about shattered hearts and broken bones; w. Sirius Black
À priori, jurou tratar-se de brincadeira. O mal estar sentido se iniciara na falta de resposta por parte de Black desde que enviara a mensagem, mas Remus julgou que ele estivesse zangado demais, julgou que qualquer coisa poderia acontecer, na verdade, menos o que de fato se sucedeu. Em sua fala tremula, Remus pediu para ser dispensado da livraria, meias explicações entrecortadas enquanto ainda revia na mente a mensagem de James, o golpe que pareceu perfurá-lo e transformar o que restara de seu coração em farelos.
Devia ter estado lá, devia ter conversado direito, devia ter dito que estava tudo bem, devia tê-lo perdoado.
As pernas moveram-se sem que nem pensasse direito, empurrando pessoas, coisas, quase sendo atropelado nas esquinas, engolido pelo desespero, pelo medo. Um mundo sem Sirius Black não era um mundo no qual Remus queria estar presente, nunca seria. Não valeria a pena.... E era sua culpa.
Lupin sequer notou quando começou a chorar, sua fala embolada quando, após vinte minutos de corrida (graças à proximidade do local com o seu de trabalho), finalmente alcançou o hospital, finalmente conseguiu falar com alguém e perguntar onde ele estava, onde seu Sirius estava. Mas como facilidades não pareciam querer imperar naquele dia, foi dobrar a ala correta para ver ali, reunidos, a família Black. Orion, sem qualquer sinal de desconcerto em sua face ou consternação. Walburga, que o mediu dos pés a cabeça, de seus all star surrados até os fios grudados à testa apesar despeito do vento gelado lá de fora, fixando-se em seu rosto choroso e avermelhado. Outras pessoas que ele não conhecia, e com as quais não poderia se importar menos, dirigindo-se diretamente aos pais dele então.
“How is he?” Ele perguntou, seu timbre perdido, a voz mero fiapo de maneira que teve que repetir-se antes de ouvir que ele estava vivo. Algo quebrado, mas bem. As lágrimas que escorreram, então, fora de alívio. Seu sorriso surgiu pequeno, mas grato, os olhos claros se direcionando ao teto em oração, as mãos passando pelo rosto ao aproximar-se mais. “Can I see him?”
“Apenas familiares, garoto. Sinto muito.”
E então o ar faltou. A fala tão seca, tão cruel provinda dos lábios da mulher, sem um pingo de emoção ou piedade. “Please, let me see him. Please.” E sim, aquilo era implorar, ele conhecia bem o próprio tom. Mas se rendeu algo, fora apenas o desgosto e tédio de seus interlocutores, que ameaçaram chamar a segurança. “But he is my....!”
“.. My friend. He is my friend.” E foi como ter uma faca girando em seu coração, perfurando-lhe a carne. Naquele estado, Remus não tinha qualquer chance. Ele deixou-se levar para fora sem protestos, deixou-se encostar contra o concreto e sentiu o corpo escorregar contra a parede, chorando mais, os soluços ressoando claramente no ar daquela tarde tipicamente londrina, tipicamente nublada.
Lupin não evitou pensar que ele merecia o sol.
Foi só quando os amigos chegaram, só quando entraram e tentaram como ele, só quando Lily o abraçou, que Remus finalmente se acalmou. E foi quando já desesperançado, já satisfeito em, talvez, dormir contra os bancos do hospital apenas para estar ali, que James lhe apontou a janela, da qual há poucos minutos descera. O sorriso torto em seus lábios acalentou o coração apertado de Moony, abraçando o melhor amigo sem sequer pensar duas vezes e, sem pensar igualmente, ele logo subiu pelas trepadeiras do muro e alcançou a janela.
E lá estava ele e Remus, depois de horas que pareceram milênios, sentiu como se respirasse pela primeira vez. Sua visão já se nublava, os olhos correndo pelos machucados, pelos arranhões e pela canela quebrada, o gesso ainda molhado e mais brilhante e, então, sua cabeça. Enfaixada, seu rosto com pequenos cortes provenientes do asfalto e, se aproximando em silêncio, foi o pedaço não ferido que ele tocou em resvalar suavíssimo do indicador direito e foi franzido o cenho que sequer buscou conter as lágrimas que escorreram, do rosto para o lençol. “I’m so sorry, doggie.” Ele disse, finalmente, e finalmente se deixou apoiar contra a beirada da cama, não querendo ir ao chão pela culpa que parecia querer esmagá-lo.
Ele o amava. E amava demais.