? Na garupa cabe sempre mais um.-disse meu pai sendo abafado pela porta fechada.
Eu cuspi a espuma da pasta na pia.
-Valeu pai, vou andando estou no horário.
-Victor faltam 15 minutos para as 7.
Eu olhei o relógio em cima do criado mudo, meu pai estava certo.
-Então me espera aí pai, ESPERAAA!
Confesso que antes sentia vergonha de sair de bicicleta com meu pai, mas com o tempo parei de ligar e até gostava (mas disso ele não podia saber).
Cheguei na escola e ganhei 5 reais do meu pai, aquilo me arrancou um sorriso.
-Pague um lanche para Ana e um refrigerante também.
Meu pai achava que com aquilo dava para comprar muita coisa, mas nos dias de hoje aquilo ia embora muito mais fácil em pouca coisa, mas novamente agradeci.
-Pode deixar.-disse enquanto entrava na escola.
A escola estava muito agitada, vi Ana de longe rodeada de muitas pessoas, passei despercebido e entrei na sala. Ia encontrar Bolota e Grama no intervalo e sabia que eles iam me fazer muitas perguntas.
Ana entrou na sala, meus olhos brilharam, meu coração parou e senti um calor me banhando da cabeça aos pés. Ela não me viu, me procurou ou notou, fui banhado novamente, mas por um sentimento gelado.
E então o dia passou mais rápido do que pensei. Ana realmente não me procurou, Bolota e Grama não estavam na escola e eu não tinha nada para fazer em casa. Eu deitei na cama e fiquei pensando no nada, dormi.
-Victor atende essa coisa!-gritava minha mãe do corredor.
Acordei assustado, e quando raciocinei procurei o celular que tocava alto no quarto ecoando na casa.
Achei o celular, mas não era Ana, era seu pai.
Ele era mais educado comigo agora.
-Hey Dr. Wagner , vou bem cansado. E como vai o senhor?
-Sim, esta sim. Eu liguei para acertar algumas coisas sobre o acidente…
Pensei que este capítulo tinha acabado, mas era real, passei a mão no ombro direito onde ainda havia a cicatriz mais profunda.
Ele parou, ouvi sua respiração.
-Será que pode passar em casa?
Dessa vez foi eu quem demorou, era a chance de encontrar Ana. O meu medo era ver que as coisas estavam realmente estranhas entre nós.
-Obrigado Victor.-finalizou desligando.
Eu saí do quarto pensando no que precisava ainda ser resolvido, eu não fazia idéia do que seria.
Coloquei o sapato e desci as escadas correndo. Minha mãe estava na cozinha com a geladeira aberta. Quando me viu lançou um olhar curioso.
-Aonde vai sr. Candellari?
-Casa da Ana, mas é o pai dela quem quer me ver.
Ela não fez mais perguntas e eu saí.
A casa como sempre parecia estar inativa, sempre silenciosa. Eu bati na porta.
-Pode entrar.-ele disse.-Vamos sente-se.
Eu me sentei, minha cabeça estava nos cômodos de cima e na garota que lá estava, pelo menos eu acho que estava. Eu queria tanto vê-la.
-Então Dr. , sobre o que precisamos conversar?
Ele puxou a cadeira enquanto segurava uma xícara de café.
-Igual a Ana.-ele disse rindo.-Enfim, você sabe que foi demitido do escritório por invasão, mas todos concordaram em não processar você porque no fim você fez um grande favor a firma.
Eu ouvia atencioso, estava muito curioso.
-Você já pensou em estudar Victor?
-Claro.-eu respondi.-Quero fazer um curso de segurança de software.
-Victor, você e eu sofremos um acidente, e foi tudo minha culpa. Fiquei pensando em como te recompensar por todo seu esforço, por Ana, por mim e pela firma.
Eu estava ansioso, muito ansioso.
-O escritório concordou em te ajudar com 80% da bolsa em qualquer faculdade que você escolher. É a melhor maneira que encontramos para te recompensar.
Parei para processar as informações que ele tinha me dado. Meus pais iam amar isso.
-Dr. Wagner, eu não sei como agradecer.
-Nós é quem agradecemos. Que tal eu ligar para os seus pais e contar da novidade enquanto você sobe e diz pra Ana?
Balancei a cabeça e subi as escadas.
A porta estava encostada, eu bati.
-Papai?-ela disse de dentro.
-Victor?-ela abriu a porta, seu rosto não aparentava emoção, não aparentava nada.
Eu dei um abraço nela. Ainda sem reação.
Ela foi pra sua cama e colocou um dos fones.
-Tá tudo bem?-eu perguntei.
Eu sabia que algo estava errado, e eu queria muito saber o que era.
-Sinto que há algo errado.
Eu sentia a força que ela estava fazendo pra dizer as coisas.
-Não tem nada errado Victor.
-Então tá, eu acho que vou indo, está meio tarde.
Ela não disse nada. Dei um beijo devagar na sua testa e depois desci.
Wagner estava desligando o telefone.
-Victor, e como ela reagiu?
-Eu não consegui contar, ela estava bem cansada.
-Entendo, você quer uma carona?
-Acho que vou passar na casa de um amigo. Mas agradeço por tudo Dr. Wagner, obrigado mesmo.
Saí de lá muito confuso, foi tudo muito lindo no Rio, mas aqui era como se nada tivesse acontecido. Fui andando pra casa, sentia meu coração pesado porque vi Ana distante de mim, eu queria muito mudar isso. Mas o lado bom era que ia entrar na faculdade, eba...