I’m loving it || Dante & Jihyeon
O estabelecimento borbulhava de pessoas, muito mais que de costume devido ao dia da semana agitado e alguma convenção que estava tendo pelas redondezas. Havia todos os tipos de fantasias e o local geralmente coberto de tons cinzentos de trabalhadores apressados era substituído por cores explosivas dos cosplayers que conversavam com agitação. – Bando de esquisitos… – Jihyeon murmurou para si mesma com seu sanduíche em mãos, mais cheia de ressentimento por ter seus momentos de paz tirados de si que de fato um tipo de rejeição aos estilos diferentes. Mordeu uma batata com certa agressividade, perdendo-se no sabor instantes suficientes para esquecer a raiva e finalmente apreciar a comida que para muitos era ordinária, mas para ela era simplesmente a melhor. Ainda se lembrava da primeira vez que provara os lanches da famosa rede multinacional e jurou ali encontrar o primeiro grande amor de sua vida. Depois daquilo se tornara uma verdadeira viciada, tanto que apesar de fazer diversos cortes em seu orçamento aquele seu ritual era religiosamente seguido todas as semanas, nunca importando as consequências.
Deu mais uma mordida em seu lanche quando um jovem vestido de “O que quer que aquilo de cabelo branco e lentes vermelhas fosse” pediu sorrindo para pegar uma das cadeiras. Lançou-lhe um olhar mortal que o fez se afastar e logo voltou a encarar sua bandeja, respondendo-lhe em um tom duro e entediado – Não. Vaza. – ele engoliu seco e fechou os punhos, tentando confrontá-la “Yah! Você não é dona da cadeira e não está usando ela, nos deixe pegar.” JiHyeon calmamente puxou o refrigerante pelo canudo e disse – Você quer que esse seu lanche faça o caminho inverso, nerd? Não? Então cai fora. – suspirou assim que ele saiu e soltou os braços do lado do corpo, perdendo um pouco do apetite. O fato era que era assim que Jihyeon funcionava, quando estava brava ou irritada, não era do tipo de segurar, simplesmente deixava fluir. Na verdade, era assim com maior parte de todos os seus sentimentos, logo podendo ser definida como muito impulsiva e cabeça quente, sempre fazia antes de pensar. Identificou então no meio da multidão um rosto conhecido, apenas de vista e poucas palavras trocadas, outra pessoa que sempre ia lá e por mais estranho que fosse logo sentiu um conforto, um sentimento de equilíbrio no meio dos invasores de seu espaço.
@thpolymath
Dante gostaria de dizer que estava arrependido de ter dormido depois da três horas da manhã analisando as pastas de um caso recente, mas ele estaria mentindo. Embora os músculos de seu pescoço estivessem tão rígidos ao ponto de que um mínimo gesto com a cabeça proliferava uma dor aguda, e suas costas estivessem aclamando por uma cama confortável em vez de mais um dia de trabalho; o detetive não teria avançado em suas teorias se não fosse a noite mal dormida. Isto é, eventualmente isso iria acontecer, é claro, mas, para Dante, cada mísero milésimo de segundo é deveras importante para seu trabalho, e se pudesse evitar todas as formas que ele fosse gastado desnecessariamente (inclui-se aqui: dormir), ele o faria. Não obstante, o dia não parecia querer facilitar a vida do jovem detetive. Seu estabelecimento preferido da cidade de Gwangju estava muito lotado -- o que, ao todo, não era tão ruim; ao menos, não para os donos do lugar que lucrariam imensamente com tantos clientes, mas Dante se sentia ligeiramente desconfortável e um pouco egoísta por pensar assim. O rapaz tinha conhecimento que nenhum dos jovens (fantasiados, vale ressaltar) tinham culpa de ocupar todos os lugares à mesa e no balcão do estabelecimento justamente no dia que o detetive necessitava estar sentado. Com seu pedido já em mãos -- um copo grande de Mocha --, seus olhos varreram o ambiente em busca de algum lugar com certo desespero; tudo graças às dores em seu corpo que pareciam insuportáveis. Quando finalmente viu um lugar vazio, quase o sentiu iluminar-se com uma música angelical tocando ao fundo. ‘Finalmente’, pensou, seus músculos relaxando visivelmente após a descoberta. Dante só hesitou novamente quando viu que a mesa não estava ao todo livre; suas orbes castanhas se ergueram para o rosto de uma jovem sentada na outra cadeira, ela estava a discutir com um dos jovens, mas o detetive não prestou muita atenção nas palavras trocadas. O rosto da moça lhe era deveras familiar, pois sempre frequentaram aquele estabelecimento quase no mesmo horário -- o que tornou a presença da outra um hábito em suas manhãs fatídicas. A mente humana sempre apreciou hábitos e padrões, Dante sabia disso muito bem (trabalhava com humanos e, felizmente, também era um deles... Ou esperava que fosse), por conta disso era comum uma pequena sensação de vazio existir quando a presença da garota -- que não sabia o nome -- ocasionalmente não estava por lá. Dante sabia que era algo estranho de se admitir, mas era um instinto humano que dificilmente reprimia; sentir falta de padrões e hábitos tornava o detetive mais atento ao redor. A conversa da moça com o rapaz já havia terminado há diversos segundos atrás, mas Dante percebeu tardiamente. As pálpebras pesadas tiveram um árduo trabalho de piscar algumas vezes para o alemão ficar mais esperto, e só após esse pequeno ritual que se aproximou da conhecida. Uma mão pousou sobre a cadeira desocupada, e mesmo com a expressão cansada em seu rosto, conseguiu de alguma forma suavizar as linhas do mesmo em um pequeno sorriso. ━━ Com licença... Será que eu posso me sentar aqui? ━━ Imaginou que talvez a pergunta não fosse o suficiente para convencer alguém que não sabia o nome a deixá-lo se aproximar, então prontamente se justificou: ━━ Infelizmente, ou felizmente caso você seja a dona do lugar, meu estabelecimento preferido está lotado por jovens. Por infortúnio, eu não consigo me ver sentado na mesma mesa que pessoas fantasiadas de... Eu não sei o quê. ━━ Seu rosto de franziu em confusão. Realmente, Dante não tinha conhecimento algum sobre o que eles estavam vestidos, uma vez que ele tinha o absurdo talento de descartar informações desnecessárias, assim “possuindo mais espaço na memória para o que fosse revelante de verdade”. Provavelmente, em algum momento de sua vida alguém tenha lhe falado sobre animações japonesas/coreanas/chinesas, mas, o que um detetive faria com uma informação desta? Logo, já imaginamos qual foi seu destino: o esquecimento. ━━ E mesmo que eu tenha uma vida estagnada que particularmente não me orgulho, hoje meu corpo se convenceu que correu uma maratona de quatro quilômetros e, perdão se soa dramático da minha parte, mas você estaria salvando minha vida me deixando sentar nesse lugar.













