Foi quando os Flint começaram a faltar nas festas que tudo mudou. Como uma boa família rica, aproveitavam cada momento para expor seus bens e seus poderes, humilhando aqueles ao seu redor. Algumas vezes transmitiam o discurso purista tão conhecido e amado pela antiga família bruxa. Mas já se faziam meses desde que eles não saiam de casa.
Os comentários começavam a surgir. Teriam ficado pobres? Alguém teria morrido? Eles planejavam alguma coisa? Mas a verdade era muito mais simples, honesta e feliz do que tudo que a população estava pensando. O nascimento de um bebe era esperado.
Violet sempre quis ser mãe. Havia sonhado com a sensação de ter um filho em seu ventre desde muito nova, desde que aprendeu que possuía a capacidade de gerar vida. Ela pensava antes e agora que a gestação era uma das mais belas formas de magia. Acreditava que se casaria por amor, sendo feliz com aquele que a amasse o suficiente para começar uma família. Passou a vida toda buscando o amor em lugares que ele não existia, resistindo as dores de ver seu parceiro se tornar alguém cruel e violento. Quando engravidou, estava sozinha, mas apaixonada. James Richard Flint a encantou desde o dia que ela o viu entrando em um baile da alta sociedade. Com suas vestes negras e o cabelo loiro destacando-se, ela sentiu seu coração vacilar. Mais tarde naquela mesma festa, foi anunciado o casamento dele com sua irma Amélia. Anos se passaram e seu sentimento só aumentou. Ele era incrível, era inteligente, um bruxo muito poderoso, era muito rico e havia trazido prestigio para a família Yaxley. Apesar de ter esperanças, nunca achou que seus sentimentos seriam correspondidos.
Em uma tarde de fevereiro Jamie apareceu em sua loja. Ele parecia perdido, pois pouco compreendia de plantas magicas. Sua qualidade era para negócios e foi isso que ela acreditou que ele foi fazer lá. Ajuda-la a expandir seu comercio. Apesar da conversa começar com tal assunto, não demorou muito para que ela se visse beijando a boca quente do cunhado. James a segurava pela cintura forte, a puxando cada vez mais para perto com confiança e foi retirando sua roupa facilmente. Violet não recusou nenhuma vez. A sensação de o ter para si foi uma das melhores em sua vida. Quando ele se levantou e foi embora, ela estava anestesiada ao mesmo tempo em que sentia a culpa caindo sobre seus ombros. Eles se encontraram muitas vezes mais naquele mes e em todas elas Flint dizia que a amava. Afirmava que Amélia era seca, muito grossa, não a queria mais, eles iriam se separar. Violet como toda mulher apaixonada acreditava.
Todas às vezes eram como a primeira. As mãos dele em suas pernas, o corpo dele em cima do dela e sua boca beijando delicadamente seu pescoço. Tudo estava perfeito, ninguém desconfiava e ela poderia reviver aquilo todos os dias. Quando notou sua gravidez tudo ruiu. A parteira da família Yaxley confirmou a gestação e Violet só conseguia pensar que nunca quis ter um filho sendo amante de alguém. James se transformou, se afastou dela e nem ao menos a olhava nos encontros entre as duas famílias. Após algum tempo, não foi possível mais esconder a gravidez e tomada pela fúria do abandono, Violet contou a todos sobre o caso. Os Yaxley se afastaram, mantendo-se distante de toda a confusão, mas os Flint deveriam lidar com o nascimento do bebe que levaria seu nome. Ela insistia para que a criança fosse reconhecida.
Graças ao medo de serem expostos para toda a sociedade bruxa, a matriarca dos Flint passou a tomar conta da situação. Tudo foi arranjado por ela, desde um quarto para Violet até a parteira. Em um primeiro momento a garota ficou aliviada pelo apoio daquela que seria a neta de seu filho e agradeceu mais de uma vez pela compreensão. Ela nunca saberia que seria enganada.
Meredith Flint não era uma mulher que deixaria sua reputação ruir pelo erro de um filho. Ela havia lutado muito para que a família tivesse um nome bom na Escócia, para que fossem aceitos pelos bruxos de lá e era ela a responsável por todos aqueles que tinham como sobrenome Flint. Tomou conta para que a situação não saísse das paredes da mansão e com a desculpa de cuidados, prendeu Violet no quarto. Mandou dizer na cidade que a jovem havia ido fazer uma de suas varias excursões para a Ásia à procura de novas plantas para a loja e Amélia, sabendo de todo o plano, concordava.
Em setembro, Violet deu a luz a uma menina pequena com a pele rosada e os cabelos loiros do pai. Segurou a cria nos braços como se fosse sua posse mais preciosa. Naquele momento não ligava para nada do que falavam ou falariam. Sua filha era sua, era sua família. A chamaria de Brianna. Entretanto, aquela foi uma das poucas vezes que pode sentir o corpo pequenino de sua criança. Brianna sumiu, morreu alguns dias depois. Tomada pelo luto, Violet não questionou os motivos e se afundou na tristeza por meses.
Meredith sorria a suposta morte da neta. Havia encarregado que Jeny, a parteira, roubasse a criança e colocasse em um orfanato trouxa chamado Smyllum Park, escondendo a garota da sociedade bruxa para sempre.
No orfanato, Brianna cresceu sem nome e sem família. Graças aos cabelos loiros e os olhos verdes, foi nomeada de Aurora pelas freiras que cuidavam dela. Nunca soube sua verdadeira identidade, sentindo-se deslocada e abandonada desde seus primeiros anos de vida. Mesmo após ser adotada pela família Miller, que respeitaram a menina e mantiveram seu nome como Aurora, nunca se sentiu parte deles de verdade. Sabia que eles não eram seus verdadeiros pais e mantinha dentro de si a vontade de encontrar sua mãe, de saber mais sobre o motivo de ser tão indesejada a ponto de ser expulsa de seu lar.
Os Miller se mudaram para Inglaterra bem a tempo de Aurora demonstrar seus primeiros sinais de magia, surpreendendo a todos. Foi a partir do sangue magico em suas veias que a garota se sentiu pela primeira vez em contato com sua família biológica, pois sabia que algum antepassado deveria ter os mesmos dons que os seus. Ela não saberia, mas seria essa magica que viria a acabar com os planos de Meredith de deixá-la em segredo.