Aquele mal secreto que a consumia e com o qual os médicos não se importavam muito - sem dúvida por não saberem dar-lhe um nome - parecia a Pascal uma espécie de desencarnação; nem todas as doenças vêm do corpo; uma alma por demais ardente pode usar seu invólucro carnal até aniquilá-lo; mas - infelizmente - nesse esforço para se depurar, não arruinaria a si própria? Naquele momento extremo em que o espírito se libera afinal, não se desvanecerá para sempre? Talvez fique suspenso, durante um breve clarão, numa lucidez absoluta. Como ocorria todas as vezes em que pensava na morte, Pascal sentiu-se acometido por uma vertigem. Suas considerações o levavam com frequência a esse tema, mas só conseguia considerá-lo por alguns segundos.
Simone de Beauvoir - Quando o Espiritual Domina (La Primauté du Spirituel); cap. IV, Anne; pág. 169.












