Naquela noite, com todos dormindo e sendo sua vez, Jackie se viu como a responsável pela tocaia. Não se incomodava de ficar acordada até mais tarde, e estava fresco, mas não frio demais. O calor da fogueira era o suficiente para aquecer ela e os outros, e quando todos foram dormir, ela permaneceu sentada, olhando o crepitar das chamas e fazendo carinho em Amélia, que comia feliz uma pequena porção de ração que havia sobrado.
- Um dia desses, vou te dar um pedaço do seu tamanho e duas vezes seu peso de queijo - prometeu Jackie para a rata, em tom de sussurro. - Mas, por enquanto, acho que vamos ter que sobreviver com essas rações.
O grupo havia parado em uma clareira, espaçosa para todos deitarem e deixarem suas coisas, e receberem a luz da lua. Na noite seguinte, seria lua cheia, mas hoje, mesmo crescente, a noite quase brilhava com a luz vinda do satélite natural. Jackie se pegou hipnotizada pela luz e olhava tão fixamente, que nem notou que Lumi acordara e sentou ao seu lado.
- Não consigo dormir - admitiu, com a voz um pouco rouca. - Acho que fui picada por alguma coisa e, agora, minhas costas estão coçando - comentou, levando os braços para suas costas e coçando a pele.
Jackie franziu o cenho e acomodou Amélia, agora quase dormindo em sua mão, dentro de seu bolso.
- Posso ver? - Perguntou.
Lumi deu as costas para Jackie e expôs a lombar, com a pele levemente arranhada - fruto de suas unhas tentando acabar com a coceira - e uma erupção de leve, provavelmente provocada pela picada de algum inseto desconhecido.
- Eita, está meio feio - a luz amarela do fogo dava uma ilusão de estar pior do que a realidade, mas Jackie levou a ponta dos dedos e encontrou a pele de Lumi quente na região da picada. - Acho que está com uma leve febre.
De repente, Jackie se lembrou de um creme que ela tinha guardado em sua bolsa que poderia ajudar com aquele tipo de situação. Ela apanhou sua bolsa pela alça, a abriu e retirou um pequeno saco com uma substância verde clara.
- Acho que vai estar meio gelado, mas deve ajudar - comentou enquanto passava nas costas de Lumi.
Lumi se assustou com a sensação de algo viscoso e gelado em suas costas, mas o alívio com a coceira foi quase imediato. A pomada gelada anestesiava sua coceira e ainda tinha um cheiro fresco.
- Isso é menta? - Perguntou a Lumi.
Jackie emitiu um som de concordância.
- Misturei um pouco de menta para dar um cheiro agradável - respondeu. - E também o frescor.
- Isso é incrível - falou Lumi, espantada. - Onde aprendeu?
Jackie, por alguns segundos, continuou só espalhando a pomada. Nem tinha muito mais, mas ela estava gostando de fazer carinho em Lumi, então continuou. No entanto, ela se lembrou de quem ensinou a ela uma receita tão útil assim.
- Meu pai - disse por fim. - Há muito tempo.
Lumi virou a cabeça para ela e falou séria.
- Você nunca falou do seu pai ou da sua família antes - constatou.
Jackie deu um leve sorriso.
- Acho que não - respondeu.
Nisso, Lumi se virou para Jackie. As duas agora estavam sentadas na frente de uma fogueira queimando lentamente com seus amigos de party dormindo. O ronco leve de Dani ecoava e Nico murmurava algo sobre cheiro de livros enquanto se virava.
- Não é uma história muito divertida - falou Jackie, mantendo seu sorriso casual. - E não tem muito mais o que possa ser feito, então, eu acho que, com os anos, me virei mais para a frente e não fiquei olhando tanto pra trás, sabe?
Lumi a encarou com olhos de preocupação e se aproximou mais de Jackie, até elas quase encostarem os ombros uma na outra.
- Pode me contar se quiser - falou.
Jackie respirou fundo, abraçou as suas pernas e olhou para o fogo.
- Bom, eu nasci em uma fazenda, dentro de uma "vila" - começou. -, que na verdade era a junção de meia dúzia de casas. - Ela deu um leve sorriso e tentou manter de forma mais casual possível o relato. - Eram pessoas muito simples, mas todos se gostavam muito. E assim, como era algo muito pequeno, todos se viam e interagiam como família. Eu lembro de ter um pai, uma mãe e um irmão mais velho que moravam na mesma casa, mas todos das outras casas se davam muito bem e às vezes eu e meu irmão dormíamos com outras famílias e tudo bem.
Jackie não pensava no seu irmão Tobias há muito tempo. Ele tinha 11 anos da última vez que se viram. Era magro, mais alto que ela e tinha os cabelos escuros e olhos da mesma cor.
- Sabe, agora parando pra pensar, não lembro de muita coisa, mas as coisas que me recordo são coloridas - nisso, ela olhou para Lumi. - O que quer dizer que devem ser boas e felizes, certo?
Lumi sentiu um peso na barriga ao ouvir aquelas palavras. Jackie sempre soava tão alegre, mas tinha um Q de tristeza na sua voz assustadoramente atípica.
- Numa noite, quando eu tinha pouco mais de 7 anos, um grupo de ladrões chegou na nossa casa e quis roubar qualquer coisa que tínhamos. - Jackie olhava fixamente para o fogo agora, e não sorria mais. - Mas todo mundo que morava lá era muito simples e não tinha dinheiro ou objetos de valor. Basicamente, o que a gente produzia do solo e dos animais servia de alimento ou para vender em alguma feira ou para algum viajante, mas só isso.
Jackie sentiu um arrepio percorrer seu corpo e engoliu a seco.
- Lembro desse dia muito bem - admitiu. - Esses ladrões chegaram ao pôr do sol e, apesar das cores no céu, sempre que penso nessa memória, ela é preto e branco. Como se fosse um filme e não tivesse acontecido comigo de verdade, sabe? - Nisso, ela virou a cabeça para encarar Lumi e a encontrou de boca aberta e com o semblante assustado.
- E o que houve? - Perguntou Lumi, sem saber se queria ou não que Jackie continuasse.
Jackie engoliu novamente a saliva e emitiu um sorriso melancólico.
- Quando constataram que não tinham mesmo o que roubar, decidiram incendiar tudo. E, como eram todas as casas muito próximas, todas elas pegaram fogo. - contou em tom baixo, na esperança de que, se ela falasse como um sussurro, deixaria de ser verdade.
O silêncio pairou no acampamento. A única coisa que surgia eram os sons da floresta - o coaxar de um sapo não muito longe e o piar de uma coruja em alguma árvore. No entanto, Jackie ainda abraçando suas pernas e Lumi com o rosto espantado pareciam que tinham virado duas estátuas.
Uma lágrima solitária escapou do olho de Jackie e ela imediatamente a limpou. Lumi, percebendo isso, despertou de seu choque e a abraçou.
- Eu sinto muito - sibilou, chorando. - Sinto muito mesmo.
Jackie retribuiu o abraço e sentiu cheiro de floresta, menta e de frutas frescas. Aquilo diminuiu um pouco a tristeza que tinha acordado junto com todas aquelas memórias.
- E você ficou sozinha? - Perguntou Lumi. Ela tinha soltado Jackie do abraço, mas quis continuar fazendo afagos em seu cabelo. Jackie pegou uma das mãos de Lumi e começou a desenhar círculos imaginários nela com a ponta dos dedos.
- Bom, depois de, milagrosamente, ser a única que sobreviveu, sim. - Ela respondeu. - Eu era muito pequena e magrinha, então, quando senti cheiro de fumaça e ouvi as pessoas gritando, eu corri para dentro de uma abertura na parede que dava para a dispensa. Por sorte, o fogo não chegou até onde eu estava, então, fiquei a salvo.
Ela respirou fundo e viu que Lumi ainda ameaçava cair no choro. Levou uma de suas mãos para secar as lágrimas da amiga.
- Não quero te fazer chorar - admitiu triste. - Eu estou bem agora, tá tudo bem.
De alguma forma, Lumi só se emocionou mais e a abraçou novamente.
- Mas você era uma criança! - Ela falou em tom ameno para não acordar os outros, mas não pôde deixar de conter a emoção que tinha com essas palavras. - Não foi justo com você!
Jackie a confortava e exibia parte de sua descontração.
- Ei, calma - falou, olhando para Lumi e com uma mão em seu rosto. - Foi triste e foi traumático, mas eu sobrevivi - constatou. - E me ajudou a ser quem eu sou hoje.
Ela limpou as lágrimas de Lumi e lhe deu um beijo na bochecha.
- Eu estou bem. Agora, quer ouvir o resto da história?
Lumi respirou fundo e concordou com a cabeça.
- Só se você quiser contar - falou.
- Na manhã seguinte, depois que o fogo tinha consumido tudo, eu procurei por sobreviventes, mas não achei ninguém - contou. - Mas, como eu era uma criança, fiquei ainda esperando por alguém, por alguma coisa acontecer. Não sei, acho que imaginava que meus pais iam aparecer ou que algo ia se resolver. Eventualmente, a comida de lá acabou. O pouco que tinha sobrado na dispensa acabou e eu tive que vagar pela estrada e pela floresta para encontrar mais comida.
Jackie percebeu que Lumi estava para cair no choro de novo, e como não queria que isso acontecesse - e que muito menos o restante da party acordasse e se perguntasse o que estava acontecendo - tentou contar a história de um jeito melhor.
- Olha, eu quase morri de fome? Sim. Eu, durante as noites, na floresta, ficava com muito medo de qualquer animal ou criatura (até mesmo os próprios ladrões) pudesse me encontrar e me matar ou me fazer algum mal? Sim, mas a história está para melhorar.
Lumi lançou para Jackie um olhar de "estou esperando".
- Não sei dizer quanto tempo se passou ao certo entre eu saindo de casa e o que aconteceu a seguir, mas, em algum momento, quando eu estava quase morrendo de fome e sede, cheguei em uma vila e senti o cheiro de uma torta salgada de frango, em uma das primeiras casas da vila. - Nisso, o rosto de Jackie se iluminou de novo. - A torta estava numa janela, ao meu alcance e eu, sem pensar, peguei um pedaço com a mão, queimando meus dedos, porque a torta estava quente, mas comi aquilo como se fosse a coisa mais deliciosa do mundo.
Ela respirou fundo e sorriu pensando no que acontecera a seguir.
- Enquanto eu comia, ouvi a voz de um senhor de idade. Um homem careca, magro, corcunda e sem alguns dentes da frente. Ele era o senhor Ivan Von Ness e, quando me encontrou, toda suja e assustada, parecendo um verdadeiro bicho do mato, me deixou comer a torta inteira, me convidou pra entrar e me adotou.
Jackie encontrou um rastro de alívio e felicidade no rosto de Lumi. Tomou isso como sinal para continuar contando sua história.
- Ele era um inventor, um artífice também. - explicou. - E foi me ensinando a arte de manipular magia em objetos não mágicos, fora outras coisas, como essa pomada, e algumas dicas para a vida, como ter um aperto de mão firme ou ir dormir só depois de fazer xixi. Ele foi a família que eu não tive dos 7 aos 19 anos, quando faleceu por causas naturais. Pouco depois de sua morte, eu, agora me chamando de Jackeline Harness, fechei a loja e casa dele e decidi andar pelo mundo à procura de companhias e de aventuras,
- E nisso entrou na cidade do Monastério?
- Não antes de alguns tropeços pelo caminho - respondeu. - Em uma das minhas primeiras paradas, com meu espírito aventureiro intacto, conheci uma gangue de umas pessoas bem... Interessantes, vamos dizer assim.
Lumi levantou uma sobrancelha em sinal de dúvida.
- Eles aplicavam alguns golpes, assaltavam carruagens, eram trombadinhas, faziam shows em praças de cidade e eram "mãos-leves" com as pessoas que assistiam, esse tipo de coisa. - Nisso, Jackie soltou um suspiro e fechou os olhos. - E eu me juntei a eles por um tempo.
Essa era a parte de sua história que Jackie mais tinha vergonha e arrependimento. Ela nunca fora uma pessoa propriamente má, mas aquelas decisões que ela havia feito traziam à tona algumas das coisas que ela considerava pior em si mesma. - Assim, o que eu gostava era da companhia deles e também do dinheiro que vinha, porque dai, eu podia comer e não teria mais o risco de passar fome. No entanto, com o tempo, aquela maneira de ganhar dinheiro não era justa. Então, quando eles chegaram à cidade do monastério, eu resolvi ficar e ajudar os monges como uma forma de "fazer uma boa ação" para compensar as coisas ruins que eu já tinha feito. Eu estava lá por algumas semanas até que vocês chegassem e começássemos a vagar juntos.
Lumi, com os olhos cheios de lágrimas novamente, abraçou Jackie devagar enquanto falava.
- Você ficou sozinha de novo - murmurou. Daí, seus olhos se abriram em uma expressão de epifania - É por isso que você come tanto! Porque você é uma esfomeada pelo que te aconteceu!
Jackie, surpreendentemente, ficou corada de vergonha.
- Acho que sim - murmurou, mas se soltou do abraço. - Mas as coisas não estão ruins agora, sabe? Logo nos primeiros dias lá eu conheci Amélia. Além disso, olha só - ela virou o rosto e o olhar para Nico, Dani e Pyotr, que dormiam pesadamente. - Eu não estou mais sozinha. Eu tenho agora o Nico, a Dani, o Pyotr ... E você. - Jackie pegou na mão de Lumi e sorriu para ela enquanto beijava sua mão gentilmente.