você é a muleta da minha perna doente que arrasto pela avenida paulista dia e noite e não me canso. te carrego comigo como um órgão que o meu organismo rejeitou e acabou causando infecção em todo o meu corpo. você é a ferida que dói e não sara, mas não me submeto a tomar nenhum remédio que me faça te curar de mim. você é todas as drogas que eu injeto no meu sangue que me fazem parar no sus todos as sextas. você é o meu coma alcóolico nos sábados, resultado do excesso da minha bebida favorita. o meu amor é um masoquismo doentio e as formas que você encontra de me atormentar são sádicas. vivemos com os nossos distúrbios mentais e não vou te culpar por nossa autodestruição, visto que me submeti a uma tragédia sentimental assim que pus os olhos em você. seria uma história de amor bonita se não fosse trágica e não tivesse acabado em infelizes para sempre. a minha dor leva o teu nome e todos os pesos que você pôs nas minhas costas fez com que os meus ossos se quebrassem. eles não são de vidro, mas o meu psicológico sim. feito pétalas de dentes-de-leão que vi o vento soprá-las ao chão. a minha fragilidade dá pena e tudo o que me toca me faz se desmanchar como um castelo de areia. todos os hematomas que você me trouxe ainda resistem na minha pele, roxa. o seu plano diabólico de me quebrantar foi bem sucedido e até então escuto os fantasmas rondearem a minha casa mental, me culpando pelo fim que você arquitetou. as luzes que ainda entram pelas frestas da janela me queimam como se eu tocasse a superfície solar, porque toda minha esperança é infantil e ingênua. misturamos nossos frascos de venenos e fomos responsáveis por nossa morte. ainda não decidi se isso é bom ou ruim. mas sei que se houvesse a possibilidade, escolheria nunca ter te conhecido.