OS MORTAIS O TEM CHAMADO DE WALKER, PORÉM ESTE É, NA VERDADE, TÂNATO DO PANTEÃO GREGO. APESAR DE PARECER BASTANTE COM O MORTAL MADS MIKKELSEN, AINDA É PRAGMÁTICO E MELANCÓLICO.
Não há muito o que se retirar de um deus dedicado a um trabalho tão simples (em teoria), portanto a perda de poderes apenas o obrigou a alterar sua grade de horários, considerando a lentidão com a qual se locomovia em instância. Dedicar-se diligentemente ao seu diário labor de ceifar almas e levá-las ao Submundo continuou sendo a única preocupação de Tânato, obedecendo aos desígnios primordiais lhe dados desde a primeira vez que abriu os olhos inutilizados (modificado para apenas um atualmente, garantindo uma melhor forma de se adequar à vida humana) e estendeu as asas negras pela primeira vez. Perturbado apenas vez ou outra pelos fatídicos acidentes — como um mortal achando-se particularmente esperto e tentando prendê-lo com uma maldita coleira —, continuou alheio ao tormento. Afinal, a comum ladainha ouvida no Submundo o havia tornado um tanto quanto insensível.
Cego como a morte deve ser, restou-lhe a opção de ouvir lamentos e súplicas conforme as deidades perceberiam o rápido enfraquecimento de sua essência etérea. Silencioso, limitou-se a oferecer rápidos gestos consoladores aos mais necessitados. Seria uma mentira dizer que a abstração dos deuses caídos não o agradava. Pois, pela primeira vez, não havia apenas ódio direcionado a si. Não o incomodava andar entre as outras divindades que previam o fim, sentindo-se até bem-vindo onde havia a tristeza e o luto. Os deuses estavam enlutados, afinal, por si mesmos.
Quando Hades desejou explorar terras humanas, Tânato o seguiu fielmente, leal como sempre fora. Em algum momento, porém, resolveu traçar seu próprio caminho, já conhecedor da superfície após viajá-la para buscar almas nos locais mais diversos. Destituído de maior parte de seus poderes sobrenaturais, o deus tinha de se virar com as próprias mãos. Desta maneira, virou uma figura misteriosa, a última pessoa que alguém via na porta. Não havia visitas amigáveis para o melhor (e único) mercenário de Hades, dotado de uma apática força letal e quase impossível de se fugir (uma ou duas vezes talvez, mas o três sempre foi seu número da sorte). Uma vez que seu nome estivesse escrito no livro negro carregado pelo deus, você seria o próximo e não havia nada que pudesse fazer sobre isso. Ele não discriminava e não se importava com sua idade, status social, religião, raça ou gênero — apenas fazia seu trabalho, do melhor jeito possível. Também não importava o quão rápido você poderia correr porque Tânato lhe encontraria e seus métodos de finalização variavam incrivelmente.
Tânato poderia estar em sua frente com uma arma apontada para seu estômago, um tiro à queima-roupa; atrás de você com uma faca na sua garganta, apenas um elegante deslizar; acima de sua cabeça com uma marreta, um pouco mais de força aplicado no golpe. Ele poderia fazer uma bagunça quando atingia o descontrole — Sísifo que o diga —, mas detinha preferência pela limpeza, controle e organização. Poderia fazer de longe, olhando para você através da mira de uma Dragunov. Poderia fazer parecer um acidente ou suicídio, ou simplesmente planejar o assassinato de alguém que você ama. Poderia fazer parecer uma anomalia médica, lentamente matando alguém sem que a pessoa realizasse isso até o último segundo. Não importava como: se seu nome estivesse listado, seu tempo havia acabado. Tânato viria recolher sua alma e abraçá-lo com suas confortáveis asas negras. Sendo criativo, sempre encontraria uma maneira interessante de cortar seu fio utilizando quaisquer objetos disponíveis.
Criou-se o costume no submundo do crime organizado, o qual às vezes percorria atrás de maiores informações sobre alvos, de chamá-lo de Walker, pois ninguém sabia o nome do misterioso homem vestido de preto que perguntava pelo nome de diferentes pessoas e as fazia aparecer mortas no dia seguinte. Outros preferiam nomes mais pomposos, o classificavam como assassino em série e fugiam à mera menção de alguma de suas inúmeras alcunhas. Não importava a forma que o chamavam, porém, pois ele não era seu amigo, seu amante ou seu inimigo. Ele apenas era. Obedecia a sua função e esperava o fim de suas tarefas, por mais que muitos outros deuses já houvessem descuidado completamente de seus territórios e propriedades.
Por mais impiedoso que possa ser na realização de seus afazeres, acabou demonstrando genuíno interesse e encantamento por certas espécimes humanas, aprendendo a se camuflar na multidão e viver como humano sem maiores problemas. Sempre acompanhado por um cão diferente e parecendo extremamente afeiçoado aos animais, os levava para o além também, utilizando de métodos muito mais gentis. Ao longo dos anos, mudou de profissão inúmeras vezes. Foi um medico della peste na Itália e um carrasco da Revolução Francesa. Como parte de um projeto de intercâmbio entre deuses, participou da Yakuza japonesa como saiko komon, atuou como espião na Inglaterra durante o período Elizabetano e padre apoiador da Inconfidência Mineira durante o período colonial brasileiro. Hoje em dia, atua apenas como matador de aluguel, explorando os cantos obscuros dos fóruns da Deep Web para obter seu sustento.
Muitos deuses definiriam seu período de poder como “rápido demais”. Tânato não. O fato é que eles passam por sua existência correndo, enquanto Tânato segue atrás em passos lentos, assoviando. E é essa a imagem que passa a terceiros, extremamente controlado. Provido de uma serenidade sublime, quase inabalável, você raramente conseguirá irritá-lo. Costuma ser polido e simpático, sempre pronto a oferecer uma mão amiga, embora não sorria e tenha olhos tristes. Sua calma adquire um aspecto quase melancólico quando se deixa o silêncio estabelecer, sendo quase palpável o incômodo da divindade ao acabar em uma situação do tipo entre duas pessoas. Vez ou outra, é possível percebê-lo falando sozinho. A bem da verdade, está comunicando-se com os espíritos daqueles que se foram, pacientemente oferecendo apoio e conselhos, assim como guia para embarcarem no transporte de Caronte e viajarem a outro plano. Sua natureza controladora pode ser classificada como principal fonte de seus poucos descontroles, mostrando-se muito perturbado com o mínimo dos atrasos e incongruências em sua agenda. Ofendê-lo acaba sendo tarefa difícil, considerando o ódio exacerbado que tanto mortais quanto outras deidades nutrem pelo mesmo.
ASAS — Costumeiramente, as asas ficam escondidas sob a pele de Walker, mostrando apenas duas cicatrizes mais claras entre as omoplatas formando um V. Quando ele as libera, assumem um aspecto doloroso e aterrorizante. Deformadas e esqueléticas, destituídas de força, não são capazes de nada além de uma tentativa de proteção. Sangram copiosamente, em carne viva, largando as últimas penas. Os apêndices apenas tomam sua antiga forma, bela e grandiosamente, de penugem negra como breu e envergadura de mais de vinte metros, poucos minutos antes de ceifar uma alma. Utilizadas para literalmente envolver o morto, funcionam como uma espécie de guia até o plano etéreo. Ficam assim por pouco tempo após a ida da alma, no entanto, acabando por voltar à forma de membros esquálidos e feridos. Quando em seu poder máximo, possuem capacidade de vôo e proteção, como uma espécie de blindagem, além das penas poderem ser utilizadas como dardos.
NECROMANCIA — Auxiliando-o com o controle das almas e busca de informações, a necromancia o permite o desenvolvimento da mediunidade, certa categoria de manipulação da dor e absorção da energia de morte. Hoje em dia, já não pode mais invocar cadáveres para ajudá-lo ou ressuscitar alguém que não esteja marcado para fazê-lo, mas ainda é capaz de moldar ectoplasma e outras matérias mortas. A necromancia costuma deixá-lo fatigado após um uso exagerado e, quando suas emoções atingem o descontrole, acaba espalhando infertilidade e morte ao seu redor (flores murcham, grama seca, pássaros morrem, etc).
UMBRACINESE — Consiste na habilidade de manipular as sombras e escuridão. Diferente do que mitos diziam, Tânato não podia tornar-se invisível, ele apenas se camuflava perfeitamente às sombras de um determinado local, independente de seu tamanho ou forma. Walker pode literalmente adentrar uma sombra e viajar por essa, mas apenas acompanhado de almas desencarnadas. Também é capaz de guardar objetos nas mesmas, desde que não sejam muito grandes.
BLINDAGEM TELEPÁTICA — Conhecido por suas entranhas de bronze e coração de ferro, Tânato traduz este conceito através de um poder que o deixa, em teoria, imune a habilidades que manipulem seus sentimentos, emoções e pensamentos, incluindo telepatia. Contudo, desde a queda, o poder demonstra falhas excessivas. Os pensamentos do deus vez ou outra se tornam acessíveis para terceiros, assim como seus sentimentos. Por mais que estes sejam mínimos, a usual falta de proteção neste sentido gera incômodo ao ctônico.