Habemus Papam
Liguei a televisão pela manhã, não como de costume. Não que tenha ligado de maneira diferente da usual, segurando o controle remoto com a mão esquerda ou coisa do tipo. O incomum estava no fato de tê-la ligado logo pela manhã. Claro que nada teria de incomum nisto tudo, se considerarmos o que à minha casa invadiu acompanhado da voz digitalizada da correspondente da Mundo News: "Hab...emus Papam". “Temos Papa”, ela "se traduziu" quase simultaneamente, se isso não fosse um despropósito absurdo. Uma hora após a exibição da fumaça branca saindo pela capela cistina, o povo conheceu enfim seu novo mentor. Seus contornos diferenciados surgiram na sacada da Basílica de São Pedro e geraram espanto nos que ali esperavam. Um burburinho começou a se espalhar e me parece que logo já havia tomado conta de todo o Vaticano. Tinha algo diferente naquela sombra. Tinham curvas diferentes naquela sombra. Teriam eles escolhido um papa mais jovem? Mas quem? Este arcebispo não me parecia estar na lista divulgada. Não, ele não era o brasileiro. Também não era o americano, nem o italiano. Simplesmente não era nenhum deles. Tão breve quanto se espalhou, o burburinho inicial se transformou em um enorme silêncio. Um manto que vestiu por igual os conservadores criativos e os revolucionários de pé no chão. E tal qual um balé ou uma peça, cada um desempenhou com primor seu papel. Houve quem chorasse, houve quem gritasse calado, houve quem perdesse a fé. E fazendo deste silêncio, pedaços, uma voz se lançou docemente dizendo: “Mas podem me chamar de mãe”.














