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@temasdiversos
- Gustavo Ăvila

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Ela ainda existe em algum lugar que nĂŁo Ă© lugar.
NĂŁo no tempo, porque o tempo seguiu.
Mas em um tipo de espaço que ficou suspenso.
Ă noite lĂĄ.
Ela estĂĄ acordada, como tantas vezes esteve,
com os olhos pesados e o peito cheio de alguma coisa que nĂŁo tem nome.
O mundo ao redor estĂĄ em silĂȘncio,
e ela tambĂ©m aprendeu a ficar em silĂȘncio.
Ela chora baixo.
Não porque alguém mandou,
mas porque alguma parte dela entendeu que devia ser assim.
Como se o que ela sente fosse grande demais
e, ao mesmo tempo, pequeno demais pra ser mostrado.
Ela nĂŁo sabe explicar o que estĂĄ errado.
SĂł sabe que parece que fez algo errado.
Sempre parece.
E ninguĂ©m vĂȘ.
O quarto continua igual,
a noite continua passando,
e ela continua ali,
tentando caber dentro de um peso
que não foi feito pra alguém tão pequeno.
Ela nĂŁo saiu daquele momento completamente.
Parte dela ficou ali, repetindo aquela mesma noite,
como se estivesse esperando que algo fosse diferente.
Mas o tempo andou.
E, de algum jeito,
alguém cresceu a partir dela.
Alguém que olha pra trås
com uma ternura que dĂłi um pouco,
porque sabe que aquilo nĂŁo deveria ter sido assim.
E mesmo sem conseguir alcançar aquela criança,
sem conseguir mudar aquela noite,
existe agora uma espécie de presença
que antes nĂŁo existia.
Como se, finalmente,
ela nĂŁo estivesse mais completamente sozinha.
Que em meio ao barulho do mundo, vocĂȘ encontre um lugar que seja seu.
Um canto onde o peso nĂŁo grite, onde o peito nĂŁo precise se defender o tempo todo, onde existir nĂŁo doa tanto.
Porque lå fora jå exige demais, os dias apressados, as cobranças, os desencontros que cansam a alma.
Que vocĂȘ, em algum instante, consiga pousar em si mesmo, como quem finalmente chega em casa.
E que esse abrigo interno te sustente quando o mundo oscilar, te lembre que nem todo caos precisa ser seu, te ensine a ser chĂŁo para si.
Porque viver jå é travessia demais para também ser tempestade por dentro.
"Somos todos suscetĂveis ao autoengano quando este nos Ă© favorĂĄvel."
- Holly Black
à estranho como a saudade retorce memórias felizes até que elas se tornem dolorosas. O que antes aquecia, agora pesa e a gente começa a fugir justamente das lembranças que um dia mais quis guardar.

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Algumas pessoas passam anos tentando se preparar para viver. E um dia percebem que a vida aconteceu mesmo assim. E jĂĄ nĂŁo dĂĄ mais tempo de voltar para quem se era antes.
Sempre gostei de chuva forte. Nunca fomos do demonstrar. NĂŁo fomos ensinados ao colo fĂĄcil, ao carinho explĂcito. Por isso, o acolhimento encontrava outros caminhos. Na minha infĂąncia, ele vinha travestido de tempestade.
Quando a energia acabava, algo se acendia. Conversas surgiam sem esforço. SilĂȘncios deixavam de ser vazios. A casa parecia menor, mas eu me sentia maior dentro dela.
Hoje, ainda sinto isso. Quando chove assim, Ă© como se a casa viesse atĂ© mim. Como se, por algumas horas, eu pudesse baixar a guarda e ser acalentada â mesmo que por ninguĂ©m. Ou talvez por mim mesma, finalmente lembrada.
Quando a chuva vinha, a casa saĂa do lugar e me encontrava. Os trovĂ”es nĂŁo eram ameaça, eram aviso: agora o mundo vai falar mais baixo. A luz caĂa, as telas se calavam, e ninguĂ©m precisava explicar por que estava perto. NĂŁo fomos criados do abraço, do acalento. Fomos criados do silĂȘncio dividido, do afeto que nĂŁo sabia tocar, das gritarias infindĂĄveis. Eu, pequena, aprendi cedo que o acolhimento Ă s vezes vem do cĂ©u fechado e nĂŁo das mĂŁos. E mesmo que ninguĂ©m me lembrasse, a chuva lembrava. E me acalentava.
Ăs vezes me sinto egoĂsta sĂł por pensar em mim depois.
VocĂȘ fez uma escolha. Eu respeitei. TĂŁo bem que me esqueci de fazer a minha.
NĂŁo foi que vocĂȘ pensou sĂł em si. Foi que eu pensei em vocĂȘ primeiro todas as vezes.
Eu me convenci de que entender era maturidade, de que nĂŁo pedir era cuidado, de que ficar em silĂȘncio era nĂŁo atrapalhar.
E agora tento aprender, meio tarde, que me deixar pra depois nĂŁo me tornou melhor â sĂł invisĂvel.
Aprendi cedo que mĂŁos nem sempre seguram. Que abraços podem ser vazios, e que a ausĂȘncia sempre fala, mesmo quando nada Ă© dito. Ainda sinto pedaços de mim que ficaram em quem nĂŁo quis ficar. Ăs vezes sorrio para os outros, como quem nĂŁo sente, mas o silĂȘncio pesa mais que qualquer palavra. HĂĄ dias em que penso em festas que nunca foram, em famĂlias que nunca mostraram amor, e me pergunto onde isso me deixou. Cresci olhando para o mundo, tentando entender que alguns espaços nĂŁo foram feitos para nĂłs. Tentando entender que nem tudo Ă© para ser, apesar do querer. E ainda assim, sigo carregando o que ninguĂ©m ensinou a curar, entre o que perdi, o que fiquei, e tudo que nunca foi meu.

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Vou continuar âbemâ. Digo isso uma vez. Depois outra. NĂŁo por esperança, mas por hĂĄbito.
Fiquei para que ninguĂ©m percebesse as rachaduras. Segurei o que cedia, nĂŁo por coragem, mas por cuidado. Havia pouco a salvar, ainda assim, alguĂ©m precisava nĂŁo soltar. E isso, mais do que força, foi o peso de amar em silĂȘncio.
Carrego silĂȘncios que aprendi cedo demais. HĂĄ gestos em mim que nĂŁo sĂŁo meus, foram repassados para mim como quem passa algo quebrĂĄvel sem avisar.
Herdei olhos que veem demais e uma boca que mente para se proteger. Mentiras pequenas, dessas que não machucam ninguém, só seguram o mundo em pé por mais um dia.
Crescemos lado a lado, mas cada um aprendeu a se fechar de um jeito diferente. Nem tudo que acontece aproxima. Algumas coisas apenas nos colocam no mesmo espaço com distùncias novas.
Datas festivas doem como fotografias mal recortadas. Gente demais tentando sorrir em torno de um vazio que ninguém sabe onde pÎr.
Vejo pais segurando mĂŁos pequenas e me pergunto em que ponto isso se perdeu para mim.
A casa mudou sem aviso. NĂŁo ficou maior, ficou mais silenciosa. Minha voz se afastou como quem nĂŁo sabe ficar onde algo falta. Afastei-me deles. Afastei-me de mim.
Tento correr, mas a estrada sempre volta para o mesmo lugar. O passado nĂŁo pede permissĂŁo para sentar ao meu lado. Ele sĂł senta.
Jå tentei esquecer, reescrever a história, fingir que não foi comigo. Mas tudo que não foi dito continua aqui, ocupando espaço entre o que eu fui e o que ainda tento ser.
Soltaram minha mĂŁo no meio do caminho. NĂŁo houve queda, sĂł a ausĂȘncia repentina do gesto. Fiquei ali, tempo demais, esperando que alguĂ©m voltasse para explicar. NĂŁo sei voltar. O que ficou para trĂĄs jĂĄ nĂŁo me reconhece. NĂŁo sei ir. O que vem Ă frente nĂŁo me chama. Disseram que agora Ă© escolha, mas escolher exige prĂĄtica e eu sĂł aprendi a suportar. A liberdade pesa quando chega tarde e sem instruçÔes. Caminhos passam por mim, nĂŁo me levam. O mundo segue, e eu permaneço como quem perdeu o sentido da direção e finge que estĂĄ descansando. Talvez um dia eu ande. Hoje, fico. NĂŁo por covardia, mas por cansaço. NĂŁo existe mapa. E agora estou aqui, parada no meio do mundo, com as mĂŁos vazias e uma estrada inteira me olhando como se esperasse algo de mim.
"Apenas dĂłi; uma dor fantasma pelo que poderia ter sido."
- Emily Mcintire

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"Disse a eles pela primeira vez que nĂŁo andava bem. Mas estava claro que nĂŁo queriam falar sobre o assunto."
- Alex Schulman
" Sinto muito por tudo que eu nunca disse. VocĂȘ teve de carregar o fardo mais pesado. Eu me sinto mais triste por vocĂȘ. Ăs vezes eu observo vocĂȘ quando nĂłs estamos juntos. VocĂȘ estĂĄ parado um pouco de lado, geralmente em um canto, observando. VocĂȘ sempre foi o observador e ainda tenta se responsabilizar pelo restante de nĂłs. Ăs vezes eu tambĂ©m imagino coisas a seu respeito, sobre como vocĂȘ teria ficado se aquilo nĂŁo tivesse acontecido."
- Alex Schulman