Confesso que não estou no momento mais inspirador para escrever o meu texto do ano. Clarice nomeou bem esse sentimento de paz e glória que engrandece a alma e escorre arte dos nossos olhos até os nossos dedos. Mas já que ele é um momento especial demais e não acontece em qualquer momento, decidi relembrar sobre tudo que aconteceu comigo no decorrer dos meses assim mesmo, porque -inspiração a parte- tenho muito o que agradecer.
Iniciar o ano em Recife foi glorioso, mas como o futuro é um retrato abstrato, mal sabia que seria o fim de um ciclo marcado por alegrias e pesares. A chave do meu apartamento chegou as minhas mãos mais cedo do que eu previa, minha namorada colocou os poucos pertences no carro, percorreu umas sete/oito horas de viagem do dia oito de fevereiro e assim iniciamos um novo ciclo, com cuidado, temendo pisar em falso e mudar todo o rumo da conquista.
Entrar no 302 foi tão feliz quanto sentir o sentimento glorioso de Clarice. Conquistei um pedacinho de lugar para por minhas alegrias, meus gostos. Pintei uma parede, coloquei quadros que escolhi, comprei mais plantas, vi o sol nascer da minha janela numa noite de insônia. Tomei café forte com o sol das seis encostando no meu rosto. Dormi -quase- todos os dias do ano ao lado da pessoa que me torna mais forte à cada ano que finda.
Aos poucos fui descobrindo o quão instável é o meu trabalho e o quanto isso abriu caminhos para eu modificar alguns traços -ainda- inflexíveis de mim. Inúmeras vezes acreditei que seria o fim da linha, chorei, desacreditei. No outro dia eu mesma tinha descoberto a solução. A vida é tão mais fácil do que a gente pensa, sabe? Pena que a gente é desesperado e esquece. Hoje, após tantos rodeios da minha profissão, tenho calma diante das adversidades. Tudo é tão inconstante. E eu que sempre tive dificuldade para conviver com mudanças, aceito e espero tudo se ajeitar.
Ah como eu aprendi a conviver com sentimentos ruins. Sentimentos até então conhecidos mas aprimorados, mais cruéis, humilhantes. Caí centenas, milhares de vezes. Mas, ah, os livros! Sem eles, como sairia dos labirintos da minha mente? Lutei com meus próprios demônios com a poesia de Clarice, Pessoa. Agarrei-me aos ensinamentos e experiências pessoais de Lacombe, e falhei com a biografia de Van Gogh. Porém alcancei minha meta de leitura. Ler alimenta a poesia interior que é morta todos os dias com as obrigações do cotidiano.
Conquistei coisinhas tão desejadas mas tão pequenas que me constrangeria em citá-las. Nossas conquistas são realmente nossas, ninguém se interessa tanto quanto nós; e esse foi um dos meus maiores aprendizados do ano. Fiz e faço por mim, por quem eu amo. Nada mais interessa.
Minha família se tornou ainda mais minha maior fonte de todas as coisas boas. Valorizei cada segundo de conversa com meus pais, entendi melhor as bizarrices de adolescente do meu irmão, fomos tão melhores esse ano. Eles nem imaginam do que eu seria capaz por eles. Nem precisam saber, mas se precisarem de qualquer miudeza serei a maior e a mais forte de todas as pessoas existentes.
Viajei muito menos do que o que eu queria, mas fui presenteada com um puta por do sol e um banho de rio com águas tranquilas numa cidadezinha que jamais esperava. Vi o contraste do sol descendo reluzir no barquinho do pescador, e fotografei o momento com os olhos da memória para nunca mais esquecer.
Aprendi muito, ganhei muito e sou muito, muito, muito grata por 2018. De forma ampla, foi um ano tranquilo, pessoas novas chegaram e me trouxeram muita felicidade. Pessoas foram saindo devagarzinho. Voltei a jogar bola e conquistei uma medalha. Obrigada por tudo 2018. Obrigada por tudo Deus. Universo. Imensidão. Continuarei emanando energia pura e fluida para que tudo retorne bem. Que eu conquiste mais, que eu aprenda mais, que eu lute mais, que eu ame mais -ainda mais- no ano que tá batendo na porta. Que eu seja justa e segure a mão dos meus próximos.