Desculpe ter feito segredo de sua morte por tanto tempo, de ter guardado sua existência nos confins de uma casa que se tornou fria e úmida sem nossas batalhas de meias. Fui na Bienal do Livro recentemente e te vi por um instante carregando sacolas bufando e reclamando dos valores superfaturados da praça de alimentação. Eu te vi no gramado, descansando depois de enfrentar uma fila para pegar um autógrafo da minha autora favorita por eu ser tão tímida na época. E eu era, né? Se você me visse agora. Tão corajosa, sem pudor. Respondona, mandona, e cheia de opinião como sempre.
Você reclamava do barulho, do calor, da muvuca. E entupia minhas prateleiras com arte, fantasia, cinema, história, música. Sempre penso em como devia ser pra ti. O medo de deixar dois órfãos, e era realmente solitário ter vocês dois no hospital. Eu montava e remontava pilhas de livros, lia e relia versos me reconfortando em passagens que não faziam mais tanto sentido assim no silêncio que vivia como um apito nos ouvidos por horas a fio, quando não tinha panelas sendo usadas, risadas altas preenchendo os corredores ou o som de Senhor dos Anéis e A Múmia pela milésima vez na TV.
Evitei grupos de família, não contei aos meus amigos, apenas sumi. Me isolei de todos, guardei segredo de ti, como se apenas nós três fossemos capazes de manter você em uma caixinha fechada para que ninguém estragasse o que você significava para nós e a quem você marcou ao longo da vida. As homenagens públicas que fizeram a ti não chegavam nem perto do que você foi capaz de mudar na vida dos outros.
Por anos evitei os livros e a fotografia como se negasse a mim mesma. Logo a câmera que você me deu, que você me levava tarde da noite para praticar e me manter com pés estáveis e paralelos para não desfocar, com o ISO no alto para tentar recuperar cada detalhe dos faróis altos e dos postes de luz quente.
Me ausentei da vida, me reinventei como pessoa, porque queria ser diferente e te dar orgulho, ser mais afetuosa, mais comunicativa, mais ousada e com menos medo do mundo. Mas nesse meio tempo, percebi que deixei de lado o que você mais lutou pra me dar: Essência. Criatividade, sabedoria, conhecimento, fantasia.
Deixo isso como uma carta aberta como uma forma de tentar me esconder menos. De ser menos despercebida. Porque, afinal, não faz sentido esconder minha essência. Veio de ti, e quero que continue existindo em mim. Nas minhas histórias. Nas que eu leio, e vivo como um filme dentro da minha imaginação. Você não me causou dor, mas uma falta. Foi o que pensei na época. Que boba eu, por não perceber que não existia falta nenhuma quando carrego tantos pedaços de ti. Na tua gentileza, na tua teimosia, na tua ruminação que nunca era apenas interna, no sarcasmo, o humor ácido e a calmaria em uma tempestade. Na raiva silenciosa e afiada, mas sempre sensível a uma piada imprevista. Na sua música melancólica que perdurava no rádio e em nossas viagens frias.
Faz dez anos, mas eu ainda lembro de subir nas suas costas e ver o mundo pelo seu ponto de vista, tão grande e com tantas texturas. Com tantas camadas, luzes e constrastes. Que me assustavam, e hoje não me contento em ter tão pouco do mesmo.