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Vendada
O Dia, 6:57 AM
Me sinto forte e segura e sei que pela primeira vez em minha vida eu tenho um objetivo. É o primeiro dia desde o começo do mês que me permito cruzar o limite entre minhas quatro consagradas paredes negras e o resto da caliginosa e pequena casa que é o único lugar do mundo que conheço. Tateio o íngreme caminho através da conhecida porta de mogno em busca de apoio – físico e emocional – para minha escapada secreta. Cruzo corredores negros e estreitos até me encontrar na mais ampla e fria sala da casa; a única na qual se é possível enxergar um pouco além das sombras. Estou ciente de meu desejo, mas não me atrevo a olhar logo de primeira. Sei que atrás da fortaleza improvisada feita de camadas espessas de papelão e fita isolante está o meu maior objeto de cobiça. Não precisaria de muito para destruir cada pedaço da barreira que me separa do meu grande anseio. Entendo que ultimamente tenho pensado nisso mais do que seria seguro, apesar das constantes advertências de minha mãe. Antes eu diria que ela estava certa, meus pensamentos estavam fora de controle e seriam a porta final para minha desgraça – ou como penso hoje, minha salvação. Eu sei exatamente no que estou me metendo – passei minha vida aprendendo sobre os riscos –, mas não tenho controle sobre a avidez que cresce dentro de mim a todo instante que se prolonga enquanto eu encaro a janela encoberta – a passagem proibida para o mundo além da minha mente. Respiro fundo três vezes antes de começar a rasgar camadas de papelão.
280 Dias Antes, 2:00 PM
Tenho muita sorte. Quero dizer, não sou a pessoa mais sortuda do mundo. Lidei minha vida inteira com minha persistente assombração particular chamada Doença de Stargardt. Mas sou extremamente sortuda tratando-se de outros assuntos. Se minha condição é uma assombração, minha mãe é a única força capaz de mantê-la longe. Assisti minha vida toda aos seus esforços para manter-me segura. Como ela me explicou desde cedo, minha doença exige que eu viva sob circunstâncias muito restritas. Ela afeta diretamente meus olhos e faz com que eu esteja sujeita a um total estado de cegueira caso me exponha a qualquer tipo de luz – natural ou artificial. É por isso que meu quarto é quase completamente escuro, assim como o resto da casa em que vivemos as duas e a qual, pelo que me lembre, nunca deixei. Quando ganhei meu próprio quarto, aos cinco anos, insisti para ter paredes cor-de-rosa, porém minha mãe pintou-as de preto azulado. Disse que desta forma meus olhos não precisariam se esforçar nem um centésimo a mais que o necessário. Toda a casa é desprovida de janelas – exceto pela sala-de-estar, mas esta foi completamente revestida. As paredes do resto dos cômodos são negras como meu quarto. Não pagamos luz elétrica. Minha mãe acorda cedo todos os dias e deixa a casa para buscar a comida que uma vizinha bondosa sempre faz questão de nos preparar – que é muito boa, apesar de estar sempre fria. Ela se certifica de acordar antes de mim para que nenhum vestígio de luz me encontre no momento em que ela sai. Me sinto culpada por fazê-la viver do mesmo jeito que eu, porém grata. Tenho mesmo muita sorte.
274 Dias Antes, 21:51 PM
Hoje eu perguntei para minha mãe se poderíamos acender velas para a ceia de Natal. Nunca conseguirei me esquecer de suas duras palavras de repreensão: “Não podemos comemorar como uma família normal pois não somos uma família normal. Me agradeça por conseguir ao menos olhar para o prato que come e aprenda a engolir seus caprichos”. Vou dormir chorando esta noite, porém, no meu íntimo, me sinto feliz por poder enxergar sua expressão reconfortante quando ela vem me consolar como toda vez.
260 Dias Antes, 5:08 PM
Acordei mais cedo do que estou acostumada – minha mãe ainda nem se preparou para buscar a comida do dia. Aproveito todo o tempo que passo deitada em minha cama, encarando o teto, perdida em pensamentos que divagam para além do mesmo. O silêncio nesta hora é mais profundo que o normal – nada de cachorros latindo, carros buzinando ou crianças gritando. É como se o mundo através das paredes fosse uma continuação do meu próprio mundo. Me sinto completa, quase como se eu pertencesse à escuridão e à quietude lá de fora. Sorrio porque a falta de distrações me faz acreditar, satisfeita, que a vida é apenas o meu quarto e nada me falta porque eu vivo no todo.
223 Dias Antes, 1:06 AM
Limpo o suor pegajoso das minhas têmporas e encaro o rosto familiar na minha frente. Percebo que tudo não passou de um susto. As mãos de minha mãe me envolvem num abraço tranquilizador e consigo, finalmente, me acalmar enquanto sinto as lágrimas cessando. Já tive alucinações como esta, na teoria. Mas esta noite foi tudo tão real. Eu abri os olhos, nesta mesma cama, e, por um minuto, não consegui enxergar a porta à minha frente. Esfreguei minhas pálpebras com tanta força que ainda as sinto latejar. Meu coração batia desenfreado enquanto eu me levantei, num súbito, e corri para a sala, para tentar captar um pouco da luz que sempre teima em permear em parte a camada protetora. Soltei um grito que jamais pensei que pudesse sair de mim quando não consegui ver nada além da escuridão. Minha mãe me encontrou, posta de joelhos no meio da sala enquanto meu corpo todo convulsionava no mais completo estado de pânico. Foram suas palavras de conforto que me fizeram voltar vagarosamente à realidade. Agora, novamente em minha cama, respiro aliviada por ainda ter minha visão. E sei que não preciso de mais nada para ser feliz.
190 Dias Antes, 9:25 AM
Tenho oficialmente treze anos hoje. Não que isso faça muita diferença. O tempo para mim é apenas uma abstração; uma montanha-russa imaginária com as duas extremidades conectadas e sem grandes subidas ou descidas. Todo dia é apenas um dia e vivi somente um extenso e deprimente ano. E escuro. Muito escuro. Mas treze é um número de sorte, minha mãe diz. Não sei se acredito muito, mas sorrio em resposta e assopro todas as pequenas velas do bolo caseiro que me foi preparado. Tem cheiro de cereja em conserva e chocolate barato. Como um pedaço e falo que estou satisfeita, para que possa ser deixada sozinha por um tempo. Tenho dias bons e dias ruins, como qualquer outra pessoa. Hoje é um dia especialmente ruim. Os dias ruins são todos marcados por uma sensação que há tempo eu venho tentando inibir. É como uma voz baixa no fundo da minha mente me alertando que estou sendo privada. Estou sendo privada por minha mãe e por mim mesma. Quando expliquei para ela sobre este sentimento, ela me disse que o nome dele é ingratidão. Nunca me pareceu um nome apropriado, mas aceitei-o instantaneamente. Hoje é um dia de ingratidão, porém sou grata pelo poder da escuridão de cancelar tudo ao meu redor, inclusive minha tristeza.
158 Dias Antes, 2:17 PM
Hoje é um dia de ingratidão particularmente marcante. Meus pensamentos são fantasmas que impedem meu corpo de dormir. Sinto muitos medos e resolvo listá-los em minha cabeça: tenho medo de ficar cega, tenho medo de estar sendo privada e tenho medo da luz. Não consigo me decidir qual destes medos é o maior. De madrugada, porém, todos eles são um só e me assombram a alma, me acorrentam em um estado de plena consciência e divertem-se com meu corpo enquanto me reviro em uma busca incessante pelo sono. Quando finalmente caio na inconsciência, sonho com janelas fechadas e paredes negras.
125 Dias Antes, 5:00
Tudo está diferente. Meu estado de insanidade que antes ocupava apenas meus pesadelos hoje é um velho conhecido e me faz companhia no dia-a-dia. Não sei mais quem eu sou. Não sei se um dia soube. Toco meu corpo e não o reconheço, não entendo como ele pode me pertencer. Sinto que estou aqui e que sou matéria, porém eu vago muito além da pele que puxo e belisco em uma tentativa de torná-la real. Estou na sala-de-estar e encaro a velha janela recoberta. De repente, sinto que sou mais ela do que eu mesma. Não sou carne, sou papelão e fita isolante. Sou a moldura de madeira e sou a luz que ela esconde.
98 Dias Antes, 2:03 AM
Desperto ofegante de mais um pesadelo. Esta noite foi algo que nunca antes tinha visto no submundo particular que são meus sonhos. Desta vez eu estava sob a terra. Era mais escuro que meu quarto e eu esfregava as pálpebras em busca de visão. Eu era só tato e olfato e sentia camadas úmidas e pesadas de algo consistente caindo sobre minha pele. O cheiro era de terra molhada. Eu me debatia e gritava desesperadamente tentando fugir do meu próprio enterro. Por um instante, consegui captar um fino feixe de luz e nele enxerguei o braço de minha mãe que se agarrava a uma pá.
48 Dias Antes, 15:29 PM
Nesta tarde, fui visitada por um pensamento que muito me assustou: eu preferiria estar cega.
44 Dias Antes, 17:00 PM
Ela sabe. Minha mãe sabe sobre o que se passa em minha cabeça. Ela é onipresente nesta pequena casa e minha mente não é nada mais que outro quarto escuro no meio destes corredores. Sua presença me sufoca e me intimida. Acrescento seu nome em minha lista mental de medos.
1 Dia Antes, 23:13 PM
Tenho medo dos meus próprios planos, mas estes se formam na minha cabeça independentemente de minha vontade. Neste momento não me sinto humana – sou um aparelho programado para a autodestruição. Não temo tanto o fim como temo o agora. Minha mente está feita e agora não tenho mais caminhos para retornar para o meu conforto na escuridão. Esperarei pela manhã, o momento em que minha mãe se levanta para sair. Assim que escutar o já muito conhecido baque da porta se fechando, enfrentarei meus quatro medos da lista, todos de uma vez só.
O Dia, 7:01 AM
Pedaço por pedaço. Uso as duas mãos e até os dentes para chegar até a próxima camada. Assisto ao chão à minha volta enquanto ele se enche de fragmentos picotados de papelão. Sinto a adrenalina percorrer todo o meu corpo e esta, por si só, já é a minha cura. Agora já percebo, mesmo através de meus olhos fechados, uma quantidade significativa da luz do sol recente invadir a sala. Ela me atordoa e me queima, mas eu a venero. Puxo o último pedaço. Para a minha surpresa, não tenho medo de abrir os olhos e o faço sem pensar. O que vejo é estonteante. O sol que nasce através da cerca encobre o gramado com uma luz fraca, porém palpável. Meus olhos se estreitam numa tentativa de melhor se ajustarem e contemplam meu adversário, que esbanja sua claridade em tudo que é visível. Encaro minha própria pele. Meus braços, meus ombros, minhas mãos; são todos agora partes de uma realidade, validados pela luz. Sinto meu corpo tornar-se meu e também do mundo. O som da minha própria risada me desperta de meu torpor e me acolhe para uma vida completamente nova. Abro a tranca enferrujada e salto para fora de meu confinamento. Sinto a grama macia e úmida em minhas costas quando me deito e encaro o céu que sempre foi meu mas eu nunca soube. Percebo minha lista mental de medos, antes sempre presente no fundo de minha consciência, dissipar-se e dar lugar a um novo pensamento: induzida ao medo de ser cega, passei minha vida como uma. Aproveito a calmaria latente que me invade e me traz um pouco do sono que por tanto tempo havia fugido de mim, porém não fecho os olhos. Não os fecho nem por um instante.