27 - #27 Here comes the sun
Título da fanfic: Here comes the Sun
Sinopse: Depois de uma noite difícil, há sempre um novo sol.
Couple: HunHan
Número do plot: #27 Unhappy (marriage): um casal, após 5 anos de casamento, não consegue mais manter uma boa convivência juntos. Nada parece como antes; toda a adrenalina, a emoção e a felicidade em ficar perto não está mais lá. Mas não é como se Sehun quisesse deixar Luhan escapar de seus braços. O que será que ele pode fazer para impedir seus laços de desatarem?
Classificação: +14
Aviso: UA, Slash, menção a baeksoo, fem!Baekhyun
Quantidade de palavras: 10807
Nota do autor(a): me desculpa, de verdade, se eu não fui fiel ao plot doado ou de alguma forma decepcionei quem teve a ideia
Little darling
I feel that ice is slowly melting
Little darling
It seems like years since it's been clear
Estavam naquela situação há tempo demais, Sehun notou. Como se estivessem presos em rotinas diferentes, onde a vida de um, não parecia mais fazer parte da vida do outro. Dois estranhos sob o mesmo teto seguindo seus próprios caminhos, ambos em direções opostas. A falta de interesse, a nítida exaustão e a sensação latente de que apenas estavam empurrando aquele relacionamento, tentando tornar mais longo o que já estava fadado. Talvez por terem se acostumado àquela vida, talvez para evitarem tudo o que teriam pela frente caso alguém desse um passo em direção à conversa que os levaria ao divórcio.
Amar até que a morte os separe é completamente possível, mas saber lidar com as controvérsias de dividir a vida com uma pessoa, contornar os obstáculos impostos pelo mundo afora e também aqueles que se criam dentre as paredes que se formam o lar, trata-se de outra história. O amor e apenas ele, seria capaz de ir contra todos os sentimentos opostos, derrubar as barreiras que se construíam entre dois corações que se pertenceram um dia?
Sehun não se reconhecia mais.
Costumava ser do tipo animado, daqueles que sempre encontram motivos para rir e conseguem tornar qualquer situação divertida. Era o centro das atenções na rodinha de amigos, a estrela do escritório e o sonho de uma boa parte das pessoas que cruzavam seu caminho. Mas agora, os amigos só serviam mesmo para uma saída até o pub mais próximo e tomar umas cervejas no final de semana, adiando a ida para casa. No escritório, ao menos profissionalmente, tudo estava bem apesar da cara sempre fechada num semblante sério, causando receio para qualquer aproximação. E quanto a ser um sonho, bom, isso aparentemente nem em casa funcionava mais.
Luhan era um filho da puta. Porque ele também poderia ter feito algo, tentado segurar um pouco mais forte do seu lado e trazer Sehun de volta. Mas ele caiu junto, os dois embolados naquela corda em direção ao fundo do poço. Ele não fez nada, só os deixou seguir no rumo que haviam tomado até chegar onde estavam.
No bom dia automático antes de saírem para o trabalho e costas viradas uma para outra, com um vão enorme no meio da cama, durante a noite. Listas de supermercado e contas da casa eram o único assunto a menos que houvesse uma lâmpada quebrada. Às vezes alguém se lembrava de avisar que não chegaria a tempo para o jantar, ou avisava que tinha deixado comida pronta na geladeira. No mais, era cada um na sua.
Sehun não era do tipo de cara que observa apenas o que está diante dos olhos; costumava se perder nas entrelinhas que muitas vezes não queriam dizer nada, mas que ele não conseguia deixar passar. Gostava de procurar significados, de deixar as coisas implícitas e procurar pelas respostas, ao invés de recebê-las de bandeja. Talvez por isso fosse bom em seu trabalho, se perdia na atenção prestada e as horas se passavam sem que sequer se lembrasse do que o esperava fora do prédio da editora Byun.
E, também, talvez por isso seu casamento parecesse tão fracassado quanto poderia, naquela rotina forçada de convivência.
Sehun, naquela noite, saiu arrastado para o bar com os colegas de trabalho com intuito de comemoração. Sua chefe, ironicamente, festejava o pós-divórcio. Um ano desde que aquele longo e arrastado processo, do qual ouvia a amiga lamentar diariamente, pois o ex-marido vivia encontrando motivos para adiamentos ou novas audiências, terminara oficialmente. Devolvendo a Baekhyun seu nome de batismo e mantendo os dedinhos do Wu bem longe de seus negócios e dinheiro.
Ela parecia ter muito o que comemorar, ainda mais comparando ao ano anterior quando chegava à editora no modo zumbi, com olheiras gigantes e brigando com todo mundo. Aquele era o exemplo de casamento que realmente deveria ter acabado, ou sequer começado.
Sehun virou uma dose de conhaque, se contorcendo todo por dentro enquanto o líquido descia pela garganta. Não era de beber além do sociável, mas estava tão cansado, exausto, queria se sentir animado daquela forma como seus colegas estavam. Queria se sentir feliz de novo, como quando corria para casa para deitar no sofá com o marido e ver televisão até pegarem no sono, ser acordado no meio da madrugada com beijos molhados no rosto e então ser arrastado para cama. A ideia de sair dali para dar de cara com a cama fria e lençóis separados, porém, não era nada agradável.
"Eu estou comemorando, Sehun-ah. O Kris não morreu, tira essa cara de enterro", Baekhyun brincou ao sentar-se ao lado dele no bar.
Um riso meio irônico escapou dos lábios de Sehun.
"Quer conversar?"
Injusto. Era completamente injusto ter Baekhyun como o ombro de apoio e alugar seus ouvidos com lamúrias bem naquele dia que ela julgava tão especial. Mas se tinha alguém que poderia entendê-lo...
Sehun deu de ombros.
"Vou chutar: Luhan."
"Bingo!"
Baekhyun e Luhan haviam se encontrado apenas duas vezes, ambas em confraternizações de final de ano da editora. Mas nunca chegaram a conversar mais de dois minutos, eram completos estranhos.
"Você bem que podia esquecer ele um pouquinho e se divertir... Tentar colocar a cabeça no lugar, sabe? Ver se... Deve tentar ou... Só deixar pra lá."
Baekhyun, de verdade, não queria sugerir aquilo. Não queria seu amigo numa situação daquelas quando sabia que no coração dele ainda havia o outro de canto a canto. O seu caso era completamente diferente, seu ex-marido era um cretino que tornou qualquer sentimento bom que ela tinha por ele em ódio, repulsa. Mas Luhan não. Não o conhecia de fato, mas Sehun falava dele com um brilho saudoso nos olhos ainda que a situação entre o casal não fosse das melhores.
"Nesse final de semana, você é meu Sehun. E não vou te deixar com tempo para remoer nada..."
"No que está pensando?"
"Que tal vermos como seria sua vida sem o Luhan... E...", sua ideia estava implícita. Como seria caso os dois se separassem de vez. "Daí você decide o que é melhor pra você."
Não dando tempo de obter uma resposta, Baekhyun arrastou Sehun para o grupo que o pessoal da editora formara entre risadas altas e falas animadas. Levou Sehun para dançar, lhe contou piadas sem graça e parou com ele para analisar cada um presente naquele bar. Aquilo era quase um hobby para Sehun, e Baekhyun descobriu na primeira semana dele como seu estagiário, quando o garoto de casamento marcado se esquecia das tarefas para observar os demais funcionários como se aquilo fizesse parte de suas obrigações.
O relógio marcava cinco e vinte sete da manhã quando todos se despediram no estacionamento, sumindo dentro de carros do Uber ou táxis. Era costume que deixassem seus carros no prédio da editora ou fossem, pela manhã, ao trabalho de metrô, pois em saídas como aquelas ninguém poderia voltar para casa no volante.
"Lembra que eu disse que você era meu nesse final de semana? Não chegou a hora de voltar pra casa ainda, Sehun-ah."
Sehun pegou o celular. Não tinha uma sequer ligação perdida ou uma mensagem a sua procura. Não era de chegar tão tarde em casa, embora sempre passasse da meia-noite nas sextas-feiras. Luhan não o procurara. Não queria saber dele, nem mesmo para conferir se nada grave tinha acontecido.
Sehun voltou caminhando para a editora, o braço servindo de apoio para Baekhyun andar nas calçadas irregulares com aqueles saltos finos, e se deixou ser levado para onde quer que a amiga fosse.
*
Ao acordar com a luz quente do sol no rosto, Sehun se impulsionou para levantar, só então sentindo o cinto de segurança preso ao seu corpo.
"Só mais vinte minutos e a gente chega. É quase uma da tarde, aliás...", Baekhyun comentou ao notá-lo acordado. Sua voz soara divertida e Sehun se perguntou como, afinal tinham dormido muito pouco antes de saírem com Baekhyun criando suspense sobre onde iriam, mas deu voz a outro questionamento.
"Onde estamos?"
"Na verdade, para onde estamos indo... Agora posso falar já que não dá mais pra você fugir: Haeundae. Lembra da casa que eu ofereci pra você ter umas férias com o Luhan e você recusou? É pra lá", respondeu sem tirar os olhos da estrada.
Na época em que se casaram, Sehun estava no último ano do curso de Literatura e Luhan ainda buscando estabilidade na carreira. Tiveram uma festa pequena e bem familiar no jardim da casa da avó de Sehun, mas passaram a noite no pequeno apartamento de Luhan, onde moraram juntos por dois anos. No dia seguinte Sehun teve aula e Luhan uma emergência com um Golden Retriever idoso. A lua de mel acabara adiada. E adiada. E adiada. Porque agora Luhan tinha uma pequena clínica e Sehun estava começando como editor efetivo na editora Byun.
E com o tempo nem mais falavam na viagem, até que chegaram onde estavam.
Realmente não demorou até que chegassem. A casa bonita e toda branca, tinha um jardim enorme do lado de fora, uma varanda alta na entrada com cadeiras de balanço e a porta de madeira com uma daquelas campainhas antigas que precisava bater contra a madeira, só de estética.
"Sabia que as roupas do demônio serviriam para alguma coisa algum dia! Não se preocupe, estão lavadas com água quente!", Baekhyun falou enquanto procurava as chaves na bolsa. "Acho melhor você vestir algo mais confortável antes de sairmos para almoçar."
Sehun ainda usava as roupas formais do trabalho, mas Baekhyun tinha trocado os saltos por chinelos e o vestido de saia longa por uma camiseta regata e shorts antes de sair de casa. Era quase outra pessoa, se comparada com a dona da editora ou ex-esposa de Kris.
Sehun varreu a casa com os olhos, cômodos grandes e muito abertos com enormes janelas de vidro, a decoração rústica e praiana que a deixava óbvia como casa de veraneio, enquanto era guiado ao quarto de hóspedes onde ficaria e também onde estavam as roupas do ex-marido de Baekhyun.
"Ele raramente as usava, porque além de nunca querer vir pra cá, quando vinha ficava enfiado em casa ou saía apenas à noite e todo pomposo de terno e gravata", ela desdenhou e depois riu. "Te espero lá embaixo."
*
Fora Luhan quem fizera o pedido.
Sehun chegou a pensar que ele estava brincando, mas não estava. Era real, o rosto sereno estava sério e os risos haviam cessado. Os dois estavam na varanda pequena do apartamento, sentados no chão dando risada de nada e de tudo ao mesmo tempo em meio àquelas conversas que surgiam sem propósito e vagavam pelos mais diversos assuntos. Também do nada e ao mesmo tempo de tudo que aquelas palavras mágicas saíram dos lábios de Luhan. Do nada, porque pareceu despretensioso, simples, um desejo que nasceu e ganhou voz, num tudo que se completavam e podiam se sentir assim, de forma tão natural no meio da noite, rindo sobre o camarão com pimenta que havia engasgado Kyungsoo.
E enquanto a comida ia sumindo do prato de Baekhyun, Sehun ainda dançava com o garfo nas tiras de espaguete.
"Não me diga que está pensando no que ficou em Seul? Você vai resolver isso quando voltarmos amanhã à noite, Sehun."
"Não, eu só me lembrei de uma coisa."
"Do que?"
"Do pedido. Quando Luhan me pediu pra casar com ele..."
Baekhyun suspirou frustrada. Não queria Sehun deprimido enquanto planejava diverti-lo. Enquanto planejava que ele percebesse que, talvez, estar sem Luhan pudesse lhe fazer bem também.
"Kris me pediu em casamento aqui em Haeundae. Ele fez isso aqui ser nosso lugar especial, mas depois que nos casamos nunca mais quis voltar. E eu comprei a casa por causa dele...", Baekhyun encheu a boca, mastigando rápido para poder continuar a falar. O mesmo prato que ela adorava e seu ex-marido odiava, trazia lembranças que para sempre estariam fincadas no coração da mulher. Fosse qual fosse o rumo que viesse tomar. "Eu era apaixonada por ele, mas... Tudo se destruiu enquanto eu forçava a continuar tentando, mesmo ele tendo mudado. Mesmo ele estando cada vez mais insuportável. Tem coisas que precisam acontecer, mas apenas no seu tempo. Não mais nem menos, nem pra sempre."
Deixaram o restaurante com a nova promessa que se cumpriu enquanto Baekhyun levava Sehun pela praia, mostrando tudo o que gostava. Até mesmo fizeram uma breve aula de mergulho e compraram um peixe que nem um dos dois saberia preparar. Ao anoitecer, Baekhyun levou-o ao luau do quiosque do gelo. E os dois amanheceram na praia, a sensatez voltando junto com o nascer do sol, ambos sentados na areia ao som das ondas a se quebrarem e zumbidos do vento correndo entre eles.
Iriam embora dali algumas horas e, desde o restaurante, Sehun não havia mais tocado no nome de Luhan. Tinha deixado o celular de lado na casa de Baekhyun para evitá-lo se, por milagre, seu marido o procurasse. Ele esvaziou a mente e se deixou ser levado.
"Por que não deu certo no final das contas? Você e o Kris..."
"Ele mudou. Simples", Baekhyun deu de ombros, ainda fitando o mar como se buscasse algo além de seu horizonte e prosseguiu com a voz mansa, serena, pois era apenas uma lembrança distante, algo que não a incomodava mais. "Mudou completamente, mas aos poucos. E eu quase não percebi. Quando me dei conta, ele já estava escolhendo as minhas roupas, decretando os lugares que eu poderia frequentar ou não e... Basicamente, monopolizando toda a minha vida. Eu devia ter notado isso quando ele exigiu que eu usasse o sobrenome dele. Sabe, eu estava tão feliz porque finalmente iríamos nos casar que nem cheguei a pensar sobre contestar isso de deixar o Byun e me tornar Wu. Mas mesmo assim ele tornou isso quase uma regra... Ou seja, já naquela época ele queria que eu me tornasse declaradamente posse dele. Ele é um idiota!"
"Vocês sempre pareceram bem... Digo, na empresa, nas festas, pareciam felizes."
"Ele é um fingido. Um cara totalmente de aparências. Mas a questão é que eu passei a não querer mais estar com ele, estar perto dele. Vê-lo. Eu o queria longe como estamos agora, entende? Ao contrário de você, que quer tentar dar um jeito, que quer que as coisas se resolvam. Você sabe que eu te adotei desde aquele dia em que foi fazer entrevista comigo e gaguejou nas três primeiras tentativas de dizer o próprio nome, não é? E que se quiser eu posso muito bem ir lá dar uns puxões de orelha no Luhan, porque se ele não der valor ao que tem, o Chanyeol está na fila esperando."
O olhar incrédulo de Sehun, os olhos saltados e a boca aberta a pegaram de surpresa tanto quanto ele mesmo estava.
"O que, vai dizer que nunca percebeu que meu irmão é caidinho por você? Nunca reparou como ele só falta te engolir quando te olha?"
"E-eu, sei lá, só pensei que fosse o jeito dele", Sehun quase ria de incredulidade. Então era por isso toda a gentileza? "Isso é sério?"
"Quem vê esse homão virando conhaque no bar nem imagina o neném que é!", brincou Baekhyun e riu em seguida.
Então houve um silêncio de palavras, apenas o som da natureza mostrando que também participava daquele momento entre amigos.
"Luhan me chama assim. Chamava... Hoje em dia ele deixa escapar vez ou outra, mas tenho certeza que é sem querer."
"Como?"
"Neném", Sehun ruborizou ao admitir em voz alta. Nunca tinha chegado a alguém e falado sobre isso, mas quem presenciara (seu irmão principalmente), acabara por perturbá-lo com piadas infantis.
"Realmente não tem jeito, Sehun. Sua felicidade vai estar sempre onde ele estiver, não importa o que a gente faça, o quanto você se distraia. Quando o momento apaga e o álcool vai embora, seus pensamentos voltam pra ele... Então a gente vai voltar pra Seul e você vai dar um jeito de se resolver com o seu homem. Corre atrás. Não deixe as coisas morrerem assim", ela sorriu doce, reforçando o encorajamento. Apoiaria Sehun em qualquer que fosse a decisão dele. "Neném."
Baekhyun correu para a água, largando na areia os saltos que havia carregado até ali nas mãos, e Sehun foi logo atrás rindo da cara toda contorcida da amiga que tremia de frio. Pareciam duas crianças brincando de molhar uma a outra como se já não estivessem ensopadas. O sol que clareava naquele tom forte de laranja, não servia de muita coisa, e os dois amigos saíram da água agarrando os próprios braços na tentativa inútil de evitar aquele vento que, na pele molhada, tornara-se doloroso. Apesar disso, nos lábios roxos que escondiam os dentes batendo, podiam-se notar sorrisos contidos, mas genuínos.
*
No carro, durante a viagem de volta, tocava N'SYNC em um volume tão alto que as batidas das músicas se tornavam leves estrondos, e ainda assim eles podiam ser ouvidos aos berros acompanhando a letra de Tearin' up My Heart. Pareciam dois loucos que se esqueceram de que a adolescência havia passado e ficado bons anos lá trás, mas não estavam nem aí.
Sehun sentia-se como se pudesse alcançar o céu para ver de perto as estrelas, como se nada pudesse impedi-lo de tentar. Seu celular devia ter descarregado em algum momento, o deixando alheio ao mundo e, quando chegou em casa, ouvir o marido questionando-o o fez abrir um sorriso discreto, daqueles que escapam pelos cantos mesmo depois de todo o esforço para serem escondidos.
Ele então ignorou aquela barreira que havia sorrateiramente se erguido entre os dois e surpreendeu o homem com um breve encostar de seus lábios nos dele; a pele quente e macia reagindo por todo o seu corpo em saudade. E aí ele deu as costas e foi para o quarto, deixando Luhan parado no meio da sala, sem entender coisa alguma, com o coração acelerado e o corpo travado.
*
Não tinha um novo projeto há quase três meses e, enquanto nada surgia, fazia pequenas revisões para alguns colegas. No resto do tempo, ficava no café da esquina do prédio da editora ou na sala de Baekhyun, quando ela não estava ocupada.
Sehun trabalhava, principalmente, com Kim Kai, escritora conhecida no ramo como a versão coreana de Sophie Kinssela ou uma mistura da autora britânica com a norte americana Collen Hoover. Na primeira reunião de divisão de Sehun, lhe foram direcionados vários risinhos por parte de alguns colegas quando foi selecionado para a categoria de romances chiclits e young adults.
Porque para eles parecia tão patético que o cara gay fosse viver um clichê como aqueles com os quais trabalharia. Mas Sehun não se incomodou, porque como lhes havia dito, impondo-se naquela sua primeira participação como um funcionário oficialmente efetivo, não havia gêneros para um amante da literatura e um bom profissional.
Sehun sabia que era visto como protegido de Baekhyun, que só não tinha que lidar com a versão adulta do bullying escolar, porque os demais prezavam seus empregos, então se limitava a apenas ignorar e seguir.
Seu primeiro trabalho fora o terceiro livro de Kai a ser publicado. A ajuda foi mútua, muitas vezes os dois tendo de se sentar no chão da sala de Sehun para discutir ideias entre risos. Ambos fugiam do ditado que dizia que escritores colocavam experiências em palavras, pois aos quase trinta anos, Kai, que publicara livros como As primeiras vezes e Não há morte que nos separe, sequer tinha tido algum relacionamento sério na vida, um namoro que fosse. E Sehun, que naquela altura estava com um casamento entrando em risco sem perceber, talvez imerso demais na vida daqueles personagens que viviam entre desencontros, conseguia se ver em diversos daqueles parágrafos.
Baekhyun, que já imaginava por onde os planos de Sehun rondavam, nem mesmo questionou quando ele pedira para sair mais cedo. Apenas desejou uma boa sorte em meio a sorrisos, deixando o homem com as bochechas avermelhadas e se sentindo óbvio demais, porém com certo calor de esperança o tomando.
*
Os pais de Luhan não vieram para o casamento. Na época, o convite foi enviado mais por educação e também como um aviso. É claro que, se realmente expressassem desejo de ir e Luhan sentisse a sinceridade e recebesse um pedido de desculpas, ele mandaria as passagens. E perdoaria os pais pelos julgamentos, pelo abandono. Mas ele soube que o convite chegou ao destinatário apenas graças ao serviço de rastreamento do pacote.
Luhan é o tipo de cara que não gosta de deixar sua vulnerabilidade à mostra, aquilo que lhe fazia sentir-se fraco. Ele nunca deixava transparecer o incomodo que lhe causava aquela relação conturbada com a família, mas não conseguiu evitar cair no choro, sem conseguir engolir uma gota de lágrima pra dentro de volta. Foi como se aquela trava que segurava tudo dentro dele tivesse se rompido, deixando escapar todas as lágrimas que guardara por muito tempo. Por horas ele chorou, com a cabeça deitada no peito do futuro marido, o qual tentava consolá-lo.
Mais tarde houve uma ligação, a voz de Luhan ainda estava afetada, os olhos e o nariz inchados. Ele não esperou pelo alô, ou pelo quem é. Ele despejou tudo e decidiu que agora teria apenas uma família: Sehun.
Fora Sehun quem esteve ao seu lado quando reviraram a cidade em busca de um prédio bem localizado, não muito caro e que pudesse ser transformado numa clínica veterinária. Fora Sehun quem o ajudou na limpeza e toda a reforma torturante daquele lugar — quando o corretor disse que só precisava mexer aqui e de uma pintura ali, pareceu perfeito, mas logo entenderam o porquê do preço.
Sehun nunca se deu muito bem com gatinhos, mas naqueles primeiros meses, quando Luhan apareceu com uma caixa cheia deles em casa, porque foram largados na porta da clínica, Sehun até mesmo ajudou a dar mamadeira, ganhando alguns leves arranhões aqui e ali que mais tarde se transformaram num negócio vermelho e inchado, com uma coceira infernal. Com os antialérgicos em dia, Sehun quase tinha dois empregos, saía da editora direto para a clínica e ficava lá ajudando no que era possível ou só passando o tempo à espera do marido, encantado com toda a dedicação que ele tinha com os bichinhos. Ele dizia amar todos os animais igualmente, mas Sehun sabia que ele tinha uma quedinha especial por gatos.
Passou na farmácia para comprar uma caixa daqueles comprimidos mágicos que há tempos não precisava e tomou logo dois antes de seguir para a clínica.
O tempo parecia não ter passado por lá; podia até fingir que fora ontem mesmo que sua carga horária na editora havia aumentado, o impossibilitando de continuar indo para lá depois do trabalho. Tudo no mesmo lugar. No entanto, sentia-se levemente deslocado e de repente muito nervoso de chegar ao escritório de Luhan onde por muitas vezes se trancaram, ou no consultório, que era um lugar sagrado para o marido.
"Sehun?"
Sehun não reconheceu a voz naquele primeiro momento, mas logo sorriu ao notar a mulher ir apressada ao seu encontro com uma expressão animada e um gatinho debaixo do braço. "Quanto tempo menino!"
"Oi, senhora Jun!", Sehun, tão saudoso quanto a mulher, a cumprimentou formalmente. "Eu só vim ver o Lu--"
O rosto de Jun logo se fechou. "Aconteceu alguma coisa? Você nunca mais veio aqui e o Luhan resolveu sair cedo... Ele nunca sai cedo, está tudo bem?"
Jun era a esteticista da clínica, uma das primeiras funcionárias dali. Conhecia as manias do chefe, o amor dele pelo trabalho e o perfeccionismo que ela podia jurar ser o causador de seus cabelos brancos. Mas não sabia nada mais do que isso.
"Está sim, senhora Jun...", Sehun respirou fundo, tentando não parecer frustrado. "Ele é seu?", perguntou do gato que não parecia muito simpático, com as orelhas, uma delas pretinha, viradas para trás enquanto encarava Sehun.
"O Chaplin? Ah, não. Ele é do Luhan. Quer dizer, é tipo um mascote aqui da clínica. Ele foi resgatado já adulto e as pessoas preferem adotar filhotes, então ele foi ficando por aqui até que o Luhan se apegou."
Sehun não disse nada, sentia-se culpado. Luhan teria levado o gato para casa se não fosse por ele.
"Eu acho melhor eu ir andando, senhora Jun. Foi um prazer revê-la."
Eles se despediram e Sehun forçou um sorriso. Esteve tão animado com aquele primeiro passo e acabava de receber um belo tapa na cara por tudo ter dado tão errado.
*
Estava nostálgico demais naqueles últimos dias, era isso. Com certeza. Sentia saudade, tanta e de tudo. Por essa razão aquela cena parecia se repetir diante dos seus olhos, quase da mesma forma que acontecera anos antes. Luhan e Kyungsoo sentados na mesa da cozinha, cheiro de comida caseira sendo preparada e risos ecoando.
Kyungsoo sempre foi genial. O mais perfeito irmão que Sehun poderia ter. Aos olhos do garoto, era a pessoa mais incrível do mundo. Kyungsoo sabia fazer de tudo, desde uma rabanada melhor que a da própria mãe até um curativo sem causar nenhuma dor, como prometera, no corte do dedão do pé de um marmanjo chorão de dezesseis anos.
Kyungsoo era sonhador. Fez Biologia na mesma universidade que Luhan estudou Medicina Veterinária e, como sempre dizia que faria, saiu pelo mundo para trabalhar nas mais diversas pesquisas. Falavam-se no facetime pelo menos uma vez por semana e Kyungsoo sempre tentava estar de volta à Coreia para as festas de final de ano.
O primogênito dos Oh os colocou um na vida do outro.
Naquele dia, Sehun chegou em casa feito um furacão, indo direto para cozinha bisbilhotar as panelas, porque sexta-feira era dia de Kyungsoo vir para casa e sua mãe fazer aquele monte de comida gostosa para compensar a nutrição por pizza do filho mais velho. E aí tinha mais alguém lá além da mãe, da avó e do irmão.
Luhan tinha o cabelo meio comprido na época, com um corte todo repicado parecendo feito em casa. Ele evitava olhar nos olhos das pessoas e tinha um sorriso muito tímido, talvez por estar entre tanta gente diferente, mas encantador.
Sehun nunca tinha se interessado por alguém até então, apesar de sentir a curiosidade que normalmente move um adolescente. Ele nunca tinha sentido aquele bolo esquisito na boca do estômago junto do medo de agir feito um idiota na frente de uma pessoa que ele sequer sabia o nome ou se veria outra vez. E por essas reações que o deixaram meio paralisado no meio da cozinha, pouco ligando para o seu molho de carne favorito, mais tarde ele viria a considerar que Luhan foi para ele tudo o poderia ter sido.
Como todos os seus romances, aqueles dentre páginas de livros, Sehun havia chegado à conclusão de que não era justo desvalidar o amor à primeira vista. Todo mundo, em algum momento da vida, sempre teria essa sensação ao olhar pela primeira vez para alguém. Poderia durar muito tempo, mas também nem dois minutos. E no caso de Sehun, já haviam se passado cinco anos.
Com um tapa na cabeça e um "acorda, Sehun" vindo de Kyungsoo, antes de mais risadas tomarem conta do cômodo, ele apresentou seu melhor amigo ao irmãozinho. Aquele dia ficou para a história. A vovó até narrou toda a cena com troca de olhares, suspiros apaixonados e rostos corados, que talvez só ela tenha visto, no discurso que fez na festa do casamento.
Luhan passou o final de semana com os Oh e Sehun passou o final de semana sentindo coisas estranhas beirando a um nervosismo com um toque de curiosidade. Queria se sentar para conversar com o garoto e enchê-lo de perguntas. Queria saber mais sobre ele. Queria ser amigo dele também. Queria um monte de coisas, mas também se contentava em apenas observar.
"Soo?"
Não soube como reagir naquele primeiro momento. Kyungsoo nunca aparecia assim do nada. Mas logo retribuiu aquele abraço esmagador.
"Não acredito que você ainda continua crescendo! Até onde eu sei, isso só vai até os vinte", Kyungsoo reclamou de brincadeira ao se afastar. Era quase injusto ser tão menor do que o seu irmãozinho mais novo.
"Na verdade, uma pessoa só cresce até os dezoito ou dezenove, e o Sehun parou nessa fase. Depois disso vem a parte em que você começa a encolher de velhice, Kyungsoo", Luhan comentou com um sorriso pequeno no rosto, ainda sentado à mesa, observando a cena dos irmãos. "Você que está menor."
"Ei, você é mais velho do que eu!"
"Ah, mas quando a gente começou a namorar, eu era praticamente da mesma altura que o Luhan", Sehun olhou para o marido com um olhar divertido e provocativo. Com os anos, havia se tornado mais alto que ele também.
"Vocês estão mesmo me chamando de velho?"
Os irmãos riram. Luhan queria fechar a cara e fingir estar bravo, mas acabou rendido às risadas.
"A senhora Jun me ligou. Disse que você foi lá agora... Aconteceu alguma coisa?"
"Não... Eu só saí mais cedo da editora e passei lá pra te ver."
A troca de olhares entre Kyungsoo e Luhan não passou despercebida por Sehun.
"Certo, eu vou ali fora conversar com o meu maninho. Acho que você consegue não deixar o nosso jantar queimar, certo Lu?"
Caminharam pela entrada da casa até estarem na calçada, vagando sem rumo. O lugar era completamente residencial e sempre tinha pessoas passeando com cachorros e crianças andando de bicicleta.
"Então, o que tá pegando?", Kyungsoo soltou.
"Como assim o que tá pegando?"
"Eu estou de férias e decidi adiantar minha volta pra Coreia, porque eu pretendia fazer uma viagem pela América do Sul primeiro..."
"Se você trabalha viajando, qual a graça de viajar de férias?"
"Não ter obrigações?", Kyungsoo deu de ombros com um pequeno riso. "Sehun, eu decidi vir por causa do Luhan. Você sabe que a gente se fala sempre, certo? E que ele me conta bastante coisa, mas não tudo. Então... Ele acabou desabafando um dia desses aí e..."
Droga. A boca de Sehun ficou amarga e a garganta seca. Ele tinha muito medo do que poderia ouvir.
"Ele acha que você quer o divórcio."
"O quê? Claro que não!"
"Sehun, eu cheguei domingo de manhã. E você tinha sumido todo o final de semana, seu celular estava desligado e o Luhan não fazia ideia de onde você poderia estar!"
Sehun riu de como as coisas pareciam loucas agora.
"O que exatamente o Luhan te contou?"
"Nada demais, só que vocês estavam afastados e ele não sabia o porquê. E você, tem algo pra me contar?"
"Eu viajei com a Baekhyun."
"Sua chefe bonitona?"
"Eu sou gay, Kyungsoo. Nasci e vou morrer assim!", Sehun quase riu da surpresa no rosto do irmão ao ouvi-lo falar da amiga, mas estava incrédulo com o tom insinuante na voz do irmão. "Tem um tempo que o Luhan e eu estamos... Numa fase difícil, digamos assim. E estamos… Bem, eu não sei o que fazer. Ele também não parece fazer nada, parece não querer mais nada, cheguei a pensar que ele estava indiferente a nós. E que talvez ele andasse pensando em divórcio... Baekhyun meio que tentou me ajudar, eu precisava desse tempo pra colocar algumas coisas no lugar e eu sei que foi imprudente não ter avisado nem nada, mas... Eu... eu estava puto sem saber o que fazer e ele não estava nem aí!"
"Você sabe, mais do que qualquer outra pessoa, como o Luhan é fechado, certo? E que guarda tudo pra si. A única pessoa com quem ele consegue se abrir de verdade é com você... Ele estava bem mal quando a gente conversou..."
Luhan tinha medo. Essa era a verdade e Sehun a notou semanas depois de terminar com ele pela primeira vez. Na época eles não namoravam exatamente, mas ficavam às escondidas e, até onde ambos entendiam, eram exclusivos. E esse era o ponto para Sehun, porque ele gostava de verdade de Luhan. Ele abriu seu coração e Luhan travou. Então semanas mais tarde, quando o medo de Luhan de se abrir foi superado pelo de perder Sehun, eles se tornaram namorados.
"Mas hyung...", Sehun suspirou cansado. Já não entendia muita coisa dali. Esteve tão focado no seu problema, nos seus conflitos, em encontrar um culpado sempre vendo isso em Luhan, que sequer teve chance de reparar no quanto tudo aquilo afetava o outro também. "Eu quero tentar resolver as coisas, quero resolver."
*
Sehun estava com tanta vergonha de chamar Luhan para sair. Há tanto tempo não faziam algo do tipo, que já não era mais natural. Sabia que Luhan estranharia e tinha medo de uma recusa, ou de qualquer hesitação por parte dele. Mas Kyungsoo disse que era uma boa ideia. Saírem à noite para dar uma volta de forma descompromissada. Nada de jantares formais ou encontros em lugares sofisticados como casais de dramas costumam fazer para impressionar ou se redimir. Eles nunca foram disso. Talvez caminhar pelo parque, sentar em algum lugar na grama para ver as luzes do rio.
Baekhyun achou uma ótima ideia e Sehun achou melhor ainda levar os dois, o irmão e a amiga junto.
"Então você está tentando juntar seu irmão com a sua chefe?", Luhan perguntou suave e despreocupado. Ele tinha os dedos entrelaçados uns aos outros e as mãos juntas em frente ao corpo, enquanto os dois caminhavam lado a lado, logo atrás de Kyungsoo e Baekhyun que pareciam discutir. "Quem você acha que está tirando quem do sério?"
"Baekhyun tirando o Kyungsoo. Ela é bem autoritária."
"E o Kyungsoo tem uma paciência limitada."
"Ele deve ter se irritado e passado a ignorá-la e agora ela está puta da vida com ele."
Riram. Foi natural unirem as mãos quando Kyungsoo e Baekhyun terminaram a conversa que levou àquela discussão, ainda na rua de frente para o parque, e passaram a caminhar calados.
"Como andam as coisas na clínica?", Sehun tentou parecer normal, mas estava quase irritado com todo o receio que o tomava ao fazer uma simples pergunta ao próprio marido. "Eu conheci o Chaplin no dia que passei por lá."
"E sua alergia?"
"Tomei remédio antes. E não peguei nele."
"Você odeia o remédio porque dá sono."
"É. O que aconteceu com ele, com o Chaplin?"
"Hmm", Luhan olhou para os pés, seus passos quase combinando com os de Sehun. "Enquanto umas pessoas tratam os animais até bem demais como se fossem bebês humanos, tem outras bem cruéis que abandonam sem dó. Mas eu não reclamo de quem "humaniza" os bichinhos... Pelo menos estão cuidando e se importam com eles. Eles se apegam muito fácil às pessoas quando elas os tratam bem... E aí elas simplesmente somem... Consegue imaginar o quanto isso deve doer?"
"Vai ficar com ele?"
"Ele já está bem acostumado comigo e não quero que ele passe por isso de novo..."
"Pensa em levá-lo pra casa?", era verdade que Sehun sentia um sono infinito com remédio para alergia. Já chegara a dormir doze horas seguidas e acordar com sono. E precisava estar atento no trabalho, mas podia tentar. "Posso procurar um médico pra tentar encontrar algum remédio sem efeito colateral."
"Eu não sei", Luhan pareceu pensativo. "Tem certeza?"
Sehun deu de ombros.
Às nove da noite, em volta do rio, tinha pouquíssimas pessoas e a maioria se exercitava correndo ou caminhando. Kyungsoo e Baekhyun estavam bem à frente quando Sehun parou Luhan para deixá-los seguirem a sós e embora certamente Luhan pensasse que ele quisesse dar um pouco mais de privacidade àquele possível casal, Sehun queria mesmo era estar com ele.
Sentaram-se ao chão, num dos degraus que desciam para o meio da praça, onde estava um grande vazio. Sehun deitou a cabeça nas pernas de Luhan e esticou as suas próprias, fitando o céu e fingindo não esperar qualquer reação que fosse por parte do marido.
"Você tinha medo de coruja", lembrou. "Já tratou alguma coruja?"
Sehun quase se desmanchou quando sentiu os dedos alheios embrenharem-se em seu cabelo. Seus olhos seguiram diretamente para o rosto de Luhan, encontrando dois pontos de luz dilatados a encarar-lhe.
"Sim, uma vez só, alguns meses atrás. E o seu trabalho?"
Havia curiosidade verdadeira. Não era apenas uma forma de passar o tempo forçando uma conversa, porque não paravam para conversar e às vezes era tudo o que queriam, mas ninguém dava partida.
"Kai está terminando o livro novo e vai publicar usando o próprio nome. É engraçado, porque o nome real dela vai ser meio que o pseudônimo do pseudônimo."
Conversaram um monte de coisas, tirando finalmente um tempo para se fazerem presentes um na vida do outro, tomando ciência de tudo o que deixaram passar. Recordavam entre risos situações engraçadas enquanto falavam aleatoriedades como o café da confeitaria na esquina de casa ou a última ligação da mãe ou da vovó.
Já se passavam das onze quando o celular de Sehun deu sinal de vida, vibrando por uma mensagem de Kyungsoo perguntando onde estavam. Sehun, então, ligou para ele e pediu que pegasse carona com Baekhyun. E Kyungsoo nem podia contestar porque, talvez, aquele fosse um sinal de que Luhan e Sehun tinham se entendido.
Mais tarde naquela noite, quando saiu do banho com os cabelos molhados e apenas com uma toalha amarrada no quadril, Sehun sentou-se na cama e chamou por Luhan, pedindo ajuda com o cabelo. E quando as luzes se apagaram, ele não hesitou em se aninhar às costas do marido.
Saudade. O braço de Luhan enlaçando sua cintura, o rosto dele contra suas costas, a pele quente contra a sua numa manhã fria e preguiçosa tinha gosto de saudade. Sehun ficou quieto na mesma posição de quando dormia, ainda que precisasse levantar logo. Permaneceu de olhos fechados, sentindo o conforto daquele abraço envolver todo o seu corpo. Levou alguns minutos até Luhan se remexer aqui, puxá-lo mais pra perto dali, até se render para se sentar na cama e se ajeitar para sair dela. E Sehun sentiu um calor no peito, como aquele de um sol nascendo numa manhã fria e aos poucos quebrando o gelo com seu calor, no ar nasalado que escapou do marido com um riso atingindo sua nuca. Os lábios dele se encostaram ali brevemente e como se tivesse tomado uma boa dose de coragem saiu da cama num pulo.
*
Luhan era do tipo de cara que preza demais a confiança e que a mínima quebra, pode ser irrecuperável. Com ele não tinha pedido de perdão, porque isso qualquer um pede, fala da boca pra fora sabendo que é o que o outro deseja ouvir. Luhan precisava sentir que a pessoa de fato estava arrependida e em parte era por isso que seu relacionamento com a família nunca mais deu certo. Porque ele sentia o julgamento e a reprovação, ainda que palavras de saudade fossem discursadas. E para Sehun era difícil saber por onde caminhar quando nada do tipo tinha se infiltrado entre eles.
Naquela semana tudo estava diferente. Eles prepararam o café da manhã juntos duas vezes. Sehun foi ver Chaplin e, depois do jantar, caiu como uma pedra na cama. Eles até mesmo se sentaram para ver TV juntos, mesmo que cada um num canto do sofá. Tudo parecia estar no caminho certo. Até mesmo combinaram um jantar entre amigos, ideia de Kyungsoo, que trouxe comida de um restaurante tailandês e Baekhyun vinho e soju.
Sehun não sabia ao certo se os dois estavam se entendendo ou apenas focados no mesmo propósito, mas sentia-se grato por tê-los. Luhan e ele estavam dormindo juntos nos últimos dias, juntos de verdade, com pernas entrelaçadas, e não apenas dividindo a mesma cama. Mas Luhan estava demorando a ir se deitar e por isso Sehun resolveu ir chamá-lo, encontrando-o sentado no sofá apenas com o abajur da sala ligado, o resto da casa todo no escuro.
"Luhan?", ele chamou.
Luhan olhou em sua direção, o rosto quieto, e bateu com a mão no sofá chamando Sehun para se sentar logo ao seu lado. Ficaram os dois olhando o nada à frente.
"Você, em algum momento, chegou a pensar que não daríamos certo? Principalmente nesses últimos anos... Chegou a pensar em nos separarmos?", Luhan perguntou.
"Não", Sehun respondeu direto. "Mas eu tive medo de que isso acabasse acontecendo em algum momento. Ou que fosse o que você queria."
"Você já ouviu falar que o amor até existe, mas só dura no máximo nos três primeiros anos?"
"E você acredita nisso?"
"O tempo destrói tudo."
"Você acredita nisso?", Sehun insistiu.
"Não. Eu ainda amo você, e percebo que até mais do que antes quando paro pra pensar... Mas não consigo entender o que aconteceu, talvez tenha sido o tempo", Luhan desviou sua atenção para o rosto de Sehun, que fez o mesmo, encontrando seus olhos. "O que aconteceu com a gente, Sehun?"
Estava todo mundo dormindo quando, no meio da madrugada de Natal, Luhan e Sehun foram para a rua ver a neve que começava a cair, finalmente. Sehun tinha esperança que ainda no dia vinte e cinco ela surgiria, e por isso não dormiu. E Luhan estava ali apenas porque o encontrou pendurado na janela da sala ao descer para beber água.
Pareciam duas crianças rolando no chão duro coberto pela fina camada branca. Pararam quando cansados, tremendo os dentes, enquanto Sehun falava sobre quando teria neve o suficiente para fazerem bonecos e anjos.
Parecia tão fofo e adorável. Inocente.
Quando viu o irmãozinho de quem tanto Kyungsoo falava pela primeira vez, Luhan ficou incrédulo. Porque na sua cabeça era só um moleque magricela e manhoso, e não um garoto maior do que si próprio e praticamente um homem feito. Mas aos poucos ele foi entendendo Kyungsoo. Porque Sehun tinha aquela aura de menino, a criança que ia tornando-se adulta aos poucos sem deixar para trás a melhor parte da infância. Sehun tinha acessos de risos por coisas bobas, ficava corado facilmente e adorava fazer graça. Contar piadas, fazer brincadeiras.
A cada vez que via Sehun, Luhan sentia um calor pequeno crescer no peito, o leve indício de que algo se desabrochava ali. E naquela noite, no meio de todo aquele frio, acabou por não resistir aos lábios pequenos, agora arroxeados. Num segundo estavam sentados lado a lado nos degraus de entrada da casa dividindo um cobertor, observando tudo em volta tornar-se branco, no outro, tinham a boca encostada uma na outra, os olhos fechados e um calor surgindo dos infernos.
Luhan até pensou em se desculpar pelo impulso, mas não deu tempo, estavam fazendo de novo. Beijaram-se quase até o amanhecer e depois pelos cantos da casa até o fim do feriado.
"Acho que... A gente apenas foi se deixando acomodar."
Seus pais se divorciaram quando Sehun ainda tinha dez anos de idade. Eles nunca pararam para conversar com os filhos a respeito dos reais motivos. Eles não brigavam muito também, o que acabou por deixar tudo ainda mais confuso. Eles apenas se sentaram todos juntos para o jantar e, enquanto Sehun pegava um pouco de arroz, o homem disse que estava indo embora. E depois a conversa que se seguiu foi para explicar sem explicar de verdade que seria melhor assim e a decisão era mútua.
Kyungsoo dormiu no quarto de Sehun naquela noite, e os dois passaram um bom tempo olhando para o teto até que o irmão mais velho concluiu que não deveriam se meter com coisa de adulto. Convencendo o irmãozinho de que tudo ficaria bem.
Sehun nunca soube ao certo o que ocasionou o divórcio dos seus pais, pois para ele sempre pareceu tudo bem. A ideia que se tem é que os pais sempre tem tudo sobre controle, mas eles estão apenas se escondendo o tempo inteiro para não deixar que os filhos vejam suas fraquezas. E Sehun entendia agora que nem sempre o amor é o bastante.
"Cinco anos é muito tempo quando a gente acorda e percebe que passou, mas enquanto vivemos esse tempo, ele não é nada."
Little darling
The smiles returning to the faces
Little darling
It seems like years since it's been here
"Eu te disse hyung, que naquele dia ele deixou bem claro que acha que não funcionamos como um casal."
"Ele não disse isso."
"Não exatamente."
"Por isso que eu não quero me casar, é complicado. E frustrante. O casamento é tão destrutivo que transformou o único casal que eu achava que realmente daria certo pra sempre nisso aí."
"Hyung!"
"E não é, Sehun-ah?"
O café de Sehun permanecia do mesmo jeito de quando a garçonete o trouxe; talvez apenas um pouco mais frio.
"Você... Percebeu algo diferente nos nossos pais antes deles falarem sobre o divórcio? Chegou alguma vez a falar com a mamãe sobre isso?"
"Não. Quer dizer, não exatamente. Não direto ao ponto. Sei tanto quanto você."
O silêncio que surgiu entre os irmãos pensativos não se estendeu por muito tempo, graças à presença de Baekhyun.
"Sobre o que estão conversando com essas caras de enterro?", ela perguntou. "Pensei que estaria animado com seu novo projeto, Sehunnie."
"Eu estou."
"Como você pode ser assim tão sem educação? Onde estão os seus modos?”
“O quê?"
Kyungsoo forçou uma expressão séria, quase indignada. "Chega assim do nada e não cumprimenta devidamente as pessoas. Eu sou mais velho do que você, onde está seu respeito?"
"Por favor! Desde quando você liga pra formalidades, senhor. Você mesmo disse que tinha se desapegado de costumes depois de tanto tempo fora do país!"
A discussão ganhou voz e os dois já nem sabiam mais qual era o contexto de tudo, soltando palavras e assuntos sem conexão com o início daquela conversa como se fossem de extrema importância. Sehun ficou quieto observando, controlando o riso para não chamar atenção, disposto a ver onde aquilo daria, mas em certo momento as vozes foram aumentando, uma tentando se sobressair sobre a outra, e ele teve de intervir.
"Até discordando vocês concordam. Seria um tipo de gato e rato, love-hate interessante de ver acontecer. Vocês deviam se casar."
Como Sehun esperava, dois gritos inicialmente sincronizados foram direcionados a si:
"Eu nunca vou me submeter a um desastre desses!"
"Eu nunca mais cometo esse erro outra vez!”
"Mamãe ia adorar ter a Baekhyun como nora."
"Yah!"
Sehun se encolheu quando recebeu dois pares de olhos raivosos, mas tinha um sorriso divertido no rosto.
"Sobre isso, eu estava pensando em passar o final de semana em Namhae; você devia vir. Você e o Luhan."
"Não acho um bom momento."
"Quando foi a última vez que você foi lá pra passar um tempo?"
"Não sei... Uns dois anos?"
"É isso. A gente vai pra Namhae na sexta-feira. Quem sabe isso não desperta as lembranças dos tempos de bobos apaixonados de vocês?"
Sehun revirou os olhos de forma dramática, dando de ombros, mas a ideia, ele precisava admitir, era boa.
*
Oh Sooji estava aposentada há cinco anos e passava a maior parte do tempo lendo blogs na internet. Foi assim que ela descobriu duas garotas de dezesseis anos grávidas que decidiram não ficar com os bebês. E também leu algumas matérias sobre casais homo afetivos que usaram barriga de aluguel para ter seus filhos. Naquela mesma semana, ela ligou para Sehun chamando-o para passar o domingo em casa, e botou logo as cartas na mesa do almoço.
Sehun sabia que a mãe adorava crianças, lecionou até quando pôde sem reclamar e cuidou dele e do irmão a vida toda. Sooji ainda mantinha os quartos de Kyungsoo e Sehun sempre à espera da visita dos filhos, assim como pretendia que um dia acontecesse o mesmo com os netos nas férias da escola ou feriados. Mas ele não. Quer dizer, não tinha nada contra exatamente as crianças, mas tinha medo da ideia de ser responsável por uma. De ser pai, de cuidar. Não se sentia preparado, apesar dos seus vinte e sete anos, e não se tratava daquela frequente ideia de se sentir incapaz quanto a qualquer novidade que ouse a surgir na vida nem que seja por pensamento, era quase uma certeza latente que não, era melhor não.
Luhan nunca tinha expressado nenhuma vontade de ser pai, também, apesar de ser o único a responder as ideias malucas da sogra ouvindo-a com certo interesse que Sehun sabia não ser disfarce. Já Sehun travava mesmo.
"Esse quarto parece menor a cada vez que eu venho aqui", Kyungsoo comentou, dando uma breve olhada em volta, enquanto se sentava na cama de Sehun.
"Cadê o Lu?"
"Com a mamãe, a ouvindo falar alguma coisa sobre ovular e mães que geram seus netos."
Sehun correu quarto afora resmungando enquanto Kyungsoo segurava o riso, a avó interior da senhora Oh não era com quem ele queria lidar naquele momento.
Luhan estava sentado na mesa enquanto a mulher mexia em algo na dispensa. Sehun pigarreou para denotar sua presença, interrompendo o assunto, quer ele qual fosse, mesmo com a possibilidade de levar um tapa na cabeça pela falta de educação. No entanto a mulher parecia de muito bom humor, talvez pela presença dos filhos juntos em casa para o final de semana. Talvez por Luhan ter atendido ao seu pedido de pesquisar um pouco mais sobre as hipóteses que ela havia lhe dado.
"Sehun-ah, estou fazendo chocolate. Lembra de quando, depois do jantar, eu e sua avó tomávamos café e você e o Soo chocolate quente?", ela perguntou com a voz sorridente.
"E quando o Luhan ficou para o jantar pela primeira vez, ele tomou café com vocês, mesmo depois de você ter oferecido o chocolate..."
"Mas aí certo dia, alguém insistiu pra eu não tomar café e virou um hábito ficar sentado na escadinha tomando chocolate", o sorriso no rosto de Luhan era bem pequeno, a sobrancelha esquerda erguida enquanto fitava Sehun.
Tanto tempo buscando ajuda da cafeína para se manter em pé durante as aulas acabou fazendo Luhan tomar gosto pela bebida, mas, na época, Sehun não conseguia entender como alguém conseguia apreciar o sabor daquilo. E deu até um ultimato, Luhan estava proibido de beijá-lo depois de ter tomado café.
As bochechas de Sehun esquentaram.
"Olha só pra vocês dois, ainda agem como se estivessem no primeiro ano de namoro!", Sooji comentou animada fazendo ambos desviarem seus olhos um do outro. Ela colocou duas canecas de chocolate sobre a mesa e uma na bandeja que tinha separado. "Kyungsoo deve estar revirando as caixas de livros antigos dele. Tive que guardar, porque na estante acumula muito pó."
Quando se retirou da cozinha, ainda pôde ser ouvida reclamando que se Kyungsoo tirasse os livros das caixas para devolver à estante, teria que vir limpar toda semana.
Sehun pegou as duas canecas com chocolate e caminhou para frente da casa, onde se sentou no primeiro degrau da escadinha da varanda de entrada esperando por Luhan. Seu coração estava ansioso, esperando o outro vir a seu encontro e as batidas perderam o ritmo com o ranger da porta.
"Do que ela estava falando?", se forçou a perguntar. Era quase ridículo que estivesse se comportando como um adolescente escravo de sua primeira paixonite perto do próprio marido.
Luhan sentou-se bem do lado. Tinha espaço para que ficassem alguns bons palmos separados, mas as laterais dos corpos se encostavam.
"Sobre uma irmandade de avós que são mães de aluguel dos netos", a voz saiu com ar de riso.
"O quê?"
"Na verdade é só um grupo no Facebook onde essas avós trocam experiências, tiram dúvidas e essas coisas."
Sehun não sabia como lidar com essa informação; apenas bebeu seu chocolate. Ainda preferia chocolate a café, no entanto, depois de certa idade, a cafeína era mais uma necessidade fisiológica do que qualquer outra coisa.
"Eu também não acho uma boa ideia, apesar de não saber como dizer a ela", Luhan comentou. "Quer dizer, é estranho. Pra mim é estranho."
"É exatamente isso: estranho."
Foi estranho, também, deitar tão juntinho um do outro naquela cama estreita. Mas foi bom se lembrar da noite em que Luhan fugiu do quarto de Kyungsoo pela primeira vez para passar a noite com Sehun.
*
Sehun levantou bem cedo. Queria pegar apenas a mãe acordada para uma conversa antes que a avó chegasse. Ele desceu até a cozinha, colocou água para o café no fogo e o arroz para cozinhar. Quando a mulher apareceu, finalmente, acabou surpresa por encontrar o filho, afinal Sehun era sempre o último a acordar.
"A senhora já foi mais matinal", ele resmungou.
"Eu sou aposentada e meus filhos estão criados, vou acordar cedo pra quê?", ela riu.
Era certo que entrar naquele assunto levantaria muitas hipóteses, principalmente pelo fato de Sehun ter desencanado ainda criança quando Kyungsoo explicou do seu jeito o porquê de o pai estar indo embora, mas Sehun decidiu que era o que precisava. E por isso perguntou, de forma clara e direta, qual tinha sido o real motivo da separação de seus pais. Por que ele foi embora tão abruptamente e nunca mais voltou? Por que mandava cartões e presentes, os levava para passear uma vez ou outra, mas ainda sim parecia ter se desprendido totalmente da família?
Sehun queria que tivesse acontecido uma traição, talvez algo com o dinheiro que os tivesse feito perder a confiança um no outro; dinheiro sempre estraga tudo. Queria mesmo ouvir qualquer outra coisa, mesmo absurda, que não fosse o que viria seguido de sua pergunta.
"Seu pai nunca teve outra mulher, sequer casou de novo. Nem eu. A gente também nunca chegou a discutir, a brigar, e por isso você nunca desconfiou de nada. Nossa relação foi muito boa enquanto éramos adolescentes. Ela mudou enquanto estávamos na faculdade, mas estávamos ocupados demais pra nos dar conta. E aí a gente se casou, porque parecia o certo depois de tanto tempo de relacionamento. Então veio o trabalho, depois vocês que até mesmo foram uma luz na monotonia que havia se instalado, mas... Já estava tudo desencaminhado. Seu pai recebeu a proposta de trabalho na Universidade de Hokaido e decidimos a separação."
"Nunca contamos pra vocês por medo de não entenderem ou até se culparem, não queríamos que os nossos problemas interferissem na vida de vocês. Mas ele sempre manteve contato pra saber de vocês, e sempre que vinha do Japão passava direto aqui pra buscá-lo."
"Mas não veio no meu casamento."
"E ele não te ama menos por isso, só que pra ele é mais difícil entender, aceitar."
"Você ainda sente alguma coisa por ele?"
"Carinho. Tivemos uma vida juntos, e vocês. Não foi falta de amor, Sehun. Nós nos amávamos e muito. Só que a gente deixou isso se perder, deixou a vida nos afastar enquanto ela acontecia. Até que chegamos a um ponto muito distante pra sequer tentar encontrar o caminho de volta."
"Eu sinto muito."
"Já passou. Mas... Tem alguma coisa que queira me contar? Talvez sobre você e o Luhan?"
"Nada que eu não possa resolver", Sehun sorriu. "E mãe, sendo sincero, nós ainda não pensamos em ter filhos. Pode deixar que quando conversarmos melhor sobre o assunto, a gente te avisa. Deveria dar umas dicas ao hyung também. Ele é o mais velho e ele que deveria ser pai primeiro."
*
Graças ao novo projeto do livro de Kai, Sehun não teve muito tempo naquela semana. As horas passavam com ele entre páginas, marcações em tinta vermelha e conversas com Jongin. Quando se dava conta, não tinha mais tempo para ir à clínica de Luhan, de preparar ou comprar o jantar ou simplesmente passar algum tempo com o marido antes de ambos irem dormir.
Mandava uma mensagem ou outra no meio do dia, as quais recebia emojis junto das respostas — coisa que era bem engraçada, considerando que Luhan costumava decretar ódio às carinhas amarelas irritantes — e às vezes ligava. Percebera certa mudança desde aquela última conversa que mais parecera um ultimato. Uma mudança em Luhan, em seu olhar e em suas ações, que avisavam Sehun da sintonia de ambos, que não só ele estava disposto a correr atrás.
Sehun estava deitado no sofá que tinha em sua sala, descansando enquanto Jongin tinha saído para comer, quando Baekhyun entrou. Ela perguntou da escritora, e do trabalho. E então disse que tinha alguém esperando por Sehun.
"É o seu marido", ela sorriu parecendo muito satisfeita. "Pode ir, a gente começa mais cedo na segunda."
"Mas a--"
"Vai logo, Sehun!"
Já se passavam das oito horas, quase nove, e Sehun estava de pé apenas com aquele café amargo que a vida o havia ensinado a suportar. Encontrou Luhan na sala de convivência, que era bem como uma sala de estar qualquer, sentado no sofá confortavelmente enquanto folheava um livro tirado da pilha sobre a mesa.
"Oi", ele falou meio sem jeito, as mãos nos bolsos e os olhos incapazes de esconder a ansiedade.
Luhan rapidamente se levantou e deixou o livro de lado, no lugar de onde havia tirado.
"Oi. Desculpa não ter avisado que vinha... Você já pode sair? Podemos ir comer alguma coisa..."
*
Sehun gostava de comida de rua, de se sentar para beber e comer nas barraquinhas espalhadas pelo centro da cidade. Mas era algo que não fazia desde a época da faculdade, quando saía da biblioteca junto de Luhan que vinha buscá-lo. Sempre paravam pelas barracas de comida e, principalmente nos finais de semana, caminhavam pelas calçadas de Hongdae.
Chegaram em casa pouco depois da meia-noite. O passeio fora agradável e Sehun sentiu seu corpo se arrepiar diversas vezes quando Luhan naturalmente se aproximava para repousar uma mão em suas costas guiando o caminho, segurava seu pulso ou até mesmo enlaçava sua cintura com o braço. Seu corpo não sentia tanta saudade de Luhan enquanto eles viviam aquela rotina desgastada, porém a partir do momento em que passaram a agir contra aquela corrente, Sehun sentia cada centímetro de pele reagir.
Luhan ficou de guardar o carro de Sehun, o qual viera dirigindo e Sehun respirou fundo ao se atirar no sofá. Um tanto quanto frustrado.
Em algum momento no meio daquele conflito, ele sentiu raiva de Luhan. Parecia tão mais fácil culpá-lo por não ter impedido que ambos se afastassem do que aceitar que simplesmente aconteceu e os dois tinham sua cota de responsabilidade. Ele xingou Luhan muitas vezes, ainda que sozinho no carro a caminho do trabalho, não conseguindo entender o que estava acontecendo. Sentiu-se rejeitado e acreditou que não existia mais amor naquela relação estacionada no indiferente. Eles deviam estar vivendo o ‘felizes para sempre’ do final dos contos de fadas, quando tudo se resolve e estabiliza, mas, na vida real, a história só continua, ganhando desde novas linhas a novas personagens.
Seu momento frustrado, onde esfregava as mãos com certa fúria contra os cabelos, foi interrompido por Luhan ao entrar em casa.
"Seu cabelo cresceu. Eu odiei quando você deixou curto daquele jeito."
Sehun estava todo descabelado.
O tilintar das chaves ecoou pelo cômodo quieto quando Luhan as deixou de lado no aparador. Ele foi até Sehun, se sentou bem ao lado dele, e terminou a bagunça com uma mão só deslizando pelo cabelo dele. Sehun quase ronronou feito um gatinho carente ao sentir os dedos do marido contra sua cabeça, e não pôde evitar fechar os olhos.
Existem momentos que você, por mais que tente, não consegue alinhar os acontecimentos em sequência. Eles se gravam por sensações, o sentimento de calor no peito pela lembrança de cada cena espalhada como um quebra-cabeça. Esse era um momento assim para Sehun, porque ele se lembrava dos beijos que ocorreram, das mãos quentes contra o seu corpo, do toque suave e macio do encontro de pele. Estava gravado também o som das respirações ofegantes, dos grunhidos e soluços contidos. Mas, ao acordar na cama pela manhã sem roupa alguma no corpo e os lençóis todos no chão, não sabia dizer quando começou e quando terminou.
Sentou-se meio desajeitado, cada canto de seu corpo ainda reagindo, e de repente doeu, doeu mais que em qualquer outro momento. Doeu de saudade, doeu de medo. O receio lhe acometendo tão drasticamente, a insegurança tomando seus anseios. Sehun nunca soube exatamente quando aquela relação começou, podia ser na primeira vez que colocou os olhos em Luhan, no primeiro beijo roubado ou naquele pedido desajeitado de namoro, mas talvez ela estivesse fadada a um fim que ficaria marcado a ferro quente em seu peito.
"Você acor--", Luhan notou logo da porta as lágrimas grossas correndo no rosto de Sehun, ainda que ele estivesse de cabeça baixa, num choro silencioso. A bandeja com o café da manhã foi deixada de lado, antes que ele se sentasse em frente ao marido com o rosto assustado e preocupado. "Sehun..."
"Você... Ainda se casaria comigo se tivesse a chance de voltar no tempo? Se tivesse a chance de fazer tudo diferente, já conhecendo o nosso futuro?", o esforço que ele fazia para que cada palavra dita naquela frase corrida saísse coerente, era descomunal.
"Por que você está perguntando isso?"
Sehun não soube responder, subitamente aquela era sua maior dúvida.
Doeu em Luhan também. Doeu no medo de perder Sehun para sempre. De aquela relação que antes se esticava forçadamente tivesse seu fim definitivo. Ele ouviu a conversa do marido com sua sogra e foi quase desesperador saber que tudo dependia dele. Apenas dele e de Sehun. Porque isso mostrava o quão culpados eram. Ele arrastou-se pela cama até estar perto o bastante para deitar o corpo de Sehun sobre o seu num abraço, ainda sentindo o corpo dele se remexer conforme as lágrimas corriam, o choro tornando-se audível.
Sentia-se culpado por não manter aquela promessa de fazer Sehun feliz para sempre, de cuidar e amá-lo, proteger seu coração, mas não pôde evitar quando tudo começou a ficar para depois, e então para amanhã e posteriormente para algum dia, quem sabe. Luhan queria se ver daqui algum tempo, sentado na varanda daquela casa numa cadeira de balanço lendo um livro, talvez um livro de Sehun dedicado a ele, sabendo que ao entrar pela porta da casa encontraria o marido roncando no sofá enquanto um drama, àquela altura, antigo, rodasse na televisão. Queria ser capaz de estender a família deles como a sogra tanto desejava. Queria, ainda mais que tudo, deitar a cabeça no travesseiro à noite e dormir tranquilo, sem nenhuma inquietação perturbando seu sono.
Fora horrível perceber que a intimidade natural que tinham havia se tornado algo receoso, hesitante das duas partes. E naquele momento Luhan entendeu o que queria e precisava de verdade, mais do que tudo. Precisava de Sehun, de Sehun feliz e era capaz de tudo por isso. Era seu maior desejo e lutaria para que nunca se deixassem cair daquela forma outra vez.
Sehun sabia que o final feliz não existia, mas que poderiam tentar a felicidade um dia por vez. E foi com essa nova promessa que eles seguiram, compartilhando todos os momentos, desde sorrisos a inseguranças das quais nasciam pequenas inscrições, um com outro e até mesmo fazendo terapia juntos. Porque eles ainda tinham um longo caminho pela frente e, eventualmente, alguém acabaria por cair naquele poço outra vez, e só encontraria a saída se o outro continuasse lá em cima, segurando na outra ponta da corda, pronto para puxá-la.
Little darling
I feel that ice is slowly melting
Little darling
It seems like years since it's been clear
Alguns anos mais tarde...
Baekhyun se tornava cada vez mais insuportável conforme a barriga crescia e ainda que estivesse trancado em sua sala, Sehun podia ouvi-la aos berros com os estagiários. Mesmo de licença médica, insistia em passar despretensiosamente pela editora, agora sob-responsabilidade de Sehun.
Sehun colocou fones nos ouvidos, a fim de se concentrar e terminar seu trabalho para tentar ir mais cedo pra casa, e mandou uma mensagem para Kyungsoo pedindo que, por favor, o socorresse de uma grávida histérica. Tinha medo que a bolsa dela estourasse a qualquer momento no meio de um daqueles gritos.
Quando chegou em casa, naquela tarde, encontrou Luhan deitado no sofá com Chaplin embolado aos seus pés e riu. Sehun quem o havia trazido para casa, numa surpresa a Luhan, e no final, o gato parecia mais apegado a si que ao próprio dono, pois por mais que o evitasse, Chaplin estava sempre o seguindo.
Ele se desfez do casaco, da camisa e do cinto para ficar mais à vontade e se juntar àquele ninho de pernas e patas, mas Luhan logo acordou ao sentir o corpo dele se aconchegar sobre o seu. Ainda de olhos fechados, ele se pôs a beijar onde quer que seus lábios alcançassem na pele de Sehun e logo o gato pulou fora com um resmungo.
Os dois riram e depois dormiram ali mesmo, ignorando a dor nas costas e em cada articulação do corpo que sentiriam ao acordar.















