Minha experiĂȘncia como lĂ©sbica butch
Antes de iniciar, acho que vale notar que a minha experiĂȘncia com a lesbianidade e com gĂȘnero se relaciona imensamente com o fato de eu ser autista, sendo algo que afeta diretamente meu comportamento e visĂŁo de mundo, influenciando fortemente para eu, por exemplo, ter uma dificuldade de compreensĂŁo (no sentido de enxergar uma lĂłgica e sentido) e perpetuação das normas sociais, e logo, dos papĂ©is e estereĂłtipos de gĂȘnero, dessa dicotomia do mundo em homem/mulher e diferença de tratamento com base na genitĂĄlia com a qual a pessoa nasceu. Com 10 anos, eu nĂŁo compreendia, por exemplo, que havia diferença para a sociedade um menino cis ficar sem blusa em pĂșblico, e uma menina/pessoa AFAB â no caso eu â ficar sem blusa em pĂșblico (foi um episĂłdio engraçado, inclusive).
Eu sempre senti essa pressĂŁo enorme para performar feminilidade, principalmente sendo uma pessoa AFAB (designado mulher no nascimento) e tendo caracterĂsticas fĂsicas que nĂŁo correspondem totalmente ao que se espera de um corpo AFAB. Enquanto eu ia crescendo e vendo as meninas ao meu redor se tornando âmulherĂ”esâ, com âcorpĂŁoâ e tudo mais, eu continuava e continuei com minha aparĂȘncia um tanto âinfantilâ, como se as caracterĂsticas âfemininasâ nĂŁo tivessem se desenvolvido ou tivessem se desenvolvido pouco em comparação Ă s outras, entĂŁo geralmente as pessoas pensam que eu tenho 13-15 anos e que sou um menino:
Desde criancinha eu jĂĄ tinha muitos pelos corporais escuros e grossos. Com 6 anos minhas pernas jĂĄ eram bem cabeludas e motivo de deboche na escola, com 9 anos a minha quantidade de pelos pubianos jĂĄ era muito parecida com a quantidade que tenho agora como adulto, e com 13 a 14 anos eu tinha bem mais pelos nas pernas e nas axilas do que meus colegas homens cis. Mais tarde na adolescĂȘncia, eu estava sempre tentando me livrar deles, depilando ou descolorindo (ambos horrĂveis), pra me encaixar no que esperavam de mim e isso sempre foi extremamente exaustivo e frustrante, atĂ© porque eu sequer gosto da minha perna lisa, tanto esteticamente quanto sensorialmente falando. Eu gosto dos meus pelos, foi a sociedade que me ensinou a nĂŁo gostar deles. E esse processo de exterminĂĄ-los tambĂ©m era por si sĂł muito cansativo jĂĄ que eu tenho muitos pelos, entĂŁo eliminĂĄ-los nĂŁo Ă© uma tarefa fĂĄcil e nem rĂĄpida, principalmente considerando que sou uma pessoa autista, e era ainda pior considerando que em 1 mĂȘs jĂĄ seria necessĂĄrio passar por esse terrĂvel processo novamente (ao menos nas pernas), e ficar basicamente repetindo isso pelo resto da vida;
Tenho peito pequeno que dificilmente fica aparente se eu não estiver usando uma blusa mais justa, sendo algo que eu desde cedo aprendi a odiar e sentia muita insegurança pela maioria das outras meninas terem peito maior que o meu. Atualmente gosto dele, apesar de ainda bater uma insegurança ao ver pessoas com peito grande;
Tenho uma voz um pouco mais grossa do que o esperado (ainda Ă© lida como âfemininaâ, mas ela beira a androginia);
Deixar meu cabelo curto jĂĄ Ă© o suficiente pras pessoas me lerem como homem 99% das vezes;
Me sinto muito desconfortĂĄvel de maquiagem (sĂł gosto de lip tint) porque sinto que nĂŁo combina, nĂŁo faz sentido comigo, nĂŁo fica bonito em mim como eu acho que fica em outras pessoas, apesar de eu querer que ficasse. Ă como se tivesse algo âerradoâ quando estou de maquiagem;
Quando era mais novo, eu não gostava de usar saia e vestido pelo mesmo motivo de não gostar de usar maquiagem (atualmente uso, mas questiono até que ponto eu genuinamente gosto de usar e até que ponto é uma reprodução das expectativas que me foram impostas);
NĂŁo tenho o comportamento mais âfemininoâ do mundo: o Nunca fui uma pessoa vaidosa, sempre priorizando conforto acima de aparĂȘncia; o NĂŁo ligava/gostava de comprar roupa; o Tenho preguiça/nĂŁo faço questĂŁo de pintar e arrumar as unhas, preferindo elas curtinhas; o Meu comportamento/conduta geral (modo de andar, sentar, e coisas do gĂȘnero relacionadas ao meu modo de me portar âfisicamenteâ) parece mais prĂłximo do comportamento esperado de homens do que de mulheres; o Nunca dei muita importĂąncia pra regras de etiqueta no geral, comportamento mais comumente esperado de homens do que de mulheres; o Nunca me liguei muito nas coisas do âuniverso femininoâ de modo geral; o Tenho maus hĂĄbitos ânojentosâ e hĂĄbitos de higiene que sĂŁo comumente classificados como âde homemâ por serem considerados uma postura mais desleixada e anti-higiĂȘnica (como tomar pouco banho, resultado das minhas questĂ”es relacionadas ao autismo, como disfunção executiva e o excesso de informaçÔes e etapas que envolvem os momentos antes e depois do banho);
Quando criança, eu tendia a brincar mais com os meninos do que com as meninas, e na prĂ©-adolescĂȘncia continuei a andar mais com meninos, e inclusive parece que minha afinidade com meninos e dificuldade de interagir e lidar com meninas se intensificou.
Enfim⊠Simplesmente existir do jeito que eu sou e me sinto confortĂĄvel Ă© considerado pela sociedade como imprĂłprio pra mim, como algo que nĂŁo Ă© o âcertoâ pro papel e gĂȘnero que me foram impostos porque sĂŁo âcoisas masculinasâ.
Todas essas caracterĂsticas que eu citei sĂŁo coisas que eu gosto/amo em mim e sinto orgulho (atĂ© mesmo as âruinsâ, simplesmente porque fazem parte de quem eu sou), nĂŁo sĂŁo coisas que eu nĂŁo gostava/odiava naturalmente, sĂŁo coisas que eu aprendi a odiar e queria me livrar porque a sociedade me ensinou que elas eram erradas pra mim e porque a sociedade nĂŁo me aceitaria tendo essas caracterĂsticas, e as minhas tentativas de mudĂĄ-las foram unicamente por pressĂŁo pra me encaixar nas expectativas da sociedade. E a minha frustração Ă© ainda maior quando vejo que essas mesmas caracterĂsticas que condenam quando sĂŁo expressas por nĂłs, mulheres e pessoas AFAB, sĂŁo ignoradas ou atĂ© mesmo tratadas com naturalidade quando sĂŁo expressas por homens cis, e nĂŁo sĂł isso, muitas vezes sĂŁo esperadas que eles as tenham, e incentivadas. Essa diferença de tratamento Ă© algo que me fere e revolta profundamente. O que hĂĄ de tĂŁo errado e absurdo em eu ser desse jeito? Por que eles podem e eu nĂŁo?
Eu tambĂ©m amo nĂŁo corresponder ao que a sociedade espera de mim como âmulherâ, amo nĂŁo estar em conformidade com as normas e expectativas de gĂȘnero, gosto que o meu jeito de ser naturalmente vai de encontro com isso sem eu nem precisar me esforçar pra desafiar esses estereĂłtipos e imposiçÔes (eu nĂŁo tento ser desfem de forma proposital, eu simplesmente tenho essas caracterĂsticas e comportamentos porque eu sou assim, e eu gosto do fato deles serem âpouco femininosâ).
Eu sĂł nĂŁo tenho roupas da sessĂŁo masculina porque minha mĂŁe mal me deixa pisar lĂĄ, entĂŁo quase todo meu guarda-roupa Ă© de roupas da sessĂŁo feminina, e tenho no mĂĄximo uma ou duas roupas unissex. Quando eu estou com roupa mais neutra/unissex, as pessoas geralmente me leem como homem, e com roupa âfemininaâ geralmente me leem como mulher. No entanto, tambĂ©m jĂĄ aconteceu mais de uma vez (e tem acontecido com certa frequĂȘncia ultimamente) de eu ser lido como homem mesmo estando com uma roupa que era pra ser âfemininaâ, entĂŁo Ă© realmente um mistĂ©rio pra mim saber quando vĂŁo me ler como mulher, acho que sĂł acontece quando eu estou usando roupas bem evidentemente âfemininasâ e/ou que marquem bem o meu peito (se bem que uma criança uma vez jĂĄ me leu como menino mesmo eu estando de vestido, entĂŁo sei lĂĄ kk).
PorĂ©m, eu tambĂ©m tenho caracterĂsticas socialmente associadas ao conceito de âfeminilidadeâ. Ser uma pessoa tĂmida, quieta e reservada, gentil e delicada, gostar de coisas fofinhas e pequenas, gostar de rosa, Ă s vezes usar saias e vestidos. SĂŁo caracterĂsticas que eu tambĂ©m gosto em mim, e antes de entender de fato o que Ă© ser butch, ter essas caracterĂsticas me fez questionar se elas eram compatĂveis com alguĂ©m ser butch, se alguĂ©m podia ser butch e ter essas caracterĂsticas.
As pessoas mais velhas que me conhecem (famĂlia e amigas da minha mĂŁe, que sĂŁo gente dos 40/50 anos pra cima), e claro, sabem que sou AFAB, tendem a me ver como uma pessoa delicadinha e bonitinha, âfemininaâ (principalmente se me veem usando vestido/saia) por uma simples questĂŁo de me enxergarem como mulher e me associarem a feminilidade sĂł por eu ser AFAB e quererem reforçar isso, mesmo eu nĂŁo sendo âfemininoâ na maior parte do tempo, porque quem nĂŁo me conhece e vĂȘ na rua geralmente vai me ler como homem, e nĂŁo Ă© nem ficar em dĂșvida se eu sou homem ou mulher, Ă© ler direto como homem sem hesitar, e depois me pedir desculpa quando descobre que sou AFAB. Tem se tornado atĂ© cada vez mais frequente pessoas conhecidas da minha mĂŁe perguntarem pra ela âesse Ă© o seu filho?â quando eu estou junto com ela.
EntĂŁo assim, todas as caracterĂsticas que eu falei, tanto âmasculinasâ quanto âfemininasâ, sĂŁo coisas que eu gosto em mim. As coisas classificadas como âfemininasâ sĂŁo coisas que eu faço/sou sem associar elas diretamente a gĂȘnero (por exemplo, eu uso vestido/saia sĂł porque acho que fica bonito em mim). Eu gosto de desvincular essas coisas de gĂȘnero, de nĂŁo ver/definir coisas que eu faço e uso como âfemininasâ ou âmasculinasâ, sĂł que as caracterĂsticas âmasculinasâ eu tambĂ©m gosto de ver como formas de resistĂȘncia, formas de lutar contra as imposiçÔes sociais de gĂȘnero, de quebrar com o padrĂŁo que tentaram impor em mim, o que me faz muitas vezes meio que abraçar a âmasculinidadeâ e sentir afinidade com ela, pois sĂŁo as âcoisas masculinasâ que me trazem conforto e liberdade pra ser quem eu sou. Por exemplo, eu gosto da combinação de usar saia ou vestido enquanto eu tambĂ©m tenho muitos pelos corporais para uma âmulherâ, porque isso contribui pra eu quebrar com o padrĂŁo imposto e esperado de mim, contribui pra eu nĂŁo me conformar com a feminilidade imposta a mim, e tambĂ©m a ter uma expressĂŁo de gĂȘnero mais andrĂłgina. Meus pelos estĂŁo aqui porque eu gosto deles, e eu estou usando esse vestido porque eu gosto dele, e eu amo ter essa expressĂŁo de gĂȘnero âambĂguaâ e nĂŁo-conformista de gĂȘnero.
No passado, antes de me entender butch, eu jĂĄ senti algo muito esquisito em relação Ă minha identidade de gĂȘnero porque parecia que eu sentia âmasculinidadeâ na minha identidade, sĂł que nĂŁo era a masculinidade âtradicionalâ, como se nĂŁo fosse masculinidade âde verdadeâ, e eu simplesmente nĂŁo sabia explicar isso. Pra mim era quase como se fosse um âquarto gĂȘneroâ (feminino, nĂŁo-binĂĄrio, masculino e esse outro âmasculinoâ), um âoutro tipoâ de masculinidade (uma âmasculinidade softâ) que nĂŁo era masculinidade mesmo, porque a masculinidade mesmo eu nĂŁo me identifico, nĂŁo gosto e nem me atraio. A sensação que eu tinha era como se eu tivesse âcriadoâ a minha prĂłpria âmasculinidadeâ, uma âsubcategoriaâ que estava simultaneamente dentro e fora da âmasculinidadeâ (dentro por ter sido criada a partir da masculinidade, tendo ela como base, e fora por nĂŁo ser masculinidade de fato). Tipo, eu sinto gender envy e euforia de gĂȘnero com personagens masculinos fofos, gentis e delicados que quebram com os estereĂłtipos de masculinidade, nĂŁo sĂŁo agressivos/brutos, nĂŁo reproduzem a masculinidade tĂłxica, sĂŁo pouco âmasculinosâ/mais âafeminadosâ, etc. E eu tambĂ©m sou uma pessoa delicada e gentil, entĂŁo acho que por isso tambĂ©m esses personagens me causam tanto entusiasmo e identificação, alĂ©m da quebra de padrĂ”es de gĂȘnero, retratando uma masculinidade de forma diferente do esperado (tipo como eu faço). Agora sinto que, alĂ©m do xenogĂȘnero gĂȘnero-fofo, a subcultura butch me ajudou a me entender muito melhor em relação a isso.
Como dito antes, eu nunca satisfiz os padrĂ”es de feminilidade que a sociedade me impĂŽs e espera de mim simplesmente por existir do jeito que eu sou e fazendo o que gosto e me sinto confortĂĄvel, sendo classificado como âmasculinoâ demais, mas eu nĂŁo sou homem. Ă uma relação complicada de gostar e sentir maior afinidade com âcoisas de homemâ sem ser homem. Ă incorporar a âmasculinidadeâ na minha conduta e jeito de ser, sem ser homem. E, no entanto, apesar de ser âmasculino demaisâ, tambĂ©m Ă© quebrar com o padrĂŁo de masculinidade, porque nĂŁo sou homem. Mesmo sendo âmasculino demaisâ pro papel que me foi designado, eu tambĂ©m nĂŁo sou âmasculino o suficienteâ pra masculinidade padrĂŁo, e nem quero ser. Pra começo de conversa, nem foi eu que nomeei o meu simples modo de ser e existir como âmasculinoâ, mas jĂĄ que Ă© assim que chamam, que assim seja.
A feminilidade compulsĂłria, a imposição da feminilidade, Ă© algo devastador e extremamente exaustivo pra mim. Me forçar a caber nessa caixa que esperam de mim Ă© muito frustrante e danoso pra minha prĂłpria identidade. NĂŁo sou femme porque, realmente, nĂŁo me vejo de forma nenhuma como construindo minha prĂłpria feminilidade, nĂŁo vejo minha identidade nem nada do que eu sou como dentro da feminilidade, nĂŁo me classifico dessa forma, apesar de ter coisas que gosto e faço que podem ser classificadas como âfemininasâ de acordo com a sociedade. Me vejo abraçando a âmasculinidadeâ, ou melhor, essas coisas que eu faço e sou que a sociedade chama de âmasculinasâ. E realmente nĂŁo me importo se a minha existĂȘncia Ă© classificada assim. NĂŁo sou homem, mas sĂŁo essas coisas ditas como âde homemâ que me trazem tanto conforto e me fazem tĂŁo bem, entĂŁo acabo percebendo minha identidade como bem mais prĂłxima da masculinidade do que da feminilidade, embora eu me entenda como estando fora de ambas. NĂŁo hĂĄ nada de errado com a feminilidade, Ă© sĂł que a mim, ela aprisiona, enquanto que a âmasculinidadeâ me liberta, me permite ser quem eu realmente sou. A tentativa de me imporem a feminilidade simplesmente destruiu minha relação com ela. NĂŁo consigo me sentir bem com a feminilidade, nĂŁo consigo me reconciliar com ela, nĂŁo consigo sentir que a feminilidade faz parte da minha identidade. Mesmo quando uso vestidos e saias, mesmo quando me refiro a mim como âprincesinhaâ e coisas do gĂȘnero, Ă© da forma mais agĂȘnero possĂvel (se Ă© que isso faz sentido para vocĂȘ leitore, mas caso nĂŁo faça, para mim faz), Ă© um âprincesaâ que nĂŁo classifico como feminino, apenas como delicado e fofo.
Enfim, tudo isso Ă© tĂŁo difĂcil de explicar e traduzir. Abraçar a identidade butch me fez muito bem, de verdade. Sinto que facilitou meu prĂłprio entendimento, e simplificou demais tudo isso que eu nĂŁo sabia explicar.
Eu sou butch, ponto.












