O último azul
Ontem saí do cinema, tomado por mil pensamentos desordenados. O filme O Último Azul, que vem emocionando as plateias por onde passa, sem dúvida é um desses filmes lindos que guardo na minha caixinha de boas memórias.
A arte tem esse dom de emocionar e, especificamente, o audiovisual tem o dom de nos emprestar uma espécie de olho mágico e nos permitir olhar outras realidades. Eu já viajei para a Amazônia, mas ser espectador de Tereza me levou a um Brasil profundo, o qual muitas vezes não conseguimos acessar.
Além disso, Tereza, uma mulher de 77 anos, cheia de vida, é obrigada a retirar-se da sociedade, pois, naquela distopia, o velho atrapalha a produtividade da nação.
Penso comigo quantas vezes a gente, quando jovem, engrossa a massa com frases que valem somente para o outro. Mas, e quando chega a nossa vez?
Estou a menos de três meses de completar 50 anos, e muito do que antes eu tinha como certo e verdadeiro agora passa a ser reavaliado.
Meu terapeuta, há uns 10 anos, me apresentou um texto que comparava a vida a uma bacia de jabuticabas: no início da vida, vamos comendo-as de maneira displicente, e isso muda conforme a bacia vai ficando mais vazia. Esse texto nunca saiu da minha cabeça e vai, cada vez mais, fazendo sentido.
Vi o filme como uma criança, ainda com o HD novinho em folha, absorvendo cada frase, cada imagem e cada símbolo.
Vale a pena ver o filme com a mente de uma pessoa madura e o coração de uma criança.
A presença constante das águas no filme nos convida a mergulhar para dentro de nós mesmos. É preciso muito mais do que coragem para embarcar numa jornada que é só nossa. Muitos tentam terceirizar o próprio viver, mas somente você é o responsável por ele.
Sem dar spoilers, você, se for atento, lembrará destas palavras quando ver o filme: ouse sair da gaiola, ouse apostar todas as fichas, ouse ser o timoneiro do seu barco nas águas do seu processo de individuação.
Também recomendo o filme Uma Bela Vida (Le Dernier souffle), do diretor Costa-Gavras. Um filósofo e um médico de cuidados paliativos, visitam pacientes terminais em uma clínica e com eles aprendem o que mais importa para uma vida. "A morte precisa ser vivida".








