O piano ressoava em seus ouvidos, assim como a voz suave que guiava a música e cadenciava seus passos no chão revestido de madeira lisa e polida. Seus pés deslizavam conforme o ritmo se agitava e ondulava por todo seu corpo. Delineados pela sapatilha de balé seguiam firmes, suportando os giros seguidos que a mesma dava e os passos difíceis que lutara para aprender desde pequena. Luísa poderia sentir as gotas de suor escorrendo por sua têmpora se não estivesse tão focada no próximo movimento, na próxima nota, no próximo ato que faria com que se esgotasse ainda mais. Ela era boa o suficiente, ela tinha que ser. Seus lábios se comprimiram e os olhos cerraram, sendo tomados por algumas lágrimas que sumiram rapidamente com o próximo rodopio que antecipou o salto que se tornou finito assim que seus pés retornaram ao chão. As notas do piano acompanhado pelo violino a abraçavam e pareciam desfrutar da maneira como seu coração palpitava e o ar era arrancado gradativamente de seus pulmões. Ela simplesmente não sabia o que fazer para se encaixar naquele mundo, parecia que cada porta que encontrava era fechada com força para nunca mais ser aberta. Luísa concentrava todas as energias para impedir que os próprios cacos voltassem a se estilhaçar, no entanto, aquilo parecia cada vez mais impossível. “Você é um desastre! Não sei onde estavamos com a cabeça quando a convidamos para o papel principal do espetáculo” A voz da diretora de palco agora era sussurrada em seus ouvidos como um lembrete cruel do que lhe era exigido. Luísa tinha que ser perfeita, nenhum passo em falso, sua memória tinha que estar em dia e não poderia se dar ao luxo de recuar, ou tudo pelo que batalhou durante todo esse tempo iria esvair-se como cinzas. Com um suspiro sufocado pelas lágrimas ainda presas em sua garganta, a bailarina notou passos atrás de si e virou-se inconscientemente, assustada. Seu semblante, antes magoado e impotente, tornou-se confuso. “O que você está... O que está fazendo aqui?” As palavras tremiam em seus lábios.