#Especial1998: Uma linha do tempo de capas e clipes icĂ´nicos dos anos 90
– por Diego Hernandez de Lima (@diego.mouro)
Fim da Guerra Fria, globalização, popularização dos computadores, TV a cabo e internet - alĂ©m de ainda viver a sua Golden Age - foi nesse contexto dos anos 90 que o rap viveu sua golden age e escreveu com caneta dourada seu nome na histĂłria musical. As gravadoras tinham dinheiro, a MTV tinha nascido há pouco tempo, as pessoas piravam nas possibilidades da TV a cabo e compravam CDs. As capas e videoclipes ganharam status de obras de arte, nĂŁo serviam mais apenas para fortalecer a linguagem do single ou do álbum. Agora, elas ditavam moda, exaltavam posicionamentos polĂticos e eram responsáveis por tornar conhecido, o que atĂ© entĂŁo, era underground. Os registros visuais faziam parte do negĂłcio agora, e isso contribuiu para o rap alcançar o mainstream de uma maneira poderosa. As capas viraram cartĂŁo de visita, e gravadoras e artistas se empenharam na contratação de diretores de arte, especificamente, para pensá-las mais artisticamente. Algumas ficaram tĂŁo famosas que foram alĂ©m dos 12x12 cm do encarte e viraram Ăcones pop pelas dĂ©cadas que viriam.
Dr. Dre puxou esse bonde com o seu disco "The Chronic” (1992) – a capa recria o rĂłtulo de uma seda popular nos anos 90 chamada Zig Zag. Foi um estouro. Um adendo: the chronic tambĂ©m era uma gĂria para maconha em LA.
Depois dele vieram Notorius B.I.G. com sua "Ready to Die" (1994), que viraria até estampa de camiseta da Supreme, décadas depois, por alguns dols, e NAS com a inovadora “Illmatic" (1994). Na capa, um jovem NAS sobrepõe um retrato do seu famigerado bairro, Queensbridge. Além da foto, NAS trouxe outra inovação estética mais sútil: Seu nome, foi escrito num estilo tipográfico que conhecemos como Olde English, um estilo que pretendia simular as fontes da nobreza. Será que ali NAS já reivindicava sua realeza?
TambĂ©m houve espaço para os ilustradores, como Joe Cool, primo de Snoop Dogg. Diz a lenda que Snoopy precisava de uma capa para o seu “DoggyStyle” (1993) e chamou seu primo – aquela velha histĂłria do primo que faz mais barato. Joe cobrou 25 dĂłlares pelo desenho. Pegou elementos do Funkadelic - muito usados pela galera do G-Funk na Ă©poca - misturou com algumas de suas ilustrações, escreveu uns trechos de “Atomic Dog", do George Clinton, e voilĂ . “I didn’t think it would be iconic, man" (Eu nĂŁo sabia que se tornaria um Ăcone, man), disse Joe uma vez. Mas foi, Joe.
O Outkast tambĂ©m se aventurou nas capas mais artĂsticas. Começou na pegada de ilustração no seu “ATLiens” e logo em seguida no que seria um dos seus mais marcantes álbuns, o “Aquemini” (1998). Pra essa capa eles deixaram de lado o estilo quadrinho futurista e apostaram num estilo mais Blaxploitation. A ilustração Ă© toda inspirada nos antigos posters de neon da dĂ©cada de 80, cheio de psicodelias e simbolismos. A roda de signo ao fundo, por exemplo, Ă© uma referĂŞncia direta ao nome do álbum que nada mais Ă© que uma junção dos signos dos integrantes, aquário (aquarius) e gĂŞmeos (gemini). Um tanto quanto genial.
No mesmo ano de “Aquemini”, 1998, o grupo A Tribe Called Quest lançou o que seria seu quinto, e atĂ© entĂŁo, Ăşltimo álbum. Ainda sem anunciar o fim da banda, o ATCQ lançou o "The Love Movement”, completamente branco, minimalista e enigmático, tĂtulo em preto e sĂmbolos - que remetiam a posições do kamasutra -  em prateado. Uma capa que contrariava completamente os Ăşltimos álbuns ilustrados com obras extremamente coloridas e artĂsticas. O ATCQ anunciava o seu fim – porĂ©m, eles se reuniram novamente para lançar “We Got It from Here... Thank You 4 Your Service”, em 2016, poucos meses apĂłs a morte de Phife Dawg, um de seus integrantes –  nas entrelinhas.
Em 1999, “Things Fall Apart” (1999) veio mais pĂ© no peito no quesito manifestação polĂtico-social. Com cinco capas diferentes, o disco levava o tĂtulo ao pĂ© da letra e refletia, em fotos espetaculares, o lado mais sombrio da sociedade. Uma igreja queimada, uma perseguição a estudantes negras em Bedford-Stuyvesant; a mĂŁo de conhecido chefe da máfia morto; uma criança chorando de fome na Somália; e um bebĂŞ em desespero apĂłs os ataques do JapĂŁo na Segunda Guerra Mundial. Todas capas extremamente impactantes e que conversavam completamente com o conteĂşdo do álbum. Quase um trabalho jornalĂstico.
A FORÇA DOS VIDEOCLIPES Mas nĂŁo sĂł de grandes capas viveu o rap 90. A dĂ©cada foi definitivamente a era dos videoclipes e suas tomadas em fisheye - estilo de lente de câmera - e planos fechados. Um exemplo Ă© “Sky’s the Limit” (1997), do Notorious B.I.G. Planos fechados, fisheye e as versões jovens de B.I.G., Puff Daddy, Busta Rhymes e Lil Kim. “The Rain” (1997), da Missy Elliott, “Put your Hands Where My Eyes Can See”, do Busta Rhymes, sĂŁo outros clássicos desse estilo. Hype Williams - que dirigiu os clipes de Busta e Missy Elliott - virou o mestre dessas tĂ©cnicas, transformando-as em sua marca pessoal. Mas, pra mim, o grande legado do Hype pra histĂłria foi “Gettin’ Jiggy With It” (1997), do Will Smith. Quem nĂŁo lembra da dancinha do refrĂŁo? Puro charme e sensualidade, daqueles que sĂł Will Smith consegue nos proporcionar.Â
Também teve a galera que resolveu inovar e acertou em cheio na linguagem retrô-tech - que aliás, voltou à moda. “Scenario”, do A Tribe Called Quest, é praticamente um de “Volta para o Futuro” do design, com sua linguagem old school style de computador. Nessa época emergiram os grandes diretores de clipes. Além do Hype, veio o Spike Jonze. Spike puxou a barca dos diretores, gravou - e atuou em - diversos clipes foda, como “Praise You”, do Fatboy Slim. Mas foi com “Sabotage” (1994), do Beastie Boys, que ele criou sua masterpiece, aquele que, pra alguns, é considerado o maior videoclipe da história - tá, talvez dispute com “Thriller”, do Michael Jackson.
A cara, meio Hermes e Renato, deixa transparecer a genialidade de Spike. São 3 minutos de cortes rápidos, tomadas de câmera de mão em movimento e mudanças de plano que acompanhavam o beat. Ele sabia usar os planos como ninguém e abusava dos planos de fuga e das diagonais em cena pra dar mais dinâmica e aumentar a sensação de que o espectador estava dentro do clipe. “Sabotage” é uma obra-prima até hoje e apresentava pro mundo aquele que se tornaria um dos mais conhecidos, e premiados, diretores da atualidade.
Pra finalizar nossa viagem no tempo, o fenĂ´meno Lauryn Hill. Ms. Hill se apresentou ao mundo, em carreira solo, com seu single, pesadĂssimo, “Doo-Wop (That Thing)”, em 1998. O single ficou quatro semanas seguidas no topo da Billboard e fez a rapa no Video Music Awards do ano seguinte (1999), faturando os prĂŞmios de melhor videoclipe de R&B, melhor direção de arte e ainda o de melhor clipe do ano.Â
O clipe já apresentava, de forma quase literal, aquelas que seriam as caracterĂsticas pela qual Ms.Hill ficaria conhecida. Filmado com uma tela divida, o clipe apresenta dois cenários distintos, mas completamente interligados, no lado esquerdo, o R&B e soul dos anos 60, e no direito, o hip hop dos anos 90. Mas nĂŁo eram sĂł as suas raĂzes e influĂŞncias que Lauryn apresentava ali. No decorrer do vĂdeo, o que se vĂŞ Ă© uma Lauryn melĂłdica e dançante, atuando como um backing vocal suave no lado esquerdo, enquanto no direito temos a Lauryn maloqueira, com a ousadia do hip hop e flow potentĂssimo. Essa sĂntese, a mescla dessas duas Lauryns - e a naturalidade como ela tocava isso - se tornaria, nos prĂłximos anos, a sua marca pessoal.
BONUS TRACK A bonus track da vez é talvez a história mais bizarra do maior documento fotográfico da histeria que foi o rap dos anos 90. A capa de “We Can't be Stopped, do Geto Boys”. Cara, a história dessa capa é a coisa mais bizarramente engraçada e questionável da vida. Tudo começa com Bill, bêbado e sob a influência de diversas drogas numa discussão com sua namorada e pedindo – sim, pedindo– pra que ela desse um tiro em seu olho (depois ele esclareceu que isso era um golpe pro seguro, mas, enfim). Ela relutou, a briga foi ficando feia, e no meio da luta, a arma dispara e acerta o olho de Bill. Aquele desespero, corre pro hospital, liga pros parceiros, aquela loucura. Jordan (Scarface) e Dennis (Willie D) chegam no hospital e descobrem que Bill vai perder o olho mas ficará vivo. Eles descem até o hall do hospital, onde encontram seu empresário Cliff. Alguns minutos se passam e eis que Cliff diz: “Ei, que bom que Bill está bem, vivo, o CD está pronto, e o que faremos com a capa?"
Sim, senhoras e senhores, esse gênio criativo teve a ideia de, ali no hospital mesmo, pegar uma maca, colocar Bill e fazer a capa do CD. Tudo aquilo que você vê é real, Bill estava internado, arrancaram o tampão pra mostrar o olho inchado e cego. Bom, a única coisa não real ali era o telefone na orelha de Bill, puramente cenográfico, ele não falava com ninguém naquele momento. Durmam com essa. Quanto mais o tempo passa, mais os anos 90 se tornam icônicos.
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