53 dias de UTI NEO
*53 DIAS DE UTI NEO - PARTE I*
Uma mulher chega com as suas malas para fazer uma cesariana eletiva, ela não está em trabalho de parto. Outra chega em trabalho de parto prematuro, com 9 cm, o bebê descendo no canal e no seu auge da dor.
Uma cesariana acontece, com conversas distraídas entre os profissionais de saúde e o fotógrato que cobre o parto. Uma cesariana de urgência acontece com tensão, e exige uma concentração máxima dos profissionais de saúde
"Cadê a paciente da 103? É hora da medicação". Ela não está. "Cadê a paciente da 103? A médica quer falar com ela". Ela não está. "Cadê a paciente da 103? É hora da refeição". Ela não está. "Cadê a paciente da 103? ela está de alta". A paciente da 103, aquela que fez a sua 3° cesariana e que não descansa, é mãe de UTI Neo.
Um pai recebe a notícia da alta do seu bebê. Ele faz uma expressão de alívio. Um pai entra pela primeira vez na UTI NEO, com aquelas roupas laranjas. Ele parece perdido.
Ela recebe o boletim médico e eles não dão esperança nenhuma. Ela recebe o boletim médico, e eles falam que ela está evoluindo muito bem. Ela recebe o boletim médico, e questiona e discute. Ela recebe o boletim médico e concorda com tudo. Ela recebe o boletim médico e fica calada. Todo dia é dia de agradecer porque cada momento permitido é uma benção nessa montanha russa.
Ela tira leite no meio de mães que estão serenas e rindo. Seus bebês estão fora de risco! Ela tira leite no meio de mães que estão tristes porque seus bebês não estão bem. Intercorrências, intercorrências. Ela tira leite no meio de mães de 1° viagem que estão preocupadas com a quantidade de leite. É apenas o colostro… Ela tira leite no meio de mães que estão preocupadas porque o leite realmente está secando.
Ela anda pelo correndo da UTI adulto, que está vazio, e fica arrepiada. Anda sozinha pelos corredores escuros da maternidade, de madrugada, e não vê ninguém. Não tem tempo para imaginação fértil.
Uma mãe chora na recepção, ao dar entrada na internação, porque ela está tendo um aborto. Um casal chora porque a cesariana trará seu filho natimorto. Um casal chora ao receber a notícia da partida do seu filho na UTI NEO.
Uma mãe anda pelo corredor, de um lado para o outro, com um terço na mão. Seu filho está em cirúrgia. Uma mãe se joga no chão porque seu filho está parando. As outras mães oram pelo bebê dela. Uma pastora entra para orar por um bebê, que está muito mal. Duas avós entram na UTI NEO e oram juntas, com a mão em cima da incubadora. Um casal ora pela filha que está tendo uma intercorrência grave.
Uma senhora pergunta se ela é venezuelana e o que faz ali. Uma mãe da UTI NEO pergunta se ela é filha de índia. Uma médica chefe pergunta se ela tem 17 anos. Ela é: a mãe de 26 anos, parense, a que teve duas gestações naturais após a laqueadura e a "cão de guarda' de uma bebê na UTI NEO.
Uma noite o sono é tranquilo. Outra noite é difícil dormir, mesmo com o cansaço. Em todas o celular fica perto do ouvido.
Uma profissional de saúde reclama sobre um bebê do plantão dela. Ele é um paciente grave e dá muito trabalho. A mãe do bebê ouve, sem querer. Uma profissional de saúde ora pelo bebê e a chama de "filha" carinhosamente. Para uns, eles são números. Para outros, o olhar humanizado é o diferencial. A linha é tênue entre se apegar emocionalmente com o paciente grave (e sofrer) e dar um tratamento humanizado?
Um pai passa o dia inteiro revezando entre UTI NEO e UTI ADULTO, vendo sua filha e sua mulher. Um pai fica em casa, cuidando dos filhos maiores e dando a preferência de visita para mãe. Um casal de 1° viagem passa 24 horas dentro da maternidade, para ficar perto do filho. Uma mãe solo enfrenta a carga de estar em uma UTI NEO, sozinha.
Ela vê um casal bem jovem, pais de 1° viagem, e lembra da época do seu primeiro parto aos 20 anos. Ela vê um casal na beira dos 40 anos, parecendo um casal de adolescente. Será assim?
Dieta evoluindo muito bem, respiração em ar ambiente, fotos, boletim médico descontraído, canguru, sem infecção, ganho de peso, sem remédios na veia e sorrisos. Dieta zero, ventilação mecânica em 100% FIO°, sedação, infecção, manipulação zero, queda de saturação, transfusão sanguinea e muitos remédios para o corpo funcionar.
Ela mora a 16 km da maternidade e é complicado. Há mães que moram tão longe que tem que largar tudo (filhos, casa, marido, etc), para viver a rotina da UTI NEO. Sozinhas, em uma cidade desconhecidas, por muito tempo e com saudade da família.
Um pai, que está no seu 5° dia de UTI NEO, reclama por não aguentar mais esperar sua filha ganhar peso. Uma mãe diz que prefere não contar mais os dias, e que seria muito feliz se o problema do seu filho fosse apenas a má formação nos braços.
Um pai tenta levar a filha internada, sem autorização. Confusão instalada. O surto momentâneo é errado, mas ela entende. Às vezes, só às vezes, surge vontade de arrancar todos aqueles fios e sair correndo. Um instinto de proteção irracional grita, dentro dos pais, contra todo aquele mal necessário.
Ela sai da sala de UTI NEO e vai orar. Ela sai da sala de UTI NEO e fica conversando com os funcionários. Eles torcem muito por eles. Ela sai da sala de UTI NEO e tenta estudar para a prova do concurso que está perto. Ela sai da sala de UTI NEO para tomar café com as amizades que eu fez, mães da UTI NEO. Ela sai da sala da UTI NEO e se escondo em algum lugar da maternidade, para ficar sozinha. Ela precisa ficar com os seus próprios pensamentos. Ela sai da sala da UTI NEO para conversar com uma mãe que precisa de consolo. Ela sai da sala da UTI NEO para pesquisar sobre os procedimentos feitos e sobre os que serão realizados. Ela sai da sala da UTI NEO obrigada, pois há uma intercorrência com um bebê. "É o meu bebê?", alguns pais a cercam desesperados.
Uma bebê, em estado gravíssimo, é batizada. Muitos profissionais de saúde se reúnem em volta da incubadora, em silêncio e perto dos pais. A mãe diz, baixinho: "tudo bem, princesinha, você pode ir" As duas neonatologistas, mais antigas do lugar, se emocionam. Ela pede para carregá-la, exatamente como ela muito quis durante 53 dias: sem sondas, sem tubo, sem PICC e sem aparelhos medindo os sinais vitais.
Uma família está reunida em oração por uma parturiente, que está em estado gravíssimo na UTI ADULTO. Outra família também está em oração por uma bebê, que está em estado gravíssimo na UTI NEO. Ambas famílias estão na recepção, uma oração é atendida. A bebê parte e a parturiente fica. Cada história é uma história.
Adeus, Ana, filha amada e querida…












