Estava atordoada, milhões de pensamentos pairavam naquele instante, nĂŁo eram bons, tampouco sensatos, minha cabeça perdia-se em turbilhões de coisas confusas que formavam-se em minha mente devido Ă s atitudes tais quais eu vinha tomando. Haviam dois nomes Ă minha cabeça: Christian e Yann. Meu marido e meu... amante, respectivamente. Era horrĂvel pensar em Yann sob essa colocação. Ele era meu amigo, ele me confortou a cada briga que tinha com meu marido, ele me ajudou, me acolheu, cuidou de mim... Da melhor forma que ele pĂ´de, mas nĂŁo queria dizer que era da forma mais correta, pelo menos nĂŁo na sociedade em que vivemos. Yann me amava, porĂ©m, meu sentimento nĂŁo era o mesmo, eu amava - amo - Christian, mesmo com todas as - minhas - falhas. Dentro daquela desordem de pensamentos, apenas uma frase fazia sentido: "isso tem que acabar!".
 Saà do conforto do sofá revestido em camursa cinza, apaguei o fogo da lareira, apanhei o casaco que havia deixado atrás da porta em uma espécie de "arara" e rumei para onde eu sabia que encontraria às respostas para todas as minhas perguntas  mesmo que não, pelo menos contaria com o apoio moral de uma amiga: Elisa.
 Elisa era aquele tipo de pessoa que já viveu e passou por tudo, mas continua ali, com mais coisas para enfrentar. Ela tem um dom: Ă© um tipo de vidĂŞcia, mas prefiro dizer que ela Ă© minha mentora espiritual. Já teve alguns problemas com pessoas que "nĂŁo sĂŁo do nosso mundo", ou que eram e já nĂŁo estĂŁo mais entre nĂłs, por isso, deixou de fazer certas viagens. Mas isso nĂŁo queria dizer que ela nĂŁo pudesse me ajudar, o serviço de "amiga" ainda estava disponĂvel.
 Chego por volta das 17h em frente ao prédio antigo em que ela morava. O cheiro de mofo dominava o ambiente, mas eu não me importava muito. Duas leves batidas à segunda porta do terceiro corredor que ficava no quarto andar, já foram suficientes para eu observar a maçaneta sendo girada e instantes depois a imagem da senhora magra, branquinha, de cabelos acizentados e com um sorriso radiante pairarem à minha frente.
_Qua saudade! - as palavras saem espontaneamente enquanto puxo Elisa para o mais forte abraço.
 Ela, por sua vez, retribui minhas palavras com o gesto de me apertar ainda mais contra si, fazendo-me repousar a cabeça em seus ombros e, consequentemente, debulhar-me em lágrimas incessantes.
_Estou traindo Christian, estou traindo àquele que mais amo! - essas palavras saiam engasgadas, entredentes, como se cada uma me rasgasse à medida que eram ditas. Elisa apenas acariciou meus cabelos, sussurando a todo momento um "shhh...", para que eu me acalmasse, enquanto caminhava sem soltar-me de seus braços e levava-me até o sofá velho coberto por uma manta verde, para que eu me sentasse.
_Diga, minha filha... - ela falava com a voz mais calma e pueril que somente Elisa possuia _...o que tanto lhe aflinge, querida? - completou segurando minhas duas mĂŁos, acariciando os nĂłs de meus dedos e sentando-se em uma mesa de madeira gasta Ă minha frente.
_Christian e eu estamos passando por uma fase difĂcil... - tentava explicar sem gaguejar e, aos poucos, conter o choro _...muitas brigas, ele nĂŁo sai daquele escritĂłrio, Welch, seu secretário, passa mais tempo com ele do que eu. Pouco conversamos e, quando ele quer, eu nego atenção, devido Ă s coisas que preciso resolver para a Editora e, tambĂ©m, tem a ver um pouco de "pirraça", por ele me trocar diversas vezes por todos os compromissos de trabalho que ele possui. - inspirei profundamente, tomando fĂ´lego e juntando forças para continuar. _ Quando eu tenho algum tempo livre, nunca coincide com os de meu marido, entĂŁo, saio com umas amigas... - pigarreio -...um amigo, Yann. Inicialmente eu nĂŁo enxergava maldade alguma nele, Ă©ramos realmente sĂł amigos, atĂ© que... - abaixei a cabeça envergonhada -...em uma noite, Christian e eu brigamos feio e ele mencionou o divorcio, bĂŞbado, disse que iria encontrar com Elena, aquela amiga que mencinei, se lembra? - pausei e fiz menção com o braço Ă Elisa, que imediatamente assentiu com a cabeça, para que eu prosseguisse. _ EntĂŁo... - continuei. _...ele cumpriu sua promessa, e naquele momento um milhĂŁo de coisas estavam passando em minha cabeça e a Ăşnica coisa que eu queria era esquecer, por isso, imediatamente liguei para Yann, que, em menos de trinta minutos estava Ă porta da minha casa, passamos Ă noite juntos e, desde entĂŁo, sempre que nos encontrávamos, acontecia algo entre nĂłs. - concluo engolindo em seco e, novamente, desabando em lágrimas e soluços.
 Elisa aperta minhas mĂŁos e me puxa para mais perto, envolvendo-me novamente em um de seus melhores abraços. _Minha querida, o desamor faz as pessoas cometerem loucuras, mas Christian e vocĂŞ, se amam e eu posso afirmar, pois vejo o brilho no olhar dos dois quando estĂŁo juntos. NĂŁo saia por aĂ buscando amores, vocĂŞ tem aquele de que te ama sob o mesmo teto que vocĂŞ, literalmente. Reconstrua seu jardim, nĂŁo arranque as flores mais lindas que vocĂŞs plantaram, sĂł porque algumas pĂ©talas caĂram... - ela conclui em quase um sussurro e beija meu cabelo, me confortando mais uma vez em seus braços.
 Chego em frente à minha casa às 21h, com as palavras de Elisa em minha cabeça, disposta a por um fim em tudo. Desco cada degrau decidida a amar meu marido cada dia mais e meus pensamentos se perdem com inúmeras formas de dizer que o amo. Quando me deparo com algo que interrompe meus devaneios: flores, bombons e cartões postos à entrada da minha casa. Um nome vem à minha cabeça: Christian.
Mas nĂŁo.
Abro-os e o rementente consta como Yann, com frases e declarações de amor, imediatamente vejo-o como uma ameaça e dou um jeito de me livrar de tudo aquilo, antes que meu marido encontre e cause tudo o que eu menos quero: mais brigas e, pior, nossa triste separação. Rapidamente apanho meu smatphone e disco um número: "Yann" em letras cursivas aparece na tela e eu as toco. A cada chamada, meu coração parece bater mais lentamente.
_Oi, meu amor - a voz grave de Yann ecoa ao outro lado da linha.
_NĂŁo me procure mais, por favor, isso Ă© errado, eu sou casada e... Amo meu marido, sou perdidamente apaixonada por Christian! - as palavras saem quase que ao gritos. Quando Yann, parece querer argumentar, desligo o telefone.
 Respiro fundo e chacoalho a cabeça em uma tentativa de esquecer tudo o que aconteceu. Giro a maçaneta e entro. Fecho a porta. Me recosto por um instante, parecendo aliviada por estar em casa. Deixo o casaco onde inicialmente ele estava, observo as luzes acesas do corredor e a lareira novamente ligada. Ele está em casa. Meu coração imediatamente acelera. Vou em passos ritmados atĂ© seu escritĂłrio e lá está ele, meu marido. Impressionantelmente elegante, com seu notebook sobre a mesa, aquele jeans velho, uma camiseta cinza, com a touca que o dei de natal para sacanea-lo da mesma cor que a blusa - achei que ele nunca usaria -, aquela barba por fazer que eu adorava e os olhos fixos e concentrados no que parecia ser algum e-mail de cliente. Encosto na beirada da porta, cruzo os braços e fico admirando-o trabalhar, ele, por sua vez, parece estar tĂŁo concentrado que ainda nĂŁo me notou. Levou alguns segundos para ele erguer aqueles olhos castanhos e pousa-los sobre mim. Dou um sorriso e ele me retribue com o dele - aquele mesmo da primeira vez que nos vimos, o sorriso mais lindo que eu vira em toda a minha vida -, que foi o convite que eu precisava para me aproximar e tirar o notebook que estava Ă sua frente, sentando sobre a mesa e me colocando em seu lugar. Afastando um pouco as pernas e colocando-as uma em cada lado de seu corpo. Seguro seu rosto e acaricio suas bochechas, sentindo cada centĂmetro de sua barba, descendo atĂ© sua boca e passando o polegar em seu lábio inferior. No mesmo momento, Christian me puxa pela cintura e coloca-me em seu colo, selando nossos lábios no mais profundo e delicioso beijo.Â
_O que vai fazer amanhĂŁ? - pergunto quando paramos para recuperar o fĂ´lego.
_Tenho uma pequena viagem de negĂłcios, mas devo voltar Ă s 19h, por quĂŞ? - ele responde acariciando meus cabelos.
Faço beicinho.
_Vamos. Jantar. Fora. Às. 20h. Então? - digo cada uma entre vários beijinhos em seus lábios.
_Como e onde você quiser, mas... - ele afasta um pouco o rosto do meu, mas ainda consigo sentir sua respiração se misturar com a minha. _E minha janta hoje, o que vai ser? - Chirstian me olha, de cima a baixo e prende meu corpo contra o seu, tirando as mãos da minha cintura e descendo-as para os quadris.
 Ah, aquele olhar...
Não precisava responder que eu seria o jantar naquela noite, não é mesmo? Só o beijei e aquela noite foi nossa, como todas as outras noites, os dias, semanas, meses e anos. A vida era nossa e nós éramos um do outro.
Créditos: Viviane Farias (autorais)














