Russiaverse (one-shot)
ANTES DE LER: Baseado no livro “Thousand Pieces of you” da autora Claudia Gray. Todos os personagens são da autora Claudia Gray, como também o enredo da história. Abaixo está uma nova versão de um fato importante que acontece no meio do livro. Então, cuidado porque tem SPOILER!
Quando abro os olhos, o quarto ainda está escuro, o fogo da lareira deve ter acabado durante a noite. Me levanto, vou até a janela e observo o alvorecer tímido, o sol abrindo caminho entre as nuvens. Não consigo dormir sem ter aqueles pesadelos, a dor de vê-lo estendido na maca, a pele pálida e a respiração fraca. Nem lembro quanto tempo passei ao seu lado, segurando sua mão, e pedindo que ele não me deixasse, não depois de tudo que passamos. “Não me deixe, Paul, não me deixe”. Sentia os olhares sobre mim, mas não importava se o czar iria me condenar, me mandar para Sibéria, podia ir para qualquer lugar contando que Paul sobrevivesse. Após um tempo, o médico do hospital de campanha tentou me tirar dali, “Não tem mais o que fazer, vossa Alteza, a senhora precisa descansar. Vossa Alteza Vladmir, logo estará aqui para leva-la.” Não queria ir, mas quando Vladmir chegou, eu desabei, contei tudo o que ocorrera comigo, pelo menos do que me lembrava, Vladmir ouviu paciente e disse que eu devia estar em estado de choque, fomos perseguidos e quase mortos por nosso tio numa tentativa de golpe, quase tinha morrido de hipotermia no meio de uma nevasca. Paul tinha sido um herói, salvou Katya e eu dos soldados leais ao Tio. Ele saiu no meio da nevasca para me encontrar quase desmaiada e com hipotermia. Salvou a minha vida duas vezes. Um herói desfalecendo na maca de um hospital de campanha. “Sei do carinho que tem pelo tenente Markov, minha querida irmã, mas não temos o que fazer aqui. Deixe que os médicos façam o trabalho.” No fim, acabei cedendo.
Enquanto Vladmir fazia os arranjos para nossa partida, fui ao encontro de Henry Caine, nosso tutor e, agora sei, meu pai biológico. Como não tinha desconfiado antes? Como não tinha percebido? Mas eu lembrava, ele tinha que saber que eu lembrava, lembrava de tudo que tinha acontecido no último mês enquanto a outra Marguerite dominava meu corpo. Encontrei-o numa tenda, com outros soldados. Eles terminaram a conversa assim que entrei, e os soldados saíram com uma reverência. “Vossa Alteza. A que devo a honra de sua visita?” Henry parecia cansado, mas com um ar esperançoso. Ele sabia que eu não era mais ela, aquela Marguerite tinha ido embora. “Eu lembro”, foi tudo o que consegui falar. Vi os olhos de Henry se encherem de lágrimas. “Não sabia que era possível”, ele disse. Apenas acenei com a cabeça, e abri os braços. Pela primeira vez, senti o abraço dele, senti em mim, na minha pele. E novamente desabei. Não tinha mais forças. “Minha menina, tenha fé”, ele disse por sobre meus ombros. Sua voz saiu embargada, mas seu abraço era firme. Eu não queria sair dali. Nunca. “Ele precisa sobreviver, preciso dizer a ele, preciso...” Henry me afastou e olhando nos meus olhos, ele disse que ia fazer o possível para que Paul se recuperasse, mas que agora o mais prudente era voltar para Moscou, para junto de Peter, Katya e Vladmir. O czar não ficaria contente em saber que fui para o meio da batalha para ver Paul. Na verdade, a outra Marguerite fugiu com Henry do acampamento do czar assim que soube que Paul havia se machucado em batalha. “Você é forte do que pensa”. Antes de ir, o fiz prometer que enviaria notícias de Paul, boas ou ruins.. Antes de voltar a St Petersburgo, recebi uma carta de Henry falando que Paul fora removido para um hospital próximo a Moscou e que ficaria lá até que se recuperasse totalmente. Meu primeiro impulso foi visita-lo, ficar ao seu lado, mas Henry sabia que isso era um risco pediu que não viesse, ele ficaria com Paul até o fim.
Já se passaram meses, e Paul ainda não voltou. A última notícia que tive foi quando Henry retornou para St Petersburgo, ele disse que Paul havia sido levado para casa de algum parente próximo e que não teve a chance de falar com ele antes de ir. Fiquei feliz com o retorno de Henry, ele aceitara continuar como nosso tutor a pedido do czar. Por mais que seja um posição de prestígio, sei que ele aceitou para continuar próximo de mim. Tê-lo aqui ajudou a amenizar a dor da ausência de Paul. Estava tão perdida em meus pensamentos que não reparei que Lúcia havia trazido meu café-da-manhã e já estava arrumando meu vestido para aquele dia. “Bom dia, Vossa Alteza, como passou a noite?” Ela sempre perguntava, e eu sempre mentia “Ótima, Lúcia”. Repassamos meu itinerário do dia: lições com Henry, receber alguma visita, responder a correspondências e ao final do dia me preparar para o jantar. O dia transcorreu como sempre, minha única alegria eram as aulas com meu pai. Sempre ficava com ele após as aulas, com o pretexto de ter lições extras, assim Henry podia conversar comigo sem as interrupções de Peter e o olhar vigilante de Katya. Nós sempre conversamos sobre a outra Marguerite, como era possível a viagem entre os mundos e se ela voltaria. Evitava falar de Paul, mas nem sempre era possível. Lembro dele falando sobre seus sentimentos por mim a ela, a outra Marguerite, enquanto eu estava imensa no nada, sem poder responder, sem dizer o quanto o amava, desde a primeira vez. Mas a outra Marguerite parecia sentir o mesmo, ela o fez se sentir amado, e isso me consola, um pouco. Na minha posição, nunca denunciaria meus sentimentos, era perigoso para mim e também para Paul. Seria uma escândalo, e conhecendo o czar, era capaz de enviar Paul para forca. Não, nunca colocaria Paul em risco. Mas quase o fiz no dia em que foi ferido, naquele hospital, sem querer sair do seu lado. O czar não ficou contente com minhas atitudes, mas foi convencido por Vladmir que eu estava em estado de choque, teria que compreender. Nunca mais tocou-se no assunto. E eu não ousava perguntar sobre a volta do tenente Markov a guarda real, não sem colocar tudo em risco novamente. Então me restava esperar. O czar não teria motivos para mantê-lo afastado, ele ainda poderia voltar para mim. Mas o tempo está acabando com as minhas esperanças.
Estou no quarto com Lúcia, terminando de me arrumar para o baile quando alguém bate a porta. Estou em frente ao espelho, e vejo quando Lúcia abre a porta. Neste instante não consigo respirar, é como se o chão cedesse aos meus pés e tenho que me segurar na borda do espelho para não cair. Parado na porta está Paul Markov. “Boa noite, Vossa Alteza” Ouço a sua voz firme, sem um pingo de hesitação. Paul estava de volta, de volta para mim. Lúcia percebe meu abalo e vai ao meu encontro. “Vossa Alteza? Está se sentindo bem?”. “Sim, Lúcia, estou bem”. Me viro para encarar Paul, ainda na porta, a principio ele não me olha diretamente, mas percebo uma mudança em sua postura, fica mais ereto e sinto sua respiração acelerada. “Boa noite, tenente Markov, fico feliz ao vê-lo recuperado.” Me escuto falar, o mais firme que é possível. “Obrigada, Vossa Alteza. O czar solicitou sua presença no salão.” “Claro, estarei pronta em alguns minutos”.
Depois que Paul se retirou, tudo aconteceu como se eu estivesse no automático, terminei de me arrumar e abri a porta. Paul estava lá, de guarda. Passo por Paul, e ele me segue pelos corredores até o salão. Aos poucos, a surpresa vai dando lugar a alegria de vê-lo de pé, vivo, como era antes. Neste instante, eu desvio o caminho, de repente não estou seguindo mais para o salão. Atrás de mim, sinto Paul soltar o ar, como se estivesse prendendo a respiração desde quando saímos do quarto. Vou para uma sala onde sei que ninguém irá nos incomodar. Ao chegar, Paul se adianta para abrir a porta. Lá dentro, tento encontrar as palavras para falar, mas não consigo, nem sei como consigo ficar de pé. Percebendo, Paul se adianta. “Marguerite, você está bem?” Sei que ele está falando com a outra Marguerite. “Não sou ela. Sou eu mesma, grande duquesa de todas as Rússias.” “Vossa Alteza, me desculpe...” Interrompo Paul para dizer que a outra Marguerite foi embora, falo de costas para ele, não consigo olhar para ele sem me denunciar. “Ela se foi logo depois que chegou a tenda onde você, você estava ferido.” “Você se lembra?” Paul me pergunta e aceno que sim. “Quando ela foi embora, fiquei muito confusa porque não entendia o que estava fazendo ali, no meio do campo, chorando. Depois, tudo veio como uma enxurrada de lembranças. Sim, eu lembro. Lembro de tudo, tenente.” Percebo que Paul se aproxima de mim, mas me afasto um pouco mais. “As lembranças do mês em que a outra esteve aqui parecem um sonho, mas são reais, eu sei. Henry, meu pai, não entende como eu consigo me lembrar. Acredito que somente Marguerite poderia nos responder. ” “Vossa Alteza, eu não...” Nesse momento eu me viro para ver Paul, ele está a poucos passos de mim, com a cabeça baixa, e mãos na nuca. “É verdade?” pergunto, “É verdade o que disse a ela, quando achava que ela era eu?” Paul levanta a cabeça devagar e pela primeira vez desde que o vi, ele me olha diretamente, como se pudesse me ver por inteiro. Eu sustento o seu olhar. “Sim, é verdade.” Paul se aproxima de mim devagar. E dessa vez eu não recuo. “Mas nunca foi a minha intenção coloca-la em perigo. Coloca-las em perigo. Estávamos sozinhos na cabana, no meio de uma guerra, não sabia se teria outra oportunidade de dizer o que sentia. Sinto por tê-la beijado, não deveria ter feito isso, mesmo sabendo que a outra me amava, eu não sabia o que você realmente sentia por mim, mas sim, eu a amo, minha senhora.” Senti meu coração acelerar novamente, ou talvez ele nunca havia desacelerado, eu não conseguia perceber mais nada, só o quanto Paul estava próximo de mim. Dizendo que me ama. “Senti que ela o amou também, senti a sua dor quanto soube que tinha sido ferido, que talvez não sobreviveria.” A poucos centímetros de mim, Paul se encolhe um pouco. Minha vontade é de tocá-lo, senti-lo de verdade em meus braços. “Quando entendi o que ocorria comigo aquele dia, eu voltei para sua tenda, e o vi lá, na maca, desfalecendo. Eu pude sentir, sentir minha própria dor. Não consegui sair do seu lado, pedia para você voltar, para você voltar para mim.” A lembrança daquele dia me trouxe lágrimas aos olhos e abaixei a cabeça para escondê-las, mas Paul segurou meu queixo, limpando as lágrimas que corriam no meu rosto. “Estou aqui”. E o abracei, abracei tão forte, um abraço proibido. Ouvia ele falar comigo, “Estou aqui”. Quando nos afastamos, Paul procurou meus olhos novamente, “a outra Marguerite me disse que podia perceber o que você sentia. Ela disse que via seus sonhos e viu seus desenhos...” Olhando para Paul, eu acenava que sim, sim, eu o amava. “Não sei como comecei, mas de repente era você em quem eu pensava, eu me pegava fazendo desenhos seus, todos os detalhes do seu rosto. O jeito interessado com que me perguntava como estava meu dia. Se teria algo que poderia fazer por mim. Eu lutei por que era errado, você é um soldado real, e meu Deus, não queria que você se machucasse, ainda não quero.” Ele estava com o rosto junto ao meu, nossas bocas quase de tocando. “Vossa Alteza, eu...” “Me chame de Marguerite”. E nos beijamos. Sentia as mãos de Paul no meu rosto, sua boca me beijando lentamente, com uma dose de urgência que ambos compartilhamos. Foi tanto tempo separados, e ainda mais tempo escondendo nossos sentimentos. Não vamos nos esconder, não mais.









