Task #5 - Family Portrait
TW: Menção uso de drogas, suicídio, morte e alcoolismo.
[Câmera VCR ligada em uma das salas do prédio ENG 4.]
Los Angeles, dia 01 de Outubro de 2013, 10 horas da noite
Hoje marca uma semana até o heist. Pode dar certo, pode não dar, a gente pode morrer na volta pra 2024, sei lá, são muitas variáveis e a gente não tem garantia nenhuma que eles vão entregar a gente de volta ao lugar certo e ao tempo certo. Então, como estou sem sono, o Marcelo ronca pra caralho e está tudo cagado mesmo, acho que quero fazer um registro de pelo menos como eram os Kalman antes do JJH decidir que ele ia fuder a minha vida. Peço desculpa pelas fotos porque são as que eu tenho disponível
[puxa a cadeira do professor e puxa uma foto]
[guarda a foto, puxa outra de um cara por volta dos 19 anos]
Esse é meu vô. Alexander Kalman (Robert Redford), o AK, ou velho AK, como a Bitchtoria chamava ele. O AK é legal, ele é filho de imigrantes judeus que fugiram dos nazistas. Os pais dele se esconderam num navio que partia da Alemanha pra os EUA, e o pai se entregou pra que a mulher e os filhos tivessem tempo pra embarcar. Foi ele que me deu meu primeiro baseado e que me ensinou a bolar um bem direitinho. Ele não deixava chamar ele de vô em público, ele dizia que "afastava as gatinhas". O velho tinha um golpe que era eu me fazer de criança perdida e pedir ajudar pra garota que ele queria chegar perto, falando que eu tava perdida e tudo mais. Depois o AK aparecia, soltava a história de que era meu pai e que tinha fugido dele atrás de cachorros ou sorvetes.
Quando o Tio Sammy estava fora da cidade, eu passava as tardes na casa dele. Depois a Bitchtoria insistiu em contratar uma babá, quando o Tio Sammy se matou, a gente voltou pra esse ciclo, até eu ir pra faculdade e vô decidir ir embora pra San Diego, dizendo que era melhor ele passar tempo com pessoas da idade dele. A Bitchtoria não gostava muito quando o AK estava por perto, ela falava que ele era má influência e só vivia chapado por ter experimentado todo tipo de droga que se pudesse imaginar. Hoje, acho que ele era assim por conta do Projeto Chronos, ele acabou ficando meio ablublé das ideias, porque as histórias dele realmente pareciam coisas de viagem de ácido, fora que desde os anos 2000 que ele confunde os nomes das pessoas.
Com essa volta pra 2013, descobri que ele teve um AVC bem suspeito em 2001, sendo que em 2024 e ele estava vivo. Tenho a teoria de que ele acabou descobrindo que o Harris estava envolvido na morte do Big Rich, porque lendo a pasta de investigação dele, dá pra entender o motivo de terem escolhido o AK pra documentar o projeto. Ele é bem minucioso e detalhista, não escapa nada da visão dele, tanto que o AVC foi no dia 13/10/2001, mas a última entrada dele, da foto editada sem o Harris no local do crime foi adicionada dia 10/10/2001. Fico imaginando o que aconteceu nesses três dias que acabaram causando a morte dele.
Esse é meu pai, Richard Kalman (Sylvester Stallone), mas todo mundo chama de Big Rich, porque ele tinha quase 2 metros de altura e era bombadão. Razão da minha terapia e de 90% da minha disforia. Ele era uma criança grande, como o AK falava, porque ele sempre foi extrovertido, fascinado por carros brilhantes e falava merda pra caralho. Tem o coração enorme, e se deixasse, tinha enchido a casa de filhos, mas nunca cuidou de nenhum, nem dos que ele fez nas amantes dele. Ele largou a faculdade quando a Victoria engravidou de mim, mas isso não impediu o Big Rich de ser famoso, ele é o único californiano a ter vencido três vezes as 24 horas de Daytona, em 1992 e 1994 pela Nissan e 1998 pela Ferrari. Esse último foi o que rendeu o dinheiro com o qual ele montou a Kalman Car Shop e depois vendeu o piloto da Desert King Valley, onde ele reformava carros clássicos de gente sem grana, que era a maior enganação que você poderia imaginar.
[guarda a foto, mostra uma no celular]
Originalmente ele sofreu um AVC em 2014, quando fui expulsa do time de futebol feminino por um vídeo fumando maconha na véspera do PAC-12. Big Rich não morreu, mas ficou todo entrevado e o médico disse que era pra evitar o estresse. Agora ele morreu com 19 anos, num acidente de carro numa corrida ilegal, diz o relatório que os cabos do freio foram queimado por algo que o perito foi incapaz de identificar. O AK era o único ue desconfiava que isso não foi acidente.
Quanto a mim e ao Big Rich, a gente ficou mais próximo quando o tio Sammy morreu. Comecei a curtir carros e corridas junto com ele, era legal, principalmente no Brasil, as pessoas paravam toda hora tirar foto com ele, mas nos afastamos quando ele resolveu trazer os bastardinhos, filhos de uma das inúmeras amantes dele, pra morar em Hollywood Hills com a gente. Foi igual a criança quando ganha brinquedo novo, o velho já não presta mais, da noite pro dia, passei a ser invisível pra ele de novo, menos quando fazia alguma cagada. Ai, nesse momento, eu era a vergonha da família, enquanto os dois babaqunhas deitavam e rolavam fazendo ele de trouxa.
Esse é o Tio Sammy, ou Samuel Kalman (Kurt Russell). Ele 2 anos mais novo do que o Big Rich, os dois tem mães diferentes, porque a mãe do Big Rich morreu no parto e a mãe do Tio Sammy só largou ele com vovô e foi embora pra ir atrás do Greatful Dead. Tio Sammy acabou virando meu pai com a morte do Big Rich, o que é estranho pra mim, porque ele e a Victoria se odiavam quando ele era vivo, ela dizia que ele era um maconheiro folgado que nem o AK e ele dizia que ela era uma idosa no corpo de jovem. Ele e o Big Rich tinham uma tretinha, dizia o vovô que era por causa de mulher, mas ele nunca perguntou porque achava que eles tinham que se resolver sozinhos.
Ele sendo meu pai aqui é estranhamente reconfortante? Não sei se é essa palavra. Mas o fato é que mesmo vendo ele como um pai incrivelmente melhor do que o Big Rich foi, dá pra ver que o bicho que comia ele por dentro ainda está lá, sabe, ele só sabe mascarar melhor do que na minha linha temporal, porque agora ele tem muito mais a perder. Acho que em um certo grau ele sabe que não é o Riley James ali, que é alguém diferente, mas ele também não age como se eu fosse diferente da Belle e da Alice (as duas filhas gêmeas dele). Talvez porque é fácil pra um fudido reconhecer outro. Aqui ele tem um emprego numa gravadora, produzindo discos de rock alternativo. Não dá pra ficar rico, mas a condição de vida é melhor do que com o Big Rich.
O AK também costumava dizer que o tio Sammy sempre teve algo que comia ele por dentro, e que piorou quando a namorada secreta terminou o relacionamento por carta. São poucas as lembranças que tenho dele sóbrio, mas ele era uma figura presente, já que ele morava na casa da piscina, quando não estava na estrada com alguma banda famosa. Tio Sammy era músico free lancer, tocou com todo tipo de artista que se pode imaginar, de Guns n Roses a Jannet Jackson passando por bandas indies de beira de estrada e me levava nos mais variados tipos de concertos, sem que minha mãe soubesse. Nós erámos melhores amigos, porque ele não me tratava como uma criança estúpida como os outros adultos. Sei lá, talvez fosse melhor que tivesse agido como todo mundo em volta, ai quem sabe eu não teria herdado o que quer que comia ele por dentro quando ele morreu.
[Aponta para a mulher do lado do tio Sammy na foto do celular]
Essa é a minha mãe. Victoria Howard-Kalman (Daphne Zuniga), também conhecida como Bitchtoria ou Whoretoria. Ela tem a idade do Big Rich, eles foram namoradinhos de escola. Os Howard eram de Nova Jersey e vieram pra cá quando o pai dela veio tentar ser ator, mas acaboi virando contador e com 2 filhas pra criar. Eles eram bem tradicionais, por isso que quando ela engravidou, no primeiro ano da faculdade, eles obrigaram ela a se casar com o Big Rich. Ela terminou a faculdade de Administração e trabalhava como secretária jurídica, enquanto o Big Rich se aventurava pelas pistas. Quando ele montou a Kalman Car Shop, ela largou o emprego pra administrar a loja e depois largou a bomba na minha mão como "punição" por ter sido demitida da UCLA.
[guarda o celular no bolso]
Não vou ficar mentindo aqui dizendo que a nossa relação era maravilhosa porque não era. A gente brigava a maior parte do tempo em 2024, porque ela achava que era minha responsabilidade os bastardinhos do Big Rich. Era comum ela jogar na cara do Big Rich de que se eu não tivesse quebrado a maldição Kalman (o primeiro filho sempre era homem, por isso ela dizia que era maldição) ele talvez não ficasse galinhando por ai, mas é mais fácil jogar a culpa na criança que tocou fogo no tapete da sala sem querer ou que usou a senha da diretora da escola pra olhar as respostas do SAT, do que contar pro marido que ela ligou as trompas, né. Sei lá, acho que ela nunca gostou muito desse negócio de ser mãe, o que é estranho porque ela é uma ótima mãe nessa linha temporal. Quer dizer, agora meio que tenho certeza que o problema era comigo, sabe. Porque a gente funcionava assim: eu fazia uma merda, alguém avisava que eu fiz a merda, ela resolvia a merda terceirizando o problema pra outra pessoa resolver porque ela estava ocupada. Geralmente, era o Tio Sammy, o AK ou a babá, porque o Big Rich tava ocupado brincando de carrinho. É um contraste muito grande com ela aqui, sendo uma ótima mãe
E por último e bem menos importante. Os bastardinhos. Charlie (Milo Ventimiglia) e David Kalman (Jared Padalecki), os gêmeos filhos do Big Rich. Não tenho fotos porque felizmente os dois estorvos não existem mais. Quando o Big Rich descobriu que a Victoria tinha dado um jeito de não engravidar de forma permanente, ela não esperava que ele fosse trazer os dois gêmeos da amante dele pra morar com gente. Isso foi alguns meses antes de eu ir pra UCLA.
Eles tinham 12 anos na época e tem passe livre pra fazer qualquer merda porque Big Rich não deixa ninguém brigar com eles, mesmo ele estando todo entrevado. A maior parte dos problemas financeiros que me levaram a começar a traficar tem a ver com eles, eles não tem a menor dó de passar o cartão de crédito e eu que me vire pra resolver, porque a Victoria simplesmente apertou o foda-se pros dois. Charlie acha que pode ser piloto, mas dirige que nem uma velhota com Parkinson e o David foi do time da UCLA, nunca jogou uma partida se quer, mas você acreditaria que ele é a estrela do time de tão confiante. Espero que isso continue quando a gente voltar.

















