Sem que fossemos apenas mais dois amicĂssimos com inĂşmeras coisas que ligasse-nos um ao outro, tĂnhamos a mesma paixĂŁo em comum, dois pingos de suor que desciam por entre nossos corpos como Ăşnico. Mas sim, Ă©ramos amigos. Lhe descrevendo melhor, seus olhos eram como os de Capitu, eram olhos ressaqueados, e como disse o mestre Machado de Assis: —”Traziam nĂŁo sei que fluido misterioso e energĂ©tico”. PorĂ©m, nĂŁo era tĂŁo magra quanto Capitu, e nem mesmo gorda, vestindo assim a perfeição de um corpo esculturalmente belo e formoso.
Isso aconteceu nas vĂ©speras de 1905, na mais conhecida cidade maravilhosa, Rio de Janeiro. Naquela Ă©poca nenhum romance era muito bem aceito pelo vĂnculo social, ainda mais vindo daqueles que diziam ser apenas amigos. Uma moça que se prese, para mim, há de ter a bondade estampada na face, e isso ela tinha de sobra, mesmo sendo mais que uma simples “moça”, — se Ă© que me entende, refiro-me a sua escassez quanto a virgindade tirada por mim, o que nĂŁo me fazia olhá-la com olhos de maldade, pelo contrário.
Mas alĂ©m de sua beleza exterior, que bem dita ganhará anos depois da Garota de Ipanema, — canção composta por VinĂcius de Moraes e Tom Jobim em 1962, Elisabeth tinha uma alma lavada de carisma sem igual, com um belo par de rins nunca afetado por alguma gota de álcool, o que me era admirável.
Sua famĂlia nĂŁo possuĂa um “status” de riqueza perante Ă sociedade, digno da presença de curiosos, mas tambĂ©m nĂŁo eram pobres que tinham como sina a sarjeta. Minha famĂlia ia no mesmo embalo, todos nĂłs trabalhávamos, e juntando o pouco que ganhávamos conseguĂamos pagar as contas no fim do mĂŞs e ainda restava um trocadinho no bolso, ainda assim, nenhum de nĂłs dois ligávamos para isto.
Nos encontrávamos sempre no mesmo local, naquele bosque coberto por um manto infinito de paz. Ficávamos encostados em uma árvore ao som do vento, poderĂamos morrer ali, se pudĂ©ssemos. Em um dia em que viajávamos juntos com as folhas que se esvaiam, Elisabeth olhava a mim de maneira diferente, parecia reflexiva, talvez um tanto distante, calada. Perguntei-lhe o que havia acontecido e dessa forma me respondeu: “Otávio, tenho algo importante para lhe dizer.”, ela desencostou a cabeça de meu peito e continuou a falar: “Nesses Ăşltimos dias descobri que estou com uma doença sĂ©ria, provavelmente nĂŁo viverei atĂ© o prĂłximo mĂŞs…”. Meus olhos estavam arregalados, nĂŁo poderia aceitar o que estava ouvindo, ela prosseguia dizendo: “E por todo esse tempo que passamos juntos, entenderia se vocĂŞ preferisse afastar-se, nĂŁo seria certo que eu permitisse que sofresse comigo a minha dor.” Permaneci alguns instantes sem emitir qualquer som, e naquele momento tive a certeza de que Elisabeth era a mulher da minha vida, por saber que estava prestes a padecer e ainda assim pensara em mim. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, e com um de meus dedos eu as enxuguei, segurei o teu rosto firmemente e disse que nĂŁo, — NĂŁo iria deixa-la e mesmo com tudo acontecendo entre nĂłs, queria vĂŞ-la minha esposa, de aliança e vĂ©u e grinalda, ela resmungou: “Mas Otávio, vocĂŞ ouviu bem o que lhe disse?”, retruquei avisando que havia ouvido, e muito bem.
A pedi em casamento antes que partisse, ficamos juntos até o seu final, era sofrido ouvir os seus gemidos na cama, eu podia sentir suas dores apenas observando toda aquela cena, e mesmo com todo aquele sofrimento que me partia o peito, estivesse ao seu lado, não por pena, mas porque a amava, a amava como jamais poderia amar alguém daquela forma. Meses se passaram, o dia de sua morte foi o dia da minha também, porém, não morri de morte morrida, e sim por dentro, os dias nunca mais foram os mesmos, o tempo se ia, eu, enfim, seguia minha direção, mesmo nunca me livrando da lembrança de Elisabeth.