Sombras da Tempestade - Prólogo - Declínio
Well, estou postando de novo pois fiz grandes mudanças no corpo do texto XD. E por ter que ficar voltando e modificando tudo ia demorar muito, deletei o antigo. Bem, vamos pra história! Espero que se divirtam =)
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Penas negras como a treva flutuavam nos ares carregados com as brumas brancas da melancolia. Um mero aviso de que não mais eu estava sozinho. A brisa leve abalou meu reflexo e o de meu barco rústico, alongado e de madeira, de uma civilização já não mais presente naquilo que vocês chamam de planeta Terra. Na realidade, o meio de transporte se classificaria, com maior precisão, como uma embarcação nórdica. Vários remos permaneciam imóveis, à espera de seu condutor, na lateral do barco. No entanto, um era exceção àquela estagnação e cortava o Limbo com movimentos precisos de um verdadeiro barqueiro. As águas, no entanto, continuavam negras como o céu, sem se abalar com a rudeza de meus atos. Mais abriam caminho para minha passagem do que sediam aos meus comandos, como se tivessem uma vida própria e reconhecessem aquele que fora encarregado de cruzar suas bordas. Pernas finas e escamadas pousaram sobre a cabeça de serpente que fora esculpida na extremidade do barco. “... And his eyes have all the seeming of a demon’s that is dreaming.”
- Erik. Precisamos conversar.
Sua voz era um leve e profundo grasnar que me fazia ficar com vontade de esganar seu pescoço emplumado. Sabia exatamente que eu estava irritado e por isso falava com tamanha calma. Nevermore não me presta visita há muito tempo. Encostando o objeto que estava em minhas mãos na lateral do barco, girei meus calcanhares para saudá-lo com um leve inclinar do corpo em uma reverência. Meus lábios contorceram-se em um sorriso sarcástico e, por um momento, agradeci o fato minha mestra ter me dado uma máscara para eu esconder minhas feições. Tornava a vida pacata de residir neste local um pouco mais divertida, já que, com este adereço, não só era escondida minha aparência horrível e deteriorada pela ação do tempo e da Grande Senhora, como tornava mais difícil a detecção de minhas emoções. Isso se deve ao fato do objeto possuir um encantamento em sua superfície, permitindo o dono alterar o formato a seu bel-prazer. De olhos semicerrados, em alerta, observei enquanto o pássaro passava rapidamente de uma asa a outra um baralho de cartas, demonstrando sua ansiedade, fazendo as penas de seu corpo brilharem em um leve tom azulado devido à incidência da luz da lua.
- Boa noite, Nevermore. Não que aqui exista o dia, não é mesmo? – A risada que soou de minha garganta e que cortara aquela falsa calmaria quase o desconcertou a ponto de fazê-lo deixar cair o que segurava por entre as penas – Por que procura minha presença, se é o detentor de todo o conhecimento daqui? Há algo que o está incomodando?
- Sim... – Sóbrio, ele guardara as cartas dentro de suas vestimentas, prestando total atenção em minha pessoa. - E pela sua aura assassina dá para perceber que eu não sou o único que está ficando preocupado com as mudanças que estão ocorrendo por aqui. Esta névoa não é normal e está quase alcançando o castelo. Diga-me, Erik, você tomará alguma providencia?
- Lógico... – Minha voz tornara-se séria, fria e monótona, meus olhos brilhando na cor do sangue - Irei enforcar aquele elfo com as próprias tripas de seu corpo inerte a beira da morte, depois de torturá-lo bem devagar.
- Hum – O emplumado observou-me com uma falsa sabedoria, como se fosse capaz de entender assuntos humanos- Sinto um pouco de ciúmes de sua parte ou...?
O corvo não tivera tempo para terminar. A voz fora interrompida pelo ruído de minha adaga cortando o ar, junto com aquelas cordas vocais que vibravam, de modo a deixar um rasgo irreparável e mortal no pescoço da ave. Tirei a arma da manga tão rápido que ele nem reagira. Para o meu espanto, nada jorrava do corte, mesmo ali sendo um ponto de elevada vascularização. Somente a escuridão infinita reinava ali, como se tivesse impregnado o ferimento e desaparecido com a região. Havia me esquecido das capacidades metamórficas daquele maldito. Ferimentos físicos não lhe surtiam efeito. Rangendo os dentes, produzi um rugido gutural:
- Tome cuidado com o que fala, escória, ou lhe cortarei a língua.
Movendo as asas como um humano que levanta e abaixa o ombro, completamente indiferente á ameaça, a pequena criatura inclinou a cabeça, como um cão atencioso a seu querido dono, enquanto o ferimento se fechou sozinho, as duas partes colando como se eu houvesse cortado um líquido espesso, não carne e músculos. Franzindo meu cenho, indignado, encarei o fenômeno.
- Sabe o que eu acho? Que você precisa de férias. Ou quem sabe, de uma mulher.
Odeio esta maldita habilidade da ave carniceira de ler a mente das pessoas. Na realidade, nunca soube se ele realmente possui esta habilidade psíquica ou se ele simplesmente adivinha e prevê os pensamentos por meio de seu conhecimento profundo sobre cada individuo. Independente do que fosse, era extremamente irritante, pois ele não pensava duas vezes antes de abrir o bico.
- Não, não... – Empunhei o remo para voltar ao trabalho, tentando encerrar a conversação – Tormenta não seria nada sem mim. O mar deste mundo, assim como o Rio Stinx, precisa de um barqueiro para proteger os transeuntes dos perigos que permeiam as águas do Limbo. No entanto, infelizmente, eu não sou pago pelos meus serviços.
Como se a besta gigante, que fizera daquele oceano moradia, me ouvisse, vi pelo canto dos olhos um vulto mais escuro deslizando abaixo de meu barco, fazendo com que eu me arrependesse amargamente das palavras despreocupadas e inocentes que proferi ao vento. Havia me esquecido do poder que elas têm por aqui. Juntar “perigo” e “Limbo” na mesma frase não foi a decisão mais sábia que já tive. Nevermore, ao sentir a presença do monstro e suas intenções, empoleirou-se em meu ombro, passando os olhos pela superfície, tentando achar a cabeça fera. O único barulho era o bater agressivo das ondas no casco. Fechei os olhos, tentando sentir por onde seriamos atacados, o silencio selando a ansiedade agonizante dentro de meu corpo, à espera da ruptura. Um rangido triste. Um leve deslocamento à esquerda. Gotas caindo sobre a superfície do fluído marinho. Girei meu corpo a tempo de sentir um forte golpe contra uma ponta do barco que quase o fez virar. Sacando várias de minhas agulhas presenciei o surgimento de uma língua bifurcada em meio às águas e olhos âmbar me fitando. Inclinei-me ligeiramente para fora da embarcação e levantei minha máscara ao nível de meu nariz (se eu possuísse um), para que a cobra visse o sorriso que fora eternamente estampado em minha face, retirando assim temporariamente a ilusão que recobria meu corpo e me deixava apresentável para a sociedade.
- Oras, Jormungand, minha velha amiga! Até você veio me visitar hoje?
Ela sibilou, abrindo a boca com suas presas à mostra e emergindo lentamente das profundezas, puxando a embarcação devido ao deslocamento de líquido e me obrigando a segurar firmemente nos bancos que foram ali colocados caso houvesse a necessidade de transportar um contingente de pessoas. Voltei a ajeitar meu acessório, escondendo minha falta de carne e brancura da mandíbula e dentes expostos. A proporção da serpente era tão grande que ela conseguia dar uma volta ao redor de um planeta, segundo as lendas. Obviamente que aquele povo do norte venerador de Odin deviam ter uma visão de mundo muito limitada ou calcularam muito errado, pois o comprimento de seu corpo chegava, no máximo, a algumas centenas de metros e só as presas, tinham o tamanho daquilo que vocês, seres humanos, considerariam um prédio de dez andares. O barco não serviria nem para ela palitar os dentes. Fitei minhas agulhas de 30 centímetros para depois fazer o mesmo com as escamas rajadas de marrom e preto que mais pareciam uma armadura impenetrável. Comprimi os lábios de porcelana em uma tênue linha.
- Oh, agora verei o seu tão grandioso trabalho, Erik... – Grasnou ironicamente Nevermore, completando com uma risada que mais parecia um motor de carro falhando. Alçando voo ele passou a descrever trajetórias circulares no céu estrelado. Se eu fosse assistir a uma batalha tão injusta e não participar dela, também estaria eufórico como ele. Bem, corvos sabem quando alguém está prestes a morrer e gostam de ficar por perto para dar a primeira bicada no cadáver.
Revirei lentamente os bolsos, procurando não fazer movimentos bruscos, enquanto o ofídio me fitava e testava o meu sabor com os sensores, ao retrair a língua para dentro do seu local de origem. Como sua visão não era tão boa, ela dependia principalmente dos outros sentidos para determinar minha posição. Minhas palmas suavam frio, fazendo o couro de minha luva grudar e me deixando extremamente desconfortável. Tateando, no interior de minhas roupas senti as silhuetas de vários objetos. Corda, adaga, livro, pena, tinteiro, partitura, flauta... Meu tempo estava se findando e ainda não havia encontrado o que procurava. As pupilas em fissura se dilataram e o monstro ergueu a cabeça, imponente, levando seu pesado corpo musculoso, pronto para impiedosamente esmagar-me, junto a meu companheiro inanimado que desde os primórdios fora colocado em minha possessão. No entanto, parece que minhas preces silenciosas foram ouvidas por algum dos deuses daqui, quando um de meus dedos espetou-se eu um objeto fino e afiado. Mas não havia mais tempo para ações meticulosamente calculadas. Saquei as agulhas de minha vestimenta longa e junto com elas, um frasco. Tirando a rolha e despejando o líquido transparente sobre as armas em minhas mãos, tomei cuidado de não me ferir ou causar o menor e mais fino dos cortes, checando se aquele toque na ponta da arma de arremesso havia causado algum estrago. Caso o tivesse feito, minha vida poderia acabar aqui e seria um fim tão patético, que provavelmente a ave iria contratar um necromante para me reviver, só para eu ser lançado à boca do réptil e dar a ele um show que valha a pena presenciar. Tirei o suor da testa, enquanto Jormungand parecia me esperar, observando cada movimento, fechando a mandíbula e bufando. Não era tola, já havia lutado contra mim anteriormente e conhecia muito bem minhas táticas, principalmente minha afinidade com todos os tipos de veneno e capacidade de analisar o alvo em busca de um ponto fraco. É o mínimo que se tem de saber, se você é um assassino e precisa eliminar rapidamente sua vítima. Se ela tivesse me atacado anteriormente, assim que abrisse a boca e eu tivesse achado o que estava procurando, seria o fim do conflito. Observei-a atentamente, esperando seu movimento, uma abertura para atacá-la, pois qualquer outra ação contra um monstro daquele tamanho seria imprudente. Nenhum de nós queria ser o primeiro a abrir a guarda para o ataque. As areias da ampulheta pareceram cair mais lentamente que o de costume, prolongando a agonia.
Senti um movimento à minhas costas, uma cauda sendo arrastada pelo meu barco, enrolando-se nele e começando a destruir com a pressão e peso. O estalo da madeira se quebrando, choro de meu companheiro que, por anos, me acompanhara nos mais terríveis momentos, nas mais terríveis tempestades. A embarcação tremeu, fazendo-me perder o equilíbrio e, consequentemente, a precisão da mira. O animal de sangue frio queria me afogar naquelas águas turbulentas, pois sabia que, por ser o guardião do local, era o único capas de resistir ao contato do frio abraço daquele líquido. Cinco minutos ali e você se esqueceria de tudo, sua existência sendo para sempre apagada com a última memória de seu ser. Claro que, antes, você tem um flash back de todas as mais terríveis experiências da sua vida, já que estas marcam mais o individuo e são mais difíceis de apagar. Cobra maldita, não sabe com quem está se metendo. Ela abaixou, se aproveitando de minha desestabilidade, retesando o corpo feito uma mola, com o intuito de dar o bote enquanto meu corpo permanecia vulnerável no chão fustigado pela maresia. Meus dentes serraram, minha face contorcendo em um rosnado quase bestial. A fúria borbulhava em meu sangue e com um movimento fluido e certeiro, enquanto ela abria a boca para me atacar, lancei a primeira agulha no orbe amarelo de pupilas, torcendo para que ela acertasse corretamente o alvo, pois eu já fechara os olhos. Não queria que a última imagem estampada a ferro em brasa na minha memória fosse o interior rosado, liso e fétido do animal.
O resultado fora imediato. A fera urrou, indicando que o ataque fora um sucesso. Sem delongas, levantei-me apoiando em alguns destroços, mesmo com o corpo um pouco dolorido pelo impacto. Com a visão não mais escurecida pelo medo da falha, joguei com precisão mais três no céu da boca dela, no momento em que o rosado apareceu em meio às cores das escamas levemente apagadas pela idade e maresia ,enquanto ela retorcia-se de dor como um verme na terra, fora de si. O olho tornou-se leitoso e um cheiro de putrefação começou a pairar no ar. No entanto, notei que este cheiro agradável não vinha somente dela. Um formigamento se alastrava pela ponta de meus dedos, raios comendo minha pele e a deixando insensível. Olhei para meu braço esquerdo, vendo o fluido da vida, o pouco que ainda me restava, quente e vermelho, escorrendo. Minha raiva era tanta que, ao ouvir o partir de um dos únicos bens materiais que me fora dado neste mundo, apertei as pontas afiadas contra minha pele, fazendo-as adentrar fundo na carne, atingir vasos e espalhar sua toxina. O Primeiro sinal já se iniciara. Paralisia e necrose. Conhecia muito bem aquele veneno, já que fora eu mesmo que o criei, no entanto, nunca desenvolvi um antídoto para ele. Afinal, porque manter vivo um inimigo, se suas claras intensões, ao escolher tal arma, é matá-lo? Uma cobra gigantesca, cujo corpo não sai nem um por cento da água ao me golpear, com certeza sobreviveria. No entanto, algo do porte de um ser humano, mesmo com resistência a estas substâncias, encontraria seu túmulo. Desespero tomou conta de minhas feições com a compreensão do que o destino me reservava, caso a substância entrasse na corrente sanguínea e atingisse órgãos vitais. Levaria cerca de minutos.
Com minha mão direita, apalpei rapidamente meu casaco, a procura de uma lâmina muito maior em comparação a das adagas que eu sentira em minhas mangas. Não foi tão difícil encontrar o cabo metálico de uma espada. Pegando-a, recostei acima da lateral do barco o membro ferido, apoiando-o firme, erguendo alta a lâmina. Parecendo emanar luz própria em meio aquela escuridão, o brilho do aço da espada era perceptível até a Nevermore, que observava, ansioso, na plateia de cima. Ele sempre adorou um espetáculo. Se ele adquiriu ingressos, pelo menos, darei a ele um show que valha a pena se presenciar. Meus músculos se contraíram, prevendo a agonia que em segundos se alastraria por meu corpo. A arma de empunhadura dourada desceu com força, cantando um tinido melódico em contato com o ar, seguido pelo grito não tão melódico de seu portador. O sangue que antes lentamente escorria de seus dedos, agora o fazia da junção em seu ombro, em uma velocidade e quantidade que poderia ser considerada inumana para os padrões normais. Sorri maniacamente, inclinando minha cabeça para esconder o brilho de insanidade que pairava em meus olhos. A dor é um luxo que poucos seres como eu podem apreciar, e fazia muito tempo que não a sentia de maneira tão primitiva, do âmago da existência carnal. Era possível enxergar, do ferimento, uma ponta branca que eu acreditava ser minha escapula. Chacoalhando o tecido que fora cortado no ato bárbaro e retirando todos os seus armamentos, fiz uma atadura, no intuito de diminuir o sangramento, os objetos sinistros se misturando aos dois líquidos no chão que não se misturavam, permanecendo em um movimento rodopiante e envolvente, como duas forças que tentavam se sobrepujar.
O céu noturno escureceu-se ainda mais, as estrelas sumindo, um véu negro sendo puxado sobre cúpula celeste. Uma tempestade se aproximava e o mar refletia a ira dos céus, as ondas bravias agredindo o barco sem piedade alguma, ameaçando virá-lo com sua força gigantesca, a água criando sua passagem pela destruição que a serpente causara, inundando ainda mais a embarcação. Peguei do chão o membro que fora cortado fora e, segurando em direção à ave, balancei-o, em um movimento pretencioso de quem vai jogar um graveto a um cachorro. Toda afobada, ela desceu, empoleirando-se em um dos bancos quebrados. Com um movimento fluido e gracioso, arremessei o braço como se fosse uma flor à amada. Nevermore o pegou no bico, aplaudindo com as asas, enquanto meu corpo se curvava em uma reverencia. Após um momento de silencio, nenhum de nós se aguentou e começamos a gargalhar, o pássaro deixando cair o pedaço de carne.
- Bravo, Erik! O espetáculo foi lindo, mas agora, as cortinas se fecharão com o Gran Finale, coroado com a morte do herói!
Quando olhei para onde ele apontava suas penas, meu rosto empalidecera. A serpente já havia se recuperado de seu pânico e dor, nos encarando, seu olho leitoso e cego em grande destaque em meio às placas em sua pele, a boca aberta e salivando, com partes já esverdeadas pela ação do veneno e presas saindo da fina película que as encobria. Era possível sentir o ódio direcionado a mim ricocheteando em minha extensão, e por um momento, me senti um rato olhando para seu predador faminto e sedento por vingança. Meu coração que mal batia direito apertou-se. Precisava raciocinar rapidamente, se quisesse sair daqui com vida.
Deitei-me contra o fundo de madeira, meu corpo se retraindo instintivamente enquanto meu cérebro trabalhava. Jormungand, esticando os músculos , preparava-se para o contra-ataque, o bote final, sua sombra encobrindo a pouca luz que restara no local. Poderia alcançar as nuvens se assim quisesse, mas contentava-se com encobrir a lua com sua cabeçorra em formato de triangulo, os anéis de seu corpo em um brilho áureo até abaixo da água negra. Tinha de acalmá-la de alguma forma, ou este seria meu fim, e só havia um modo de fazê-lo. Ela era uma fera e como em várias mitologias de países diferentes, criaturas como ela possuíam um ponto fraco. A música. No entanto, como eu poderia tocar o órgão que fora instalado em meu barco, se ele se encontrava na ponta oposta a que eu estou?
Tremia contra a minha vontade, de modo que seria impossível eu me utilizar do mesmo truque das agulhas uma segunda vez. Eu não era forte o suficiente para matá-la em um combate corpo a corpo e, para piorar minha situação, já estava ferido e começando a ficar com tontura. Tinha de por um fim àquele conflito. O desespero clareou minha mente, invocando uma inspiração de ultima hora, quase divina. Deveria agradecer aos deuses por terem me concedido um talento nato para a musicalidade. Minha voz, autoritária, soou como o trovão da mais bravia das tempestades, meu braço se erguendo, em comando.
“ Lembre-se, criança, a esperança
É somente mais uma ilusão.
A resposta é da espada, a dança
Onde seus inimigos se findarão.
Beba, do cálice, a sua vingança
O sangue doce, seus lábios pintarão.
Terra fria onde até seus ossos resfriam
E os cantos dos mortos, as almas encantam.”
Silêncio pairou como a névoa densa ao nosso redor. Lenta e preguiçosamente, a serpente desprendeu-se de minha embarcação com um sibilado triste e contido, afundando novamente no Limbo à procura de um lugar tranquilo para se recuperar, algumas escamas cintilando nas profundezas que se acalmaram. Suspirei. Os astros já voltaram a aparecer como o de costume. Levantei-me, apoiado em pedaços quebrados de madeira, ouvindo os rangidos e sentindo o material ceder sobre meu peso. Tive sorte de ter conseguido criar trechos em uma situação tão adversa. Olhei para onde deveria estar meu membro esquerdo, agora uma massa sangrenta envolta em tecido, colocando a mão sobre o ferimento rente ao ombro e levando o sangue à boca, suspendendo a máscara. Não, não estava amargo, nem o gosto estava alterado, o que era um bom sinal. Estava salvo e não precisaria cortar mais pedaços do meu corpo. Por enquanto.
Os estragos no meio de transporte foram catastróficos e necessitavam de reparos. Vários remos quebrados, rachaduras foram feitas na proa e popa, partes inundadas e um dos ornamentos esculpidos de serpente havia desaparecido em meio ao Limbo. Era um milagre ainda estar flutuando. Peguei um dos longos pedaços do barco que fora poupado daquele destino. Minha tarefa seria bem mais difícil sem um dos membros.
- Nevermore, não devore o meu próprio braço na minha frente. Isso é bizarro e asqueroso. – O repreendi, ao olhar de relance e ver a ave pousada em um canto, festejando sobre a carne recentemente amputada.
- Hum, perdão. – O corvo abaixou a cabeça, em submissão, e limpou o bico sujo na madeira – Acho que irei guardar pra depois, então. Você sabe, depois de um tempo, a carne morta fica com aquele temperinho todo especial e fica crocante com o crescimento das larvas.
Não aguentei ao ouvir aquelas palavras. Virei meu rosto e vomitei, me dependurando na borda e ouvindo o líquido colidir com a superfície do mar, os sucos gástricos queimando meu interior. Não era para eu ser tão sensível... O que está ocorrendo? Eu ainda estava ansioso demais com o desfecho do combate, meus músculos em espasmos, alertas aos movimentos ao meu redor. A sensação de perigo ainda não havia se dissipado inteiramente, mas sentia como se aquilo fosse um sinal de que algo estava terrivelmente errado e não era só a névoa que recobria o mundo, mas algo que estava nos mudando... Por dentro.
- Wow! Eu estava só brincando! Não divido minha refeição com ninguém, nem mesmo com vermes necrófagos. Erik, você está bem? – Sussurrou a ave com seu sotaque bizarro e robótico, Empoleirando-se sob meu sobretudo e colocando a asa sobre minha cabeça feito um ombro amigo.
- Isso foi completamente desnecessário, Nevah. Não preciso, e nem quero, saber o que você fará com meu braço ou conhecer a fundo seus gostos e comportamentos sórdidos.
- Incrível... Você sente nojo só por que faz parte do seu corpo... Se fosse de outro miserável, você não ficaria todo sentimental. Já torturou pessoas, já arrancou seus membros, enquanto elas imploravam por clemência. – Os olhos dele se estreitaram, julgando - Como você é hipócrita.
Por um momento, fiquei feliz dele não ter notado a diferença. Não há como eu me sentir enojado de tal coisa. Não fazia parte de minha natureza. Convivia com a morte e o cheiro de podridão por tanto tempo que eles se tornaram um perfume requintado para mim. Assim é a vida daquele que trabalha como torturador dentro da mente de uma necromante. Ou talvez, era.
- Hipocrisia e cinismo estão tão encrustados em minha personalidade quanto o sangue em suas penas. Além disto, alguém por aqui tem de fazer o trabalho sujo, não?
O ser emplumado gargalhou, satisfeito com minha resposta, seu peito vibrando por baixo do colete de dealler de cassino. De humor renovado e demonstrando interesse no o timbre da voz, continuou a grasnar.
- A propósito, se era só entoar versos para fazer a besta se afastar, por que não o fizera antes?
- Porque não é fácil fazer isso enquanto se está correndo perigo, sem contar que Jormungand não aprecia a repetição de trechos que já entoei anteriormente. Poesia é bem difícil de construir, sabia? – Observei o pássaro por um momento, debatendo mentalmente se eu deveria continuar minha frase. Resolvi contar-lhe de uma vez por todas. – Sabe, ela nem sempre foi agressiva comigo. Ficou deste jeito depois que eu fiz rimas xingando a mãe dela. A partir deste dia, Jormungand só quis me matar. Quando terminei a declamação, ela arrancou minhas pernas e voltou ao mar. Aquele dia, foi difícil voltar para a orla...
- Ah, Erik, você pediu para ela fazer isso! – Seus olhos brilhavam em divertimento, tentando imaginar a cena e mostrando, sem nenhum pudor, sua apreciação pela desgraça alheia e meu senso de humor – Não tem medo de alguém realmente ficar irado o suficiente com você, a ponto de tirar-lhe a vida?
- Por que um cadáver ambulante teria medo da morte? Tiram-me os braços e as pernas, eu coloco novos no lugar.
Para comprovar o meu ponto, invoquei as sombras ao meu redor, moldando-as no formato de um braço humano e encaixei-o em meu corpo, os tendões e músculos se ligando ao objeto estranho conjurado como se ele fosse inato ao meu ser. Uma medida temporária até eu chegar ao meu “lar” e encontrar um novo compatível. O silêncio perdurou, interrompido somente pelo ruído do deslizar da madeira sobre a água e o seu forte impacto cada vez que eu abaixava meu braço e a golpeava.
- Você fala tudo isso tentando convencer a si mesmo com suas próprias palavras.
Perdi a paciência e dei-lhe uma remada lateral, o arremessando para fora do barco, em direção à névoa. Não ouvi o barulho de um corpo pesado afundando nem o bater de asas de uma ave.
Passos leves como uma pluma ondulavam a superfície, se afastando calmamente do local. Por um instante, foi como se o tempo se recusasse a passar e uma mão invisível se fechasse sobre meu coração. Prendi a respiração e esperei até aquela presença ameaçadora desaparecer, o medo tomando conta de meu corpo. Aquilo fora um aviso de que eu estava cruzando o limite. Nevermore pode ser tremendamente assustador. Não queira estar perto dele quando ele se transforma em forma humanoide, ou qualquer outra forma que não seja a de um agradável e pequeno corvo com cartas e fixas de poker. Imagine todas as monstruosidades que sua mente pode criar, todos os seus medos mais profundos, personificados em uma única criaturinha carismática, emplumada e aparentemente inofensiva. Ele é o único indivíduo por aqui que eu respeito como igual, se não superior, à minha pessoa. Já estava aqui quando fiz deste mundo minha residência. O que o torna verdadeiramente perigoso, na realidade, são suas ações. Ele é um pássaro, não um humano. Deste modo, ele não desfruta de alguns conceitos implantados pela sociedade. Não mede esforços para proteger minha mestra, podendo até mesmo me destruir para manter a ordem. É a peça mais importante de meu tabuleiro e, uma hora ou outra, nos reencontraríamos de novo. Esquecera-se do meu braço.
O odor da decomposição já estava extremamente repugnante. Esbocei um sorriso vil, aspirando o máximo de ar possível e depois expirando com satisfação. Lembrava-me dos bons tempos, antes daquele elfo maldito aparecer e arruinar minha vida com sua moralidade, senso de justiça e outras coisas inúteis que somente atrasam a minha mestra. Bondade, compaixão... Faz-me até dar vontade de dar risada de suas tentativas fúteis de tentar mudá-la. Simplesmente patético. Não sabe a profundidade deste poço. Não há luz nessas trevas. Tormenta era movida só pelo raciocínio, curiosidade e instinto... Por que isto está mudando? Quem este homem pensa que é, achando que pode por um fim ao inverno eterno que domina este mundo? Dar vida à minha floresta e derreter o meu castelo? Ele pagará por sua audácia e insubordinação. Essas terras são comandadas por mim e eu não aceito nenhuma ameaça ao meu poder.
Aquela névoa escarnecia ainda mais de minha situação. A umidade era a prova de que eu estava enfraquecendo e ele, vencendo a batalha. A ilha não mais tinha seu solo congelado como antigamente, pois fora ali que ele fizera sua morada. Assim que eu vira em meio às arvores secas e retorcidas aquele botão vermelho, com seus espinhos e raízes devorando o solo infértil, sabia que deveria tê-lo queimado e posto um fim a tudo aquilo, antes que a praga se espalhasse. Mas curioso como eu sou, queria ver a planta sofrer e definhar lentamente frente às adversidades ao seu redor. Mas de um dia para outro, o que era uma pequena mancha vermelha e brilhante em meio à escuridão depressiva que ameaçava engoli-la e sufocá-la, tornou-se uma linda rosa, que desabrochou e contaminou tudo feito fogo no capinzal seco. Vendo como uma flor tão pequena lutara para sobreviver e conquistar sua posição, as demais árvores seguiram seu exemplo, desafiando minha autoridade e ousando produzir folhas novas e ramificações, criando densas copas e voltando a vida, renascendo de suas antigas cascas vazias e cinzentas, contrariando as leis naturais.
Irado, cruzei o Limbo, não para tirar satisfação ou barganhar, mas para trazer a morte novamente ao local e ao adentrar na floresta, à procura do núcleo causador de toda aquela anormalidade, fui recebido com rosnados. Na clareira, onde estava a rosa, criaturas, mais especificamente, lobos, com suas enormes presas refletindo a luz de maneira quase fantasmagórica, agressivamente se esgueiravam, tentando aproximar-se de minha forma. Nunca houve animais vivos naquele local, só Krieg, meu corcel, que não pode ser exatamente classificado como algo dotado de vida.
Cada uma daquelas feras era de um elemento diferente. O maior, que aparentava ser o alfa, era de um gelo tão transparente que chegava próximo ao cristal. De sua boca e nariz saiam nuvens de ar frio e seus olhos azuis destacavam-se, iluminados com energia arcana que pulsava em seus corpos. Agressivo, ele tentava impedir minha passagem, sua postura claramente demonstrando a vontade de pular sobre minha garganta e mutilar-me. Ao seu redor havia mais três canídeos, todos como se estivessem espreitando e observando uma presa em meio à caçada. Um destacava-se absurdamente, suas labaredas queimando a relva que havia lutado para crescer, o estalo do fogo crepitando e consumindo a matéria se fundindo ao som produzido pela garganta dos animais, mas ainda claramente distinguível. Outro, produzia faíscas de seu corpo constantemente e quanto ao ultimo, parecia ser feito do próprio ar e folhas que eram carregadas por ele, o vento mutável e móvel tornando a forma de um lobo cinzento. Então, eles se acovardaram, assustados. Meu mero olhar os fizera recuar até as sombras, ao avistar tamanha afronta contra minha presença, minha ira devorando qualquer indício de pensamento lógico. Ia matar a todos e pendurar suas carcaças nos espinhos gélidos de minha morada. Um exemplo aos tolos que ousam desafiar a morte.
Dei somente dois passos à frente. O barulho da folhagem dos arbustos se mexendo me fizera congelar no lugar, a espera, minhas adagas trabalhadas em prata deslizando do tecido negro das mangas de minha vestimenta com o leve movimento certo de meu braço, meu corpo se fundindo à penumbra, sendo o único sinal de minha presença meus olhos escarlates. Não podia fecha-los e ficar totalmente furtivo, pois queria ver o rosto do maldito problemático que estava pondo as manguinhas de fora, dando-me a chance tão tentadora de decepar-lhe as mãos. Tais membros surgiram da vegetação, abrindo caminho para um cavaleiro alto de armadura negra e vermelha, os fios de cabelo, como o ouro, reluziam na pouca luz que perfurava as copas das arvores. Sua silhueta era esguia e elegante, mesmo com placas de metal. Conhecia aquelas feições marcantes e orelhas pontudas. Este homem há muito tempo vagava na mente de minha milady, atrapalhando seus pensamentos. Por que ele tomou uma forma física, justo agora?
Bagunçou as mechas louras, tirando as folhas, fitando minha localização com seus orbes verdes, segurando o cabo da espada gigante que ficava presa a suas costas. Rapidamente fechei os olhos, diminuindo a força de minha presença. Relaxando os músculos e pensando que eu era mera criação de seus sentidos, o elfo se voltara para as feras, afagando a orelha do espectro de fogo, que deitou-se de barriga para cima, completamente feliz com o agrado. O de gelo, por outro lado, nem por um momento desviou o olhar do local onde eu me encontrava, ainda tenso, os pelos arrepiados feito espinhos.
- Endrius.
Com o movimentar de sua capa, o homem virou-se para o lobo astuto que congelava o solo ao redor de suas patas, ao ouvir seu nome sendo pronunciado.
- A ameaça ainda está aqui. Posso sentir seu cheiro pútrido no ar.
Antes que qualquer um deles pudesse agir, abandonei meu refúgio, tornando-me visível novamente e mais rápido do que os olhos humanos podem acompanhar, aproximei-me das costas que estavam viradas para mim, o ponto cego, e coloquei a lâmina fria de minha adaga de naja no pescoço do invasor. Estranhamente, não o senti emanar medo ou nervosismo, somente curiosidade para com seu atacante. Ele levantou as mãos, mostrando que era inofensivo e desejava trégua. Seus bichinhos de estimação pareciam pensar o contrário.
- O que faz aqui, paladino?
- O que todos vocês fazem. Estou aqui por que sua adorável criadora me considera importante o suficiente para dar-me uma forma física e conceder-me o direito de fazer da mente dela, minha moradia.
Meus olhos se estreitaram. Pressionei mais a lâmina, criando um filete de sangue. Os cães se agitaram, alarmados.
- Não foi esta a minha pergunta, não pense que eu caio nos seus encantos, como a minha mestra. Nenhum outro homem, além de mim, é permitido por aqui.
- Você parece que está aqui há muito tempo, não é mesmo? Quem é você?
- Perdão pela grosseria. – Retirei a arma da pele, me afastando o suficiente, permitindo que ele se virasse para contemplar-me. Fiz uma nobre reverência, ainda o observando com cautela, sem abaixar a guarda. – Erik, barqueiro, assassino, músico e muito mais... Você não precisa se apresentar. Conheço bem até demais quem você é. – Tornei a usar meu tom frio e repressor. Não o toleraria aqui.
- Bem, Erik, o que você acha destas arvores? – Que tipo de pergunta é essa? Estava ele brincando comigo? Tentando desviar o rumo da conversa? Mas ele é esperto, pela experiência da Tormenta, nenhuma pergunta dele é sem motivo e cada uma delas é carregada de significado. Eu deveria prosseguir com cautela...
- Horríveis. Aqui deveria prevalecer a morte e a decomposição, não um jardim botânico que me enoja até a alma. – Meus dentes e punhos se serraram, minha fúria contida em um sorriso enrijecido por baixo da máscara – Fora você que fizera tudo isso, não é mesmo?
- Sim, mas não acho que combina muito com a Tormenta, não é mesmo? – Ele tocou uma arvore. Meus olhos se arregalaram. A partir daquele ponto, a planta lentamente começara a tornar-se branca como o osso, emitindo uma luz roxa bela e fantasmagórica, suas folhas virando cristais afiados de ametista. Observei a transformação, espantado. Somente eu, no meu ápice, tinha conseguido influenciar minha mestra daquele modo e curvá-la à minha vontade. Mas isso não era o pior. Quando ele estendera o braço, pude visualizar uma luz vermelha escondida em sua capa. Carregava consigo a maldita planta núcleo de todos os meus problemas. – Bem melhor, não?
- Ora, sua ralé imunda, não permitirei que você a controle deste modo... – eu estava perigosamente calmo, à beira de um ataque súbito e sanguinolento, meus olhos brilhando perigosamente e a mão em minha arma sedenta tremia em antecipação, os dedos aumentando a pressão sobre o couro que enrolava a empunhadura da adaga. – Aquele que você está encarando e tão casualmente conversando civilizadamente é aquele que manda nesta terra e irá enforcá-lo.
- Perdão, meu caro Erik, mas seu reinado está chegando ao fim.
Algo descolou de meu rosto. Olhei para o chão. Um pedaço de minha própria carne. Ele quebrara a ilusão, sem mexer sequer um musculo. Meu corpo se desfazia, na presença e força daquele homem, que ameaçava me substituir. Palavras ecoaram na minha mente.
“ Da carne, ao osso, ao pó, ao nada.”
- KRIEG!
O esqueleto correra ao meu encontro, cortando a floresta feito um relâmpago, batendo seus cascos na terra com força e rapidez que nenhum cavalo vivo acompanharia. Relinchou, anunciando sua chegada. Abaixou o crânio enorme. De sua coluna vertebral ainda havia resquícios de músculos e crina, que me ajudaram a montar. Fogo fátuo substituía seus olhos que me fitavam, preocupados. A magia profana emanava de seus ossos cheios de fraturas. Um verdadeiro corcel de guerra. Minha mais bela criação.
- Não pense que venceu a batalha, elfo – A ultima palavra saiu como xingamento. Ergui parcialmente a máscara e cuspi no chão, próximo da bota do homem.
- Não venci a batalha. Esta guerra já está ganha.
O estalo do remo em minha mão se quebrando fizera me lembrar da realidade, as farpas, com a força, penetrando minha luva e pele. Rugi feito um animal ensandecido, olhando para os céus, xingando e amaldiçoando mentalmente aquele desgraçado que a partir daquele dia, havia tornado de minha vida, um inferno. Ao meu redor, as brumas se dissipavam, revelando a ilha coberta pela floresta mística arroxeada, dando mais uma facada em meu peito. Não perderia. Não para ele... Faria o que fosse necessário para continuar no comando, mesmo que isso significasse trapacear, trair, matar, torturar... Sequestrar...
Sorri de orelha a orelha, minha face se deformando ainda mais com o esforço. Realmente vale tudo no amor e na guerra.












