tommaso francesco “francis” montanari. 22 anos. cisgênero. expressão de gênero não conformista. pansexual, panromantic. filho de hades. lycans de lycaon. licantropo. teimoso. desconfiado. encrenqueiro. persistente. honesto. carinhoso.
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“Não, com certeza não. Mas viver com Hades não seria uma das melhores coisas para se fazer, mesmo morto.” soltou uma piada com um sorriso de lado. “Imagino que enlouquecer não fosse a melhor opção também.” concordo com o irmão, mas ao ouvir a fala do mesmo sobre as novas compras, o sorriso de Sienna aumentou consideravelmente. Era disso que ela estava falando, mesmo sem saber ao certo quando falou. “Sim! Ótimo!” falou com uma entonação animada. “Podemos nos divertir e fazer algo diferente com isso, little bro. Ainda bem que somos irmãos, porque você é praticamente obrigado a dividir esses tesouros comigo.”
“Ter que aguentar ele e Perséfone de uma vez? Dio santo, non.” negou rapidamente com a cabeça, desgostoso da ideia. Ainda que não conhecesse seu pai, preferia evitar falar sobre isso para não acabar atraindo a atenção do deus. Francis não sabia bem como lidar com o fato de seu pai ter lhe deixado durante três anos sofrendo no hospital psiquiátrico, quando o deus tinha a facilidade de tirá-lo dali a qualquer momento no início de sua tortura. Mas não era o momento certo para pensar nisso, tratando logo de oferecer um sorriso para a irmã. “Eu sou obrigado? Quem disse? Sabe que eu vou te cobrar alguns dracmas pela minha boa bebida, não é? Ou quem sabe... arrumar minha cama, lavar minhas roupas da semana... de graça não dá.”
ㅤㅤㅤ━━ ❝ㅤ a pior parte da promessa que havia feito para ritsu era ter responsabilidade e cuidar dos campistas novos. era tão entediante ter que ficar sorrindo para um bando de criança perdida na vida e explicar sobre o mundo dos deuses e como o acampamento funcionava, mas pelo menos tinha a companhia de um de seus irmãos favoritos naquele dia.ㅤ❛ㅤquíron devia criar um vídeo de boas-vindas logo, assim ia facilitar a nossa vida.ㅤ❜ㅤbufou, apoiando um braço no ombro de francis enquanto encarava as crianças. ㅤ❛ㅤcapaz de eles acordarem pra vida depois do primeiro treino com espadas. alguém sempre sempre se machuca.ㅤ❜ㅤexperiência própria. ash riu sozinho ao se lembrar de como havia sido sua primeira semana no acampamento. bons tempos.ㅤ ❛ㅤna verdade tenho uma ideia melhor. que tal fazer um teste de coragem com os pirralhos? soltar eles no bosque de noite e deixar os esqueletos do hades ver se eles estão mesmo preparados pra vida de semideus.ㅤ❜
“Devia, não é? Talvez ele esteja precisando de uma sugestão.” atirou com um sorriso sendo direcionado para o irmão. Francis logo voltou a olhar as crianças, não querendo perder nenhum dos pestinhas de vista. Pior do que ter que acompanhá-los nas boas vindas, era ter que procurar quando alguém se perdia. “Cazzo! Sì! O treino é com certeza onde eles caem na real.” concordou com uma risada mais divertida. Tinha sido assim para si, afinal. Não com espadas, mas com o combate corpo a corpo. Percebeu o quão ruim era em se defender e como estaria em apuros caso não melhorasse. “Espero que algum deles seja de Apolo pra ver se assim quando alguém do grupo se machucar, consigam fazer algo útil.” tinha os braços cruzados contra o peito mas inclinou-se na direção alheia, apoiando-se um pouco no outro semideus. “Isso implicaria em termos que aguentar todos eles até escurecer, não é?” fez uma careta. “Como sugere que a gente consiga isso? Porque eu mesmo já estou entediado... mas talvez dê pra arriscar porque seria muito engraçado ver esses pirralhos correndo dos esqueletos.”
Tomou um leve susto ao escutar a voz de Francis, que estava logo atrás de si. Estava tão absorta nos próprios pensamentos que não percebeu que ele estava ali até falar além que estar justo atrás de si não facilitou a parte visual de tudo. Respirou pesadamente e acabou sorrindo quando finalmente escutou o comentário dele sobre a fogueira, como a areia seria mais assertiva, embora ela não estivesse necessariamente tentando apagar. Mudar a cor era algo mais próximo, mesmo que não fosse.
“Duvido até que areia seja capaz de apagar essa fogueira. E, mesmo que conseguisse, eu não ia querer encarar Héstia chegando aqui para tirar satisfação comigo!” Comentou com simpatia lembrando-se das histórias sobre a fogueira. Assim como todo e qualquer fogo no acampamento, a fogueira era regida por Héstia e por isso tinha aquela propriedade mágica ( por vezes irritante ) de refletir os sentimentos mudando sua própria cor. O tom de azul, aliás, parecia mudar um pouquinho. “Aliás, ainda bem que estava sentada ou o susto que me deu me faria cair de cara no fogo.” Não sabia se havia algum outro tipo de magia na fogueira, mas não queria encarar o fogo para testar. No fim, sabia que o susto tinha sido mais sua culpa por estar com os pensamentos tão longe, ainda assim sorrio faceiramente para ele.
“Enfrentar Héstia realmente não é o melhor jeito de terminar a noite.” teve que concordar. A verdade é que preferia evitar todos os deuses, até mesmo seu pai. Francis não tinha um contato com Hades desde o dia em que este tirou-lhe do hospital psiquiátrico e, se dependesse só de si, continuaria desse jeito. Mas soltou um riso leve com o dizer alheio, não tinha a intenção de assustá-la; esquecia com facilidade que tendia a ser um tanto quanto silencioso em seus passos. “Desculpa, dessa vez não queria te assustar.” comentou. “Achei que tinha ouvido meus passos.” Francis acrescentou, aproximando-se um pouquinho mais embora ainda com uma certa relutância, não queria que sua presença afetasse a cor do fogo, odiava expor seus sentimentos, ainda mais de maneira inconsciente assim. “Mas nah, acho que não iria te queimar, se fosse na direção dele. Não acho que Quíron deixaria um fogo comum por aqui com os filhos de Hermes prontos pra fazer alguma pegadinha.”
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Fazendo apenas dois dias desde que chegara no acampamento, parte de Asami ainda sentia como se estivesse presa num sonho muito, muito longo. Tinha mesmo acabado de descobrir a existência de deuses, monstros e… sátiros? Qual é! Não se surpreenderia se acordasse a qualquer segundo no sofá da mansão e à tempo de ver subir os créditos de “As Crônicas de Nárnia” ou qualquer filme de mitologia. Nas palavras de sua terapeuta, Alcott sempre tivera uma mente muito imaginativa, principalmente durante o sono. Ainda mais depois que sua mãe havia falecido.
E talvez fosse por aquele motivo que, ignorando todas as recomendações enfaticamente recebidas, havia escapulido para fora das barreiras e agora se encontrava caminhando no meio da floresta — o iPhone 5 com meia barra de bateria erguido acima da cabeça enquanto tentava, pela graça de Cristo, conseguir algum sinal de cobertura e acessar a internet. Acordada ou não, sua mente era incapaz de deixar de lado a preocupação sobre o julgamento do pai. Sites de fofoca o tinham rondado a semana inteira. Se a sentença tivesse saído, certamente já a teriam publicado àquela altura.
Mas depois de minutos andando, o que acabou captando através das árvores foi algo diferente. O grito ecoou alto e desesperado o bastante para que Asami, tensa dos pés à cabeça, resolvesse seguir hesitantemente sua origem ao invés de correr para longe. E foi assim, escondida atrás de uma grossa árvore, que viu pela primeira vez o rapaz estirado no chão da floresta. A ideia de que estivesse morto lhe atingiu rapidamente, travando a garganta; mas tão logo os segundos passaram, foi capaz de notar com alívio a fraca movimentação de sua respiração.
Após certificar-se de que não havia perigo, ela se aproximou. Notou a camisa rasgada, o sangue que escorria da ferida aberta no braço, e soube ali que o menino precisava urgentemente de ajuda. Seu instinto foi tentar levantá-lo, mas logo viu-se no chão ao se perceber incapaz de carregá-lo sozinha. Junto à queda, a dor na palma da mão denunciou um corte por pedregulho. Em fato, denunciou bem mais do que aquilo:
Por mais bizarros que os dois últimos dias estivessem sendo, ela não tinha como estar sonhando.
[…]
Sentada junto aos filhos de Hermes no horário do jantar, Asami observava a movimentação em torno da fogueira. Campistas faziam preces e oferendas; ninfas – tão bonitas – serviam frutas e distribuíam risadas. Ainda estava atordoada, tanto que só notou a aproximação quando o filho de Apolo tocou em seu ombro. A notícia que havia passado a tarde inteira esperando foi, pois, finalmente entregue a ela, que deixou a comida pela metade e se apressou em direção à enfermaria. Lá, traçou o caminho até a maca do novo campista. “Você acordou.” Asami constatou com um sorriso. Talvez o primeiro que abria desde que havia reatravessado a barreira.
O corpo dolorido e fraco não era nada incomum para si, considerando que, no hospital, sempre tinha alguma dor ou desconforto. A novidade seria se estivesse bem, sem dores. Tinha se acostumado com o fato de que os tratamentos e os remédios lhe deixavam sem forças, com todo o corpo cheio de dores; então não era isso que estranhava ali. Podia nem sequer ter aberto ainda os olhos, mas Francis já desconfiava que algo não estava certo.
Primeiro havia o cheiro. Não era nada parecido com o cheiro estéril que seu quarto tinha. A falta de aromas sempre lhe irritou, mas foi algo que passou a esperar todas as vezes que despertava. Ali, no entanto, a abundância de perfumes lhe deixava confuso. Havia um leve cheirinho de flores, de terra molhada e, claro, o inconfundível cheiro dos remédios. Mas mesmo isso não era como o que convivia durante os últimos três anos.
Segundo, os sons. Seu quarto costumava ser silencioso quando a porta estava fechada, os barulhos do lado de fora não penetravam as paredes grossas. A porta abafava qualquer ruído. Ali? Vozes baixinhas e risadas divertidas soavam ao longe, assim como algumas tosses e gemidos ocasionalmente de dor também eram facilmente identificados por si. Essa parte era a mais estranha, levando em conta que, quando ia para alguma sessão de tratamento, costumava tirar os aparelhos auditivos, então quando acordava, era com o silêncio que era saudado. Esquecera de fazer seu pequeno ritual? Pelo visto sim, essa era a única explicação para estar ouvindo tão bem.
Para completar a estranheza, Francis sentiu um toque suave em seu braço. Ora! Uma coisa eram os fantasmas conseguirem entrar em seu quarto e ficar ali murmurando conversas aleatórias enquanto esperavam que ele despertasse; mesmo que essa situação fosse incomum, claro, já que os fantasmas respeitavam sua privacidade e não entravam em seu quarto sem sua permissão explícita, mas outra coisa era alguém conseguir lhe tocar! E ainda sem que isso lhe causasse mais dor do que já sentia! Imediatamente abriu os olhos, assustado com aquele toque. Não esperava ver um garoto parado à sua frente, muito menos que este lhe oferecesse um copo de algo que cheirava suspeitosamente familiar, como os biscoitos que sua mãe assava. “Beba isso, vai ajudar.” o menino falou, o italiano feio carregado com o sotaque americano quase lhe trouxe uma careta à face. Mas não estava em situação boa para reclamar, ainda mais que conseguia identificar com dificuldade o inglês que os outros ali dentro daquele espaço desconhecido falavam. O fato era: Francis não sabia o idioma muito bem, sabia inglês apenas o suficiente para não parecer um idiota em suas aulas quando as tinha.
Ao beber o líquido, surpreendeu-se com o gosto que era identifico ao cheiro: os biscoitos caseiros de sua mãe, além de ajudar realmente um pouquinho com as dores. O garoto continuou falando então, lhe contando uma história absurda sobre deuses, sobre serem semideuses e como Francis foi atacado na floresta por um lobo. Isso era um sonho? Como se não bastasse isso tudo, o loirinho avisou que havia uma garota preocupada consigo, ela, aparentemente, lhe salvou ao avisar que ele fora atacado na floresta. Isso era com certeza a alucinação mais estranha que tivera, mas ao ver uma menina adentrando no ambiente com rapidez e realmente mostrando uma feição preocupada... o garoto teve que encará-la confuso. “Você... me salvou?” perguntou, sendo a sua vez de falar agora um inglês feio e cheio de sotaque. “O que... está acontecendo? Você é um deles? Um dos fantasmas?”
Aos dez anos quando foi levado para o hospital psiquiátrico, o pequeno Tommaso nutria uma pequena esperança de ser resgatado pelos pais após alguns poucos dias. Quando um mês se passou, essa expectativa começou a se esvair, embora não tivesse muita noção dos dias, considerando que passava a maior parte dopado com remédios fortes que, segundo os médicos, iriam servir para afastar as alucinações.
Mas como podiam fazer os seus amigos irem embora, se eles eram reais?
As crianças tinham dez anos, eram magricelas, baixinhas, tinham vestes pobres, encardidas. Marcelo e Samuele, segundo os próprios, morreram há vários anos quando as pessoas da cidade começaram a adoecer de maneira súbita, febre, delírios, vômitos… as crianças disseram que aquela doença se chamava peste negra, mas que eles não sabiam bem como que alguém conseguiu escapar de contrair aquele mal. Francis não se importava se os meninos um dia estiveram doentes, agora eles pareciam bem para si, mesmo que tivesse ouvido que ninguém conseguia se comunicar com mortos, deveria haver alguma exceção, sì? Afinal, ele próprio fazia!
Essa amizade o levou para o hospital, mas ao invés de melhorar, era quase como se ficasse pior. Nas primeiras semanas aprendeu que não devia confiar em ninguém, não deveria conversar com ninguém. Quando tentava fazer amizade com alguém que parecia ansioso para falar consigo, momentos depois algum médico aparecia alegando que ele estava fazendo de novo, estava cedendo à própria loucura e precisava tomar seus medicamentos. Não eram pacientes comuns, não tardou em entender.
Tommaso percebeu que o hospital não era um bom lugar para permanecer pois muitas pessoas morreram ali, alguns espíritos permaneciam presos, outros apenas se recusavam a partir pois não sabiam como era estar fora dos limites do ambiente. Estar sozinho nunca foi um problema, podia facilmente desligar seus aparelhos auditivos e apreciar o silêncio. Mas como permanecer calmo, quieto, sem esboçar reações que fizessem os médicos lhe darem remédios, se alguns mortos começavam a assinar LIS para si?
De alguma forma, enquanto assinava com Marcelo e Samuele, os outros fantasmas tinham aprendido o idioma. Tão poucas pessoas em sua vida sabiam como falar verdadeiramente consigo, sabiam como não exigir que ele falasse ou que ligasse o aparelho, ficava difícil ignorar aquele esforço, mesmo que isso resultasse em mais remédios, em mais métodos pouco ortodoxos de tratamentos. Seu corpo, no final do dia, parecia ter passado por um ralador de tomates, mas muitas vezes valia a pena conversar com os novos amigos que fizera por ali. As opções eram difíceis, mas as escolhas se tornavam fáceis.
“Você não pode continuar falando com os outros, Francis.” Elle sinalizou com as mãos, os dedos se movendo de maneira rápida depois de anos conversando daquela forma com o garoto que, atualmente, finalmente voltou da sala vermelha. “Eles estão te levando com mais frequência.” a criança parecia agitada, com medo pelo amigo. Mas fantasmas não sentem medo ou qualquer outra alegria, não é? Com certeza a recente sessão de choques lhe prejudicou mais do que temia. Sem seus aparelhos, estava fadado a permanecer com os olhos abertos para focar amigo.
As mãos tremiam as ergueu após alguns segundos quieto, tentava se esforçar para conseguir mexer os dedos para fazer os sinais, mas as falanges rígidas dificultavam bastante. “Eles aprenderam a falar comigo.” conseguiu responder antes que desistisse que o cansaço lhe tomasse e ele começasse a murmurar: "Ninguém fez isso antes. Só vocês… e eles.” os mortos lhe davam mais valor que os vivos. Entendeu isso quando conheceu aquelas crianças que lhe acompanhavam para todos os cantos. Antes que pudesse responder mais, um médico entrou pela porta. Tommaso calou-se.
O homem esguio, de cabelos escuros e olhos pretos caminhou até sua cama e o observou em silêncio. Se Francis não estivesse de costas e sem forças para se virar, teria visto o homem fixar o olhar em Samuele; se o pequeno não tivesse fechado os olhos para esperar alguma injeção, teria visto a expressão do amigo ganhar um quê de reverência para o médico. “Durma, criança. Você precisa descansar.” a voz não era como as dos outros médicos e o toque em seu cabelo bagunçado não trazia dor, como sempre acontecia quando alguém ali tocava em si.
A mão quente indicava que o médico era um dos vivos, mas o motivo dele não lhe machucar de imediato, não sabia. A única coisa que Francis tinha conhecimento no momento, era em como seu corpo parecia pesado e como o sono passou rapidamente a dominar seus sentidos. Se Francis estivesse mais consciente do seu entorno, teria percebido que ouviu a voz do homem mesmo sem os aparelhos auxiliares em seus ouvidos, notaria que as palavras suaves ressoavam em sua mente… mas bem, o menino já cedia aos encantos do sono profundo.
“Non.” a morena, pela primeira vez em mais de um século, sorriu honestamente para um homem que não fosse Thorn. “Eu poderia mentir e dizer que sim, mas sou muitas coisas… mentirosa nunca foi uma delas.” Apesar da feição mais suave, ela ainda não tinha coragem de erguer o olhar. “A verdade é que vai de Lycan para Lycan… meu lobo não confia em nenhum dos outros, pois sabe que minha forma humana não confia neles…” deu de ombros, nunca escondeu de nenhum outro semideus suas desconfianças e medos.
A morena suspirou, enrolando uma mecha do cabelo no dedo. Os lábios prensados em uma linha fina enquanto ela pensava nas suas próximas palavras. “Fazer parte da matilha nos fortalece, então talvez você possa entender como melhor… Eu costumo me transformar sozinha e as transformações são dolorosas quando não tem outros como eu por perto.” finalmente a rainha ergueu a cabeça para olhar o italiano, o coração começando a acalmar, apesar de não estar cem por cento confiante.
“Estou aqui pois Thorn acredita que sua companhia e até amizade possa me fazer feliz, me ajudar…” começou, não mentindo para o moreno a sua frente. “A verdade é que eu não consigo confiar nas pessoas facilmente. Não é a historinha de mamãe me abandonou e eu tenho trust issues... ouvi varias pessoas perguntando isso desde que cheguei.” revirou os olhos, lembrando quando quase atacou uma filha de Hermes por ter dito que ela deveria aprender a confiar mais nas pessoas e que os problemas dela nem deveriam ser tão sérios assim, afinal, quase nenhum semideus tem uma história feliz. “…mas eu confio minha vida a Thorn, ele me ajudou a chegar aqui e se ele confia em você, se acha que eu posso te ajudar, vice e versa, eu vou acreditar nele…”
A semideusa mencionou para que o rapaz saísse do chalé dele, para que a dupla pudesse ir para outro lugar. Já estava saindo de sua zona de conforto em passar seu tempo sozinha com um homem que não conhecia, ela pretendia levá-lo para um lugar aberto, caso fosse preciso fugir… Não que ela fosse tão paranoica, mas sua história de vida a fez ser desconfiada. Resolveu que a praia seria um lugar excelente, afinal, teria uma chance de outros semideuses por perto e várias saídas.
Como de costume, a rainha estava com sua melhor postura, segurando as mãos na frente do corpo enquanto caminhava, sentindo seu vestido longo se arrastar no chão do acampamento. “Acredito que essa parte em virar amigos, o qualunque cosa, que deveriamos compartilhar fatos… então, hum, qual sua cor favorita?”
Com isso, Francis bem simpatizava. Quando em sua forma de lobo, permanecia longe do acampamento pois tinha medo do que os semideuses poderiam ser capazes de fazer. Não temia atacar alguém, apenas ser atacado. As pessoas não eram dignas de confiança e se estivesse como um lobo, seria uma luta injusta. A última coisa que precisava era causar a morte de alguém que tentasse lhe atacar e sentir-se culpado por isso. “Sim, eu... não sou a melhor pessoa pra confiar nos outros também.” confessou. Mesmo agora, ainda que um tanto quanto relaxado e dando-lhe a chance de explicar o que desejava consigo, permanecia preso ali contra a porta do chalé.
“Eu sei.” murmurou. Tinha enfrentado transformações dolorosas ao longo dos anos, sofria com algumas luas que pareciam piores do que as outras tanto dias antes quanto depois. Uivar sozinho para a lua, com o coração clamando por companheiros lupinos e aquele desejo avassalador de possuir uma âncora para firmar seus sentidos era agoniante. E embora soubesse que não deveria, Francis acabou se acostumando. Seria assim pelo resto de sua vida, ou pelo menos foi o que acreditou. Até agora.
Aquela parte selvagem de si parecia querer curvar a cabeça para indicar que estava ouvindo-a com atenção e que as palavras eram aceitas; mas nem mesmo se o próprio Lycaon aparecesse em sua frente, Tommaso sabia que não se curvaria daquela forma. Então resistia, ignorando seus instintos e permanecendo com os olhos castanhos fixos nos da moça.
Como não tinha uma história tão boa com sua família, resignou-se a assentir em concordância. Pareciam ser semelhantes naquele aspecto, considerando que aqueles que também deveriam lhe amar, tinham lhe afastado e lhe enviado para um inferno onde foi maltratado por três longos anos. “Eu sei que não dá pra confiar assim do nada, não se preocupe, tenho um pé atrás com noventa e nove por cento das pessoas aqui do acampamento, mesmo com aqueles que conheço há quase dez anos.” confessou, encolhendo os ombros. Nem era novidade esse fato, todos sabiam da desconfiança explícita de Francis para com os campistas. Por isso passava tanto tempo em seu chalé, afinal.
Com um olhar de hesitação, demorou alguns segundos para assentir ao convite, abrindo a porta para mexer as mãos nos sinais de LIS para os dois fantasmas que permaneceram aquele tempo todo observando a conversa dos dois semideuses. Por ela ser irmã de Thorn, merecia o direito da dúvida sobre suas intenções ali, mesmo que não conseguisse entender o porquê de alguém desejar fazer amizade consigo tão de repente. Ao avisá-los que daria uma volta com a garota, voltou-se para a semideusa, seguindo-a mas mantendo uma certa distância. “Ao contrário do que as pessoas podem afirmar... não é preto.” respondeu, mesmo que somente a camiseta laranja que vestia carregasse cor, já que a saia, a meia calça e as botas eram pretas. “Eu gosto bastante de vermelho. E a sua?” indagou de volta. “Ah e eu não... sabia que a matilha tinha uma Alpha. Você... lidera tudo?”
Por causa de toda confusão dos semideus achados mortos, os treinamentos dos semideus de certa forma foram intensificados, o que fez com que Sienna trabalhasse mais do que o normal e os seus dias estavam sendo basicamente trabalho, refeitório, trabalho, dormir e novamente trabalho. Sentia que iria explodir de tanta exaustão, mas não a física: a mental.
Com um suspiro e de supetão, a filha de Hades levantou-se da cadeira de forma rápida e barulhenta. “Se eu passar mais um dia nesse ciclo infinito de trabalho e dormir, vou morrer. Ou pior, enlouquecer.” desabafou a loira, logo em seguida olhando para a pessoa ao seu lado querendo uma companhia para o que quer que fosse que fariam naquele final de tarde ocioso. “Então, tem algo para fazermos e sairmos dessa monotonia terrível que se tornou a minha vida?”
“Considerando quem somos, morrer não é algo tão ruim.” ponderou. Como filhos de Hades, eles teriam algum poder no Mundo Inferior? Não tinha uma resposta para isso, nunca visitou o reino de seu pai e não tivera contato com o deus depois que ele lhe tirou da clínica, então não podia afirmar com certeza. Mas especular? Ora, isso podia! “Agora enlouquecer... realmente não seria legal.” concordou, sabendo bem o que acontecia com pessoas que eram declaradas insanas. “Eu comprei algumas coisas com uma filha de Hermes, alguns lanches legais e umas bebidas... interessantes. Meu estoque está renovado e eu poderia compartilhar com você, sorellina.”
Semideus... lobisomem... fora da clínica. Aquela nova realidade era confusa e Tommaso continuava assustado com tudo o que as pessoas tinham lhe contado. Fazia poucos dias que estava no acampamento, mas de certa forma se convenceu de que não, esta não era mais uma de suas alucinações estranhas induzidas pela medicação que era forçado a tomar. O garoto preferia acreditar que tudo era verdade e que, de fato, os amigos que enxergava eram reais, não delírios por causa da tal esquizofrenia com a qual foi diagnosticado — erroneamente, segundo Quíron.
Aparentemente precisava cumprir uma programação e foi isso que o levou até o local onde seria ministrada a aula de combate corporal. Precisaria disso para quê? Bem, não fazia ideia. Não era a pessoa mais graciosa, não fazia ideia de como alguém confiaria em si para realizar alguma missão no futuro. Mas também não estava disposto a ir contra as ordens do centauro, não podia faltar a aula, ainda mais considerando que era a sua primeira e não haveria outros alunos. “Eu sei que isso vai dar errado, Marcelo, não preciso que me lembre disso.” reclamou. Samuele e Marcelo, os dois fantasmas que sempre lhe acompanhavam desde que tinha sete anos, zombavam de si alegando que a aula seria um desastre. Falava com os fantasmas em italiano mesmo quando entrou no local onde via o instrutor. “Mas o que queriam que eu fizesse? Dissesse não pra o moço metade cavalo? Ele podia dar um coice em mim!” declarou, olhando exasperado para o amigo.
Para qualquer pessoa que o visse agora, deveria ser estranho. Falava sozinho? Não. Mas para qualquer pessoa que não fosse filho de Hades? Sim. “Uh, você é... o instrutor?” indagou ao semideus mais velho.
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“Como punição? Mas é tão divertido! Adoro especialmente a parte em que ficam a olhar para o acampamento com aquelas expressões surpresas e espantadas.” E realmente era algo que Hunter pouco se importava de fazer. Se lembrava perfeitamente da primeira vez que tinha sido mostrado o acampamento e como tinha ficado encantado com tudo o que havia, era uma sensação que não voltava a ter. “Pois ai eles ficam mais assustados, mas espero que não vejam um monstro tão cedo né.” Apontou com uma pequena careta, quanto mais tempo os novos campistas estivessem sem ver um monstro, melhor. Ao ouvir o moreno falar sobre visitarem Argos, Hunter teve que semi cerrar os olhos mostrando um pequeno sorriso. “Você quer chocá-los?”
Por causa de sua chegada incomum e de como se sentia nos primeiros meses pela falta dos remédios que seu corpo tinha se acostumado a ser forçado no hospital psiquiátrico, Francis mal se lembrava como foi quando recebeu ajuda para conhecer o acampamento. Recordava-se vagamente de estar assustado pela nova realidade, com medo do novo local de moradia não ser tão bom como as pessoas falavam, mas, acima de tudo, tinha medo de mais uma vez não se encaixar e ser rejeitado. Embora acostumado com isso, era exaustivo. “Eles vão ficar com a ideia errada daqui se ficarem vendo só as coisas legais.” protestou. “Mas sim, eles são muito pequenos pra darem de cara com algum monstro, serviriam apenas de lanche, eu acho.” zombou, bufando um riso baixo. O sorriso que apareceu em seus lábios era travesso. Francis concordou com o outro semideus. “Sì, você não? Eles vão ser alvos fáceis dos filhos de Hermes se não souberem que existem coisas estranhas aqui.”
Ariel nem sempre ficava encarregada de recepcionar novos campistas, sua dificuldade de comunicação não era exatamente um forte para essa tarefa, mas levando em consideração que o acampamento estava com problemas, precisavam de todos para fazer de tudo e ali estava ela. Enquanto ouvia o filho de Hades, ela tinha os braços cruzados, encarando as crianças. Não era nem um pouco boa em lidar com elas, então deu de ombros enquanto descruzava os braços para começar a se comunicar pela linguagem de sinais. “Ele não vai assustá-las? A última coisa que eu iria querer ver é um homem com milhares de olhos. O que acha de começar pela praia? Ou a arena?”
“Essa é a ideia. Ele assustar esses pirralhos e eles perceberem que aqui não é um acampamento de férias.” revirou os olhos. Algumas crianças ficavam ali apenas nas férias, sim, mas mesmo estes tinham que entender que a vida no acampamento e como um semideus, não era nada fácil. Por si, preferia logo que eles notassem isso, assim a decepção quando as tarefas ou ataques em missões começassem, não ia ficar tão desapontados. “A arena. A praia por último, quando eles estiverem cansados e sem energia pra correr pra água, o que acha? Eu não vou correr atrás de nenhum desses pestinhas se eles começarem a se afogar.”
Thorn… o irmão que era um anjo e um demônio na vida de Astória. Quando o irmão voltou para o acampamento contou sobre um semideus que havia ajudado -ele também havia sido atacado por Lycan e sua vida não havia sido a das mais fáceis… tal qual a da Astória. Problemas diferentes, mas Tori nunca julgou o que era difícil ou não, Deus sabe o que cada um consegue suportar e parece que entre ela e Tomasso, ele havia colocado mais dificuldades e problemas do que momentos felizes.
E por isso Astória decidiu que tentaria o ajudar. Ela também precisava de ajuda, nunca assumiria para ninguém além de Thorn, mas nem sempre seu irmão estaria presente, ela precisava aprender a confiar em outras pessoas. Tori era a estranha em meio de tantas pessoas diferentes: ela não falava como uma pessoa daquela época, ela não se vestia como uma pessoa daquela época… céus, ela sequer socializava com ¾ dos campistas e ela temia que Thorn estivesse começando a perder a paciência em ter uma irmã que se grudava nele como um bicho assustando, o que ela era.
Portanto, com toda a coragem que ela não tinha, Astória bateu na porta do chalé de Hades e esperou paciente para que Tomasso aparecesse, dando um passo para trás quando viu o homem sair, seu coração acelerando. Talvez fosse um erro, talvez fosse cedo demais, mas agora ela já estava ali. “Buongiorno…” sussurrou, mas então se lembrou que ele tinha problemas de audição, não sabia se a licantropia havia o ajudado ou não, e ela estava tímida e nervosa demais para perguntar. “T-thorn me falou sobre você… sei que, hm, Lycaon lhe mordeu.” a semideusa de Caos seguiu falando em italiano, já que era a língua nativa dos dois, ela ainda tinha muitos problemas em falar inglês pois além de ter mudado em quase dois séculos, ela quase não usava a língua em seu tempo, sabia apenas frases importantes.
“Ele p-pediu para eu me apresentar.” a rainha da Espanha estava na distância máxima que poderia se considerada educada, evitando olhar para o rapaz. O coração completamente acelerado e ela sentia que desmaiaria a qualquer momento. “Meu nome é Astória Dal Pozzo, Lycaon me fez alpha… e-eu quero te ajudar, n-não sei você está na matilha ou não… mas algumas luas cheias são terríveis de se passar sozinho.”
Mesmo depois de anos, ainda era fácil ficar assustado com a nova realidade. Monstros, deuses, fantasmas, quando parava para pensar, tudo soava muito irreal. Mas Francis tinha que admitir que aquele acampamento era bem melhor do que o hospital em que passou os três anos depois de ser afastado da família. Não que fosse algo difícil, claro, até mesmo as ruas seriam melhor do que aquele inferno que enfrentou. As pessoas lhe tratavam agora com cuidado e respeito, ajudaram-lhe com a adaptação ao ambiente e com as tarefas que precisava aprender a realizar. Mas o mais importante? Eles pareciam felizes em lhe ter ali. Algo que o italiano não estava muito acostumado.
Ainda aprendia o inglês na prática, estava sendo bastante complicado, tinha tido um pouco de contato na escola contudo não era nada aprofundado, sete anos disso e conseguia falhar. Demorava para compreender o que os novos colegas falavam, às vezes perdia todo o contexto de uma conversa e ficava sem entender o que acontecia. Isso, para não mencionar, o quão estranho era ouvir sem precisar de seu aparelho auditivo. O fato de não ter mais isso para se apoiar quando não queria conversar com alguém ainda lhe frustrava. Para evitar desconfortos com todos os sons altos que ocupavam o acampamento durante o dia, Francis se trancava no silencioso chalé de Hades.
A companhia de seus dois fiéis amigos fantasmas era agradável e conhecida, algo que apreciava. Pelo menos uma coisa que ele tinha familiaridade. Descansava na cama conversando distraído quando a batida na porta soou. Ainda que tivesse a intenção de ignorar, tornou-se impossível quando Samuele, um dos fantasmas, começou a gritar que ele deveria atender. Meio irritado por ser forçado a enfrentar algum semideus, Tommaso abriu a porta com uma expressão desgostosa. Essa feição suavizou após uma surpresa inicial de ver a garota falando italiano. Automaticamente o garoto relaxou, pendendo a cabeça para o lado para desfrutar do idioma de nascença sendo usado de maneira tão correta, sem o sotaque feio americano. Sem contar que o nome de Thorn lhe fez espantar o mau humor quase que de imediato, por mais fechado e um tantinho rude que o homem fosse, ele não tinha lhe feito mal, muito pelo contrário.
“Tommaso Francesco Montanari... mas eu prefiro apenas Francis.” declarou com um leve assentir, a surpresa sendo mostrada em sua face quando a ouviu citar Lycaon. “Alpha? Também foi infectada com a licantropia?” perguntou diretamente, não sabia que a matilha tinha algum Alpha, mas automaticamente seu corpo parecia reconhecer a liderança alheia. “Passo minhas luas aqui, então não tenho muita companhia nesses dias.” explicou. “Eu... sei que algumas são ruins.” tinha aprendido isso da pior forma, mas segundo Quíron, não havia como evitar. “A matilha torna isso... melhor?”
“Recepcionar campistas novos deveria se encaixar como punição.” reclamou em voz baixa para muse. Não era como se tivesse se oferecido para a atividade, mas um de seus irmãos acabou lhe cobrando um favor e lá estava, sem escolhas, a não ser comparecer para cumprir aquele tormento que estava designado para o traíra. “Quero ver se essa empolgação dura depois de verem o primeiro monstro.” resmungou, observando duas crianças que conversavam com um dos sátiros. Ah, como sentia falta de poder apenas desligar seus aparelhos auditivos e não ouvir mais nada. “Quer levar os pestinhas pra ver Argos?”
“Va bene, va bene, allora non dire che non te l'ho detto!” ¹ Francis gritou para um dos fantasmas que lhe acompanhava. Essa não era uma cena incomum, o filho de Hades tinha dois companheiros que se recusavam a ficar no submundo, seus dois amigos que conheceu quando ainda era uma criança, os responsáveis por sua estadia de três anos no hospital psiquiátrico. Os dois fantasmas estavam presos na idade de dez anos, mas o semideus não se importava muito com isso, a mente deles era antiga. “Dio santo!” praguejou, dando-se por vencido para se levantar e se aproximar de muse, passando a mão esquerda nas pregas da saia xadrez enquanto com a esquerda segurava um copo de suco. “Ciao, tudo bem? Se eu fosse você, não bebia essa merda.” disparou. “Fui informado que uma cria de Hermes colocou algo aí dentro e...-” cortou-se, revirando os olhos ao ouvir um dos fantasmas reclamar que estava ocultando informações. “Sì, sì, por fontes seguras, fui informado por fontes seguras sobre esse detalhe, então se você não quer uma... Dio, como é a palavra? A consequência da dor de barriga? Enfim, se quer ficar bem, não toma isso.”
Os dias estavam passando mais devagar do que de costume ou talvez fossem o estresse que estava consumindo a britânica. Desde que sua irmã havia aparecido morta, Charllote estava trabalhando o dobro do que era esperado de uma conselheira. Estava de olho em todos os irmãos, checava as fronteiras do acampamento várias vezes ao dia além dos portais em busca de algo. Quíron havia lhe alertado que precisava descansar porque se desmaiasse de cansaço ou de fome não iria ser de muita ajuda quando fosse necessário. Ele tinha razão, ela sabia disso, todavia simplesmente não conseguia parar. Era como se a culpa da morte da irmã fosse sua, mesmo que não tivesse sido isso.
No final da tarde, resolveu seguir o conselho de Quíron por algum tempo e sentou-se a beira de fogueira que ficava no meio de todos os chalés do acampamento e observou seu fogo mágico. Assim que havia chegado no acampamento, ficou encantada com a forma que o fogo mudava de cor conforme os sentimentos daqueles que estavam por perto. Hoje, ela estava odiando aquilo. O fogo queimava alto e num tom de azul tão gélido. Demonstrava a sua tristeza. Ela achava que brilharia em vermelho sangue por causa da raiva que sentia daquela situação, porém a tristeza parecia lhe dominar. "Droga . . ." Não havia mais ninguém por perto, ao menos ela não via ninguém, e assim jogou uma pedrinha na fogueira numa ação tão infantil. Apoiou a cabeça nas mãos e continuou a observar aquele fogo azulado sem saber o que fazer.
A fogueira era um espaço que Francis evitava com todas as suas forças. O cheiro ativo do fogo deixava-lhe com o nariz agoniado; o olfato aguçado pela licantropia lhe fazia odiar cheiros fortes. Outra coisa que não dava para aturar era o barulho. Acostumado a uma vida silenciosa por causa da deficiência auditiva que acompanhou-lhe pelos seus treze primeiros anos de vida, a conversa alta e agitada dos semideuses incomodava-o profundamente em todos os momentos. Não deveria ser surpresa então que quando acabava o jantar, recolhia-se para o chalé em busca de um pouco de privacidade. Isto é, o tanto que se pode ter quando dois fantasmas lhe acompanhavam quase o tempo inteiro. Os amigos que fizera na infância permaneciam ao seu lado e, embora ficasse contente na maioria das vezes por ter a companhia das duas crianças, às vezes era irritante.
Foi por isso que tentou escapar dessa vez. Deixou-os presos no chalé assim que os fantasmas se distraíram, seus passos apressados levaram-lhe para o caminho que tanto odiava, mas que, por esta noite estar tão tranquila, decidira abrir uma exceção. A presença da filha de Afrodite não lhe perturbava, mas franziu o cenho para a cor azulada do fogo. Que os deuses o livrassem de chegar mais perto das chamas, permaneceu um tanto quanto afastado, mantendo-se pelo menos um passo atrás da loirinha. “Areia funciona melhor pra apagar do que uma pedra.” aconselhou.
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O sol brilhava intensamente naquela manhã de sábado perfeita para praticar algum esporte ou fazer um piquenique com alguém na praia para sentir a brisa e escutar a maré vindo e voltando. No entanto, nada disso fazia parte dos planos de Ariel que tinha sido arrancade da cama por terceiros para poder fazer parte de uma limpeza geral na praia, um local importante para prole de Poseidon por, bem, lembrar de seu passado e sentir-se bem no meio da água. Ao chegar no local, elu se irritou ao ver diversos lixos espalhados por todo o ambiente como se não fosse nada. Agora, fazia sentido ter sido chamade para aquilo, mas algo lhe incomodava: — Eu não acredito que vamos ter que limpar a sujeira de alguém. Você por acaso ouviu se o Quíron achou os culpados? — Questionou para a pessoa do seu lado que não sabia se iria participar ou não da ação. — Se sim, a vontade de pregar algumas peças está grande e seria divertido uma vingança. —
Quanto mais longe ficasse da água, melhor. Pelo menos ali da praia, claro. A expressão de desgosto em seu rosto ao caminhar para realizar a atividade que acabou sobrando para si depois de distrair-se em um dos treinos e quebrar alguns equipamentos. “Não acho que Quíron estava muito preocupado em saber quem fez isso.” Francis disparou, o sotaque italiano ainda forte em sua língua mesmo depois de nove anos morando no acampamento. “Mas as dríades devem ter algo pra falar, sì? Talvez alguma delas viu o que aconteceu ali do meio das árvores.” um olhar para trás e constatou que, embora fosse uma ideia pertinente questionar se alguma das criaturas tinha visto algo, não havia ninguém por perto no momento. Mas a menção a uma possível vingança fez-lhe sorrir. “Se descobrirmos quem foi, acho justo fazermos algo.”