Quando eu era criança tinha uma mulher velha
que jogava um palito de fósforo ceso no café e via
o futuro na mancha que faza quando o palito apagava.
Sempre me levavam lá pra tirar quebrante.
Ficava nessa mesma rua aqui da quitanda.
Uma vez eu tomei um fora na escola e chorei em casa.
Minha mãe achou que era quebrante.
No dia seguinte foi a mesma merda.
depois com o tempo descobri que o problema era o café.
Porque café não tem nada a ver com o amor.
Café desce rasgando e te deixa ligado.
Tem prazo de validade curto e azeda muito rápido.
E longa vida tem conservante.
Só parece seguro porque está em uma caixinha.
Depois que abre é igual a qualquer outro.
Não sei como chorei por aquela ridícula da escola.
Amor é tipo isso, derivado de leite com embalagem bonita na geladeira do mercado.
Você quer muito, as vezes fica doente de vontade, mas depois que bebe vê que nem foi tudo aquilo.
E sem as embalagens, no fundo, danone, queijo, manteiga... é tudo a mesma merda.
Fica lá em você boiando até sumir.
- “Os funerais do coelho branco”, Nene Altro. 2004.