Nenhum minuto havia se passado, a despeito da confusĂŁo em que minha mente se encontrava. Eu nĂŁo sabia o que fazer e o peso da minha decisĂŁo martelava a minha cabeça com uma marreta de quinze quilos. Ainda tinha dez minutos para me decidir antes que ela chegasse e tornasse tudo pior do que jĂĄ estava. Nem preciso de poderes premonitĂłrios para saber que ela ficaria brava, gritaria, xingaria e choraria, mas eu pretendia estar bem longe quando isso acontecesse. Eu nĂŁo suporto vĂȘ-la chorar, principalmente quando eu sou o causador do pranto. Eu estava preso entre as palavras que vinham na minha mente. âAdeusâ era uma palavra forte que poderia resolver tudo e me fazer ir embora com mais facilidade. Mas sĂł eu sabia o quanto ela me odiaria por dizer aquilo, sĂł eu sabia o quanto ela temia aquelas palavras. Eu nĂŁo podia dizer adeus a Sara. Por outro lado, eu poderia apenas abraçå-la bem forte e dizer âeu te amoâ verdadeiramente. Eram palavras fortes, mas eram as que eu mais queria dizer. Eu precisava dela tĂŁo desesperadamente que as vezes tinha a impressĂŁo de que eu respirava Sara e nĂŁo ar. Mas eu nĂŁo podia dizer isso. Era contra tudo o que planejava, ela me odiaria quando acabasse, por ter dito que a amava e mesmo assim ter partido.Â
Oito minutos. Apenas dois minutos se passara e eu ainda nĂŁo tinha a mĂnima idĂ©ia do que fazer. MachucĂĄ-la seria inevitĂĄvel. De uma maneira ou outra, o coração dela, o bem mais precioso que eu tinha, sairia partido dessa historia toda.Â
Malditas circunstancias. Mil vezes amaldiçoadas sejam vocĂȘs! Eu nĂŁo podia deixĂĄ-la sozinha, mas tambĂ©m me doeria demais ter que ficar e deixĂĄ-la acompanhar o meu fim. Nunca me senti mais indeciso na vida. Minto. JĂĄ me senti assim, anos antes quando vi Sara e nĂŁo sabia o que fazer: ir falar com ela e me arriscar a tomar um fora da garota mais linda que jĂĄ conheci, ou deixar quieto e apenas observĂĄ-la de longe.Â
âOdeio hospitais, mĂ©dicos e tudo relacionado a isso!â, agora a voz dela ecoa em minha cabeça sem parar. Eu tambĂ©m odeio, minha amada, mas nesse momento eu nĂŁo posso fazer nada. Estou doente, vou morrer. E a certeza desse fato me deixa tĂŁo mal, por saber que, no momento em que eu nĂŁo estiver mais com ela, o coração de Sara nĂŁo baterĂĄ mais.Â
Adeus? Eu te amo? Meu Deus! Eu nĂŁo posso ficar, nĂŁo posso partir. NĂŁo me deixe nessa situação. Seis minutos. Eu tinha que me decidir rĂĄpido, enquanto seus belos olhos Mel esverdeados ainda nĂŁo me encaravam apaixonados, como sempre costumavam fazer. Escutei um barulho na porta e meu coração acelerou.Â
Minha nossa! SerĂĄ que ela chegara mais cedo? O meu peito arfava devido a minha respiração acelerada, tinha certeza que era Sara . O meu corpo conhece a presença dela tĂŁo bem que reage a isso imediatamente a isso.Â
E a decisĂŁo? Eu permanecia entre um "adeus" e um "eu te amo". Mais palavras vinham a minha mente como âDesculpeâ ou âSinto Muitoâ.... Mas "Adeus" e "Eu te Amo" eram as que mais se repetiam. Que droga!Â
Me virei para a porta a tempo de vĂȘ-la na sala tirando o cachecol com um sorriso exuberante destinado a mim.Â
Me senti um lixo, talvez algo pior. Sara me entenderia um dia. E esse dia chegaria quando a saudade se tornasse apenas uma companheira e nĂŁo mais uma assassina de seus sonhos. Na verdade, eu sabia o que me doĂa tanto. Me doĂa saber que indo embora, eu poderia estar deixando o seu coração vazio para que outra pessoa pudesse ocupĂĄ-lo. Eu a deixaria livre. Tinha que deixĂĄ-la livre.Â
âQue bom te ver, meu amorâ, ela disse se jogando nos meus braços enquanto me intoxicava com o seu perfume tĂŁo Ășnico. A abracei tambĂ©m, com toda a força que fui capaz de fazer. A decisĂŁo era minha. A escolha estava feita. As palavras finalmente estavam na ponta da lĂngua. Segurei-a pelos ombros e a afastei de mim para que pudesse ver seus olhos Mel esverdeados e, como jĂĄ disse, apaixonantes. Ela piscou sorrindo e eu nĂŁo consegui fazer o mesmo, tamanho era o meu nervosismo.Â
â Sara â chamei ela com um tom de voz suave. âEu te amoâ.Â
Ela sorriu, como eu previ que ela fosse fazer. Eu te amo, a palavra que atormentava a minha mente, finalmente estava livre e a fizera sorrir. IncrĂvel o modo como o sorriso dela conseguia iluminar tudo a minha volta.Â
Minhas mĂŁos escorregaram pelos braços dela atĂ© eu segurar suas mĂŁos quentes e macias. Ela sussurrou âEu tambĂ©mâ e foi entĂŁo que minha consciĂȘncia mais pesou, mas eu nĂŁo podia mais desistir.Â
Afastei-me vagarosamente ainda mantendo nossas mĂŁos unidas, ao chegar a porta nossos dedos ainda se tocavam. Abri a porta encarando o corredor com o olhar parado por alguns segundos antes de voltar a encarĂĄ-la, que continuava com o sorriso em seu rosto, que espelhava tambĂ©m uma certa confusĂŁo.Â
âMas, adeusâ disse antes que o arrependimento batesse de uma vez e me fizesse esquecer o objetivo maior: proteger o coração dela a qualquer custo.Â
Fechei a porta e caminhei firmemente para o elevador, escutando os passos rĂĄpidos e leves de Sara correndo atrĂĄs de mim. Antes das portas de aço se fecharem ainda consegui ver o seu rosto inundado de lĂĄgrimas e pude mover os lĂĄbios murmurando âDesculpe-meâ.  Ela entenderia, ela saberia. Um dia. Eu fiz o melhor para nĂłs dois. Deixei-a livre do meu sofrimento, mesmo agora tendo que terminar meus dias vendo seus belos olhos Mel esverdeados chorando, enquanto eu partia.