Esta é minha última carta de amor
“Psiu! Ei gatinha, olha pra cá! ”. E eu olhei. Quem diria que um “psiu” ou a simples decisão de virar a cabeça naquela direção mudaria toda uma vida. Duas vidas, aliás. Mas aí eu te vi e toda e qualquer capacidade de raciocínio que um dia eu tive foi completamente anulada. Ninguém jamais contemplou Davi como eu contemplo a arte do teu corpo e a poesia que sai da tua boca, desde o primeiro dia. Alguns dizem que os opostos se distraem, outros que se atraem, mas eu digo que nossa oposição complementar criou uma verdadeira explosão cósmica digna de um Big Bang. Assim como a explosão originária, a nossa também criou um verdadeiro universo em mim. Mas cara, não dá.
Eu sei e você sabe. A gente insiste, resiste, mas tem coisa que simplesmente não pode acontecer. Eu queria aprender a fazer teus olhos de morada mesmo a distância, porém, quando a vida real me atinge e eu volto pra casa, tem sempre um turbilhão de razões pra não ficar. Daí quando eu te encontro meu áries impulsivo encontra teu sagitário louco e eu só sei comer na palma da tua mão. Esqueço que te amo tanto que não consigo respirar, porque cada célula do meu corpo dói tentando absorver cada pedacinho do seu.
O bom é que até o errado pode ser relativo. O que me lembra nossas conversas tarde da noite sobre a relatividade do universo, como tudo é uma questão de perspectiva e que na próxima vida a gente pode vir como aqueles casais sem sal que tomam café juntos e saem pra jantar. E que eu odiaria isso, porque eu amo nosso erro que gera caos.
A parte boa é que a ressaca de desintoxicação amorosa nunca vai doer como dói quando eu vejo você partir. Faz favor? Bota aquele plano de fuga em prática e vem correndo me buscar. Eu sei que eu disse que te amo muito mais do que é permitido pelas leis divinas, cósmicas, universais ou seja lá qual for a lei que rege o amor. Daí tu respondeu que a gente inventaria um outro sentimento só pra nós, porque amor já não é o bastante faz tempo. Eu sei que eu também disse que precisava pular fora pra preservar o restinho de sanidade mental que me restava e, como sempre, você respondeu que o bom é assim. “Porra, meu anjo, tu sabe que seu lado certo é o lado doido”. Sim, foi um prazer descobrir isso com você.
Logo você, o dito coração de gelo. Prometo não contar que quando as luzes se apagam tu sempre vem sussurrar no meu ouvido que eu sou teu ponto de paz em uma vida de guerra. “Eu preciso parar de te amar pra parar de sofrer”. Sim, eu sei que tu disse isso. Mas também disse que se arrepia o braço é que o bagulho vale ouro. Se isso tem propósito, eu não sei. E com isso eu digo essas palavras, nós dois, as inúmeras despedidas, as noites que dormi chorando e as noites que dormi sorrindo, todas graças a você. O que eu sei é que, se eu tivesse a chance, faria tudo igual outra vez. Quem sabe até eu fizesse psiu. Meus olhos sempre procurariam a sua direção, de qualquer forma. Mas cara, não dá. Aparentemente é proibido ser tão feliz assim com tão pouco, só com amor e samba, em uma vida só. Deixa pra próxima agora.






















