Como eu vou dizer que aconteceu
Fazia uns dois anos que nĂŁo nos falĂĄvamos. Numa quinta-feira recebi uma mensagem de um nĂșmero desconhecido. O cĂłdigo era de outra cidade.
âouve mĂșsica comigo?â.
Identifiquei quem era. Ela estava diferente na foto do avatar, mas tinha certeza de que era ela. Perguntei se ela estava por perto. Respondeu que sim.
âTudo bem, ouço. Mas me encontra em xxxxxxx daqui a poucoâ
Chegando lĂĄ, me cumprimentou com um aceno Ă distancia e uma expressĂŁo de timidez. Retribui.
Fomos andando em silĂȘncio atĂ© uma praia. Era fim de tarde de um dia de inverno. EntĂŁo estava bem vazia. Algumas pessoas fazendo exercĂcios. Outras pessoas que haviam saĂdo do trabalho e foram direto para lĂĄ contemplar o mar. Uma matilha de cachorros de rua corria atrĂĄs de uma fĂȘmea no cio. Uma praia completamente atĂpica.
Tiramos nossos calçados e fomos caminhando pela areia. Chegamos ao quebra mar. Percorremos ainda descalços toda a sua extensão, pulamos a corrente de proteção e sentamo-nos em umas pedras. O vento cuspia gotas de sal em nosso rosto.
Ela pegou seu celular e abriu um aplicativo de mĂșsica. Me entregou e disse:
Escolhi algumas mĂșsicas que ouvira recentemente e entreguei para ela selecionar algumas tambĂ©m.
âVocĂȘ gosta de xxxx xxxx?â.
Ficamos algumas horas ouvindo mĂșsicas e passando o celular de um para o outro e adicionando novas mĂșsicas Ă lista de reprodução. Ficou uma bagunça.
Conversamos sobre as novidades. O tipo de coisa que se conversa quando nĂŁo se fala alguĂ©m por algum tempo. Ela me contou algumas coisas que eu jamais imaginaria e eu falei, bastante empolgado, sobre minhas Ășltimas duas semanas.
Começou a anoitecer e estava cada vez mais frio, mas estĂĄvamos preparados. HavĂamos levado casacos e ainda estĂĄvamos vestindo nossas meias.
âPor que me trouxe atĂ© aqui?â. Perguntou.
âAchei que seria mais apropriadoâ.
âEu nĂŁo quero voltar a te ver. A gente sabe onde essa histĂłria sempre acaba e, para mim, Ă© sempre doloroso. Eu continuo sentindo o mesmo de antes. Ainda te amo. Mas nĂŁo posso te amar sozinho para semp...â
âHĂŁ? Como assim?â. Interrompeu.
âVocĂȘ sabe, eu sei, acho que todo mundo jĂĄ sabe. Estamos em sintonias completamente diferentes. Em momentos diferentes. Se fosse possĂvel eu diria que atĂ© mesmo em datas diferentes...â.
Nesse momento ela fitou fixamente o horizonte e notei uma luz escorrendo pelo seu rosto.
âDessa Ășltima vez eu queria que fosse como naquele filme da Cinderela. Ao sino da meia noite, o encanto Ă© quebrado e tudo volta ao normal, mas aqui continuaremos descalços para sempre.â. Disse enquanto jogava nossos calçados na arrebentação.
Levantamo-nos. Caminhamos de volta. Ela fez sinal para um tĂĄxi que passava. Nos despedimos com o mesmo aceno e expressĂŁo de timidez de antes, mas agora enfeitada com tristeza e resquĂcios de choro.