CapĂtulo 2 - Mister, Mister Jared
Eu me esqueci de dizer que nossa casa nĂŁo era uma casa comum. Nossa casa fazia parte do Moulin Rouge Sanders.
HĂĄ anos atrĂĄs, quando eu ainda era um adolescente, momĂŁe administrava o Moulin Rouge Sanders, que nada mais era do que a rĂ©plica do Moulin Rouge verdadeiro. Bem, vocĂȘ pode imaginar o que havia lĂĄ.
Mas nĂłs sĂł imaginĂĄvamos. Jamais visitamos ou ouviÂmos o Moulin Rouge Sanders enquanto ele ainda funcionava. E se momĂŁe fazia algo mais do que adminisÂtrar o local, isso tambĂ©m nĂŁo podĂamos afirÂmar. Ainda que nossa casa ficasse colada e ainda que houvesse uma entrada para os dois lugares â momĂŁe sempre a manteve altamente trancada â nĂłs estĂĄvamos proibidas de entrar lĂĄ. De se quer chegar perto. MomĂŁe nem ao menos nos deixava andar na rua de trĂĄs â a da entrada do Moulin Rouge Sanders â e nenhuma de nĂłs se atreveu a tentar violar a regra. Acredite momĂŁe nĂŁo era uma mĂŁe que dava castigos. Ela era cruel.
Ainda que o moinho funcionasse o letreiro lumiÂnoso permanecia apagado. Comecei a pensar seriaÂmente em acendĂȘ-lo um dia daqueles. Era bom quando as pessoas nos reconheciam por sermos donas de lĂĄ.
Claire havia ido Ă escola naquele dia. Eu resolvi me arrumar e dar uma passada na saĂda. Fiquei esperando parada em frente Ă saĂda, sorridente. Quando ela saiu nĂŁo pareceu muito feliz em me ver. Ela foi atĂ© mim e perguntou cochichando:
â O que estĂĄ fazendo aqui?!
â Eu vim falar com a diretora para saber como estĂŁo suas notas e seu comportamento.
Ela perguntou com a voz aguda.
â Relaxa, eu sĂł estava brincando!
Eu ri. Ela, irritada, começou a caminhar.
â EntĂŁo por que vocĂȘ veio? â ela perguntou.
â NĂŁo posso pegar minha irmĂŁzinha na escola?
Claire me olhou desconfiada.
â SĂł pra me buscar mesmo? â perguntou.
â Ah, bem... Estava esperando ver o Tom por aĂ...
â Ah, eu sa-bi-a! VocĂȘ nĂŁo faz nada sem segundas intençÔes, Britty! Eu sempre...
â Isso nĂŁo Ă© verdade!
â... tenho que esconder as coisas de vocĂȘs porque sempre me enchem o saco! VocĂȘs nĂŁo entendem que...
â... eu tenho minha vida por aĂ! E daĂ que ele tem vinte e sete anos? Quero dizer ele...
â... Ă© um cara legal mas quem disse que vocĂȘ liga para isso?
â Claire! Ele Ă© dez anos mais velho que vocĂȘ!
Claire parou a fala. SĂł entĂŁo percebeu o que tinha dito.
â Quer saber? Eu nĂŁo tenho que ficar te dando satisfaÂção! DĂĄ um tempo!
â Ah Ă©? â eu disse Ââ CLAIRE SANDERS, volte jĂĄ pra cĂĄ!
â Me chamar pelo nome nĂŁo vai me convencer, Britty.
Claire disse sem olhar para mim.
â CLAIRE SIMPSON SOPRANO SANDERS!
Ela paralisou. Todos os alunos que estavam saindo da escola olharam sobressaltos. Então ela voltou até mim e cochichou raivosa:
â Se eu te mostrar vocĂȘ larga do meu pĂ©?
 Eu topei. Mas Claire foi esperta: Ela me mostrou ele sim, mas pelo computador.
Ela apontou. Tinha queixo de homem forte, cabelos lisos e escuros jogados na cara. E um sorriso pra lĂĄ de arrebatador.
â Espere um minuto... Do que vocĂȘ o chama?
Eu olhei melhor para tela.
â KakĂĄ-Tom. O apelido dele de infĂąncia era KakĂĄ.
Eu nĂŁo aguentei. Comecei a rir!
Quando estava quase parando notei outra coisa:
â VocĂȘ o chama de KakĂĄ-Tom! E ele ainda ri âKKKâ!
Ri até minha barriga começar a doer e quase me faltar ar.
Claire ficou olhando para mim séria.
â Ă por isso que eu nĂŁo conto nada para essa famĂÂlia.
â Eu quero conhecer ele.
Ela ficou de frente para mim.
â Aaaah nĂŁo! Nem pensar! VocĂȘ disse que depois que eu te mostrasse era o fim entre vocĂȘ e ele! Acabou aqui Britty!
â NĂŁo mesmo, mocinha. Eu vou conhecĂȘ-lo. VocĂȘ nĂŁo quer que eu conte tudo para momĂŁe nĂ©?
Ela abriu a boca, incrédula.
â VocĂȘ nĂŁo se atreveria!
â Ah, claro que me atreveria! E digo mais: vou dizer que vocĂȘ estĂĄ noiva dele e que a Marissa vai ser a madrinha. Deixe sĂł ela ficar sabendo! Vai voltar na hora e arrancar seus cabelos!
Eu olhei para Claire inutilmente. Ă claro que ela nĂŁo ia atender a campainha.
â Bom que seja o Tom! â eu disse.
â HĂ-HĂ. â ela respondeu com tĂ©dio.
Bem, nĂŁo era o Tom coisa nenhuma. Era na verdade ainda melhor.
Eu abri a porta e fiquei estĂĄtica. Gaguejei vĂĄrios comeÂços de frases, mas nenhum saiu. Estava perplexa demais.
Ele era alto, levemente bronzeado e musculoso. O cabelo era aquele corte mĂ©dio com a franja no rosto. Mas ele usava um chapĂ©u de cowboy que combinava perfeitamente com a sua blusa xadrez, a calça jeans surrada e a bota de couro. Ele sĂł podia ser de SmallÂville.
EntĂŁo ele disse sorridente, tirando o chapeu:
Claire tinha vindo correndo e eu nem havia perceÂbido. Ela estranhara nĂŁo me ouvir falando e correu logo para ver o que tinha acontecido.
Claire se apoiou com pose na porta e respondeu animada:
â Tudo bom com âocĂȘs?
Eu juro que quase explodi de rir. A voz caipira com sotaque pareceu algo tĂŁo hilĂĄrio naquele momento! Mas a beleza dele me distraiu.
â Claro, ĂŁhn... O que deseja? â eu perguntei assim que recuperei a voz.
â Aqui âserâ a casa das Sanders? â ele perguntou.
â Ă aqui mesmo! â eu respondi com um sorriso.
â Ah bĂŁo! Eu sou Mister, Mister Jared.
Ele disse. Em seguida puxou minha mĂŁo e deu um beijo nela delicadamente. Ele fez o mesmo com a Claire que ficou abobada.
Eu olhei sĂ©rio para ela. Imaginei que momĂŁe ficaria furiosa se a visse daquele jeito por causa de um hoÂmem. Ela pareceu entender meu olhar.
â Bem, entre! â eu exclamei.
Reparei que Claire deu uma ajeitada no cabelo antes dele se sentar no sofĂĄ. Bem, eu nĂŁo posso culpĂĄ-la, eu fiz o mesmo!
Jared, ou melhor, Mister Jared ia se sentar no sofĂĄ. (Bem, Mister Ă© um codinome atĂ© que singelo se compaÂrado ao que estavam usando naquela Ă©poca, vai por mim!) Mas levou a mĂŁo Ă cabeça e disse admirado:
â Ăhn... â eu nĂŁo tinha certeza do que ele quis dizer â Sim! NĂłs... NĂłs moramos aqui. Algum problema?
Ele soltou uma exclamação e se sentou.
Jared estava admirado com o nosso hall de entrada. Ele era verde com mesinhas vermelhas e cadeiras, fora os sofĂĄs principais prĂłximos a uma pequena TV. Havia tambĂ©m abajures nos cantos das paredes e trĂȘs quadros enormes â Da MaÂrissa quando tinha doze anos (mas jĂĄ posava como se fosse uma profissional), Claire quando fez quinze e, Ă© claro, da momĂŁe vestida de flamenga.
Pode parecer algo exagerado, mas na nossa cidade minha casa não era nada extravagante comparada com as outras mansÔes.
Mas Jared havia acabo de chegar.
â Eu sou o irmĂŁo da Kim. â ele disse finalmente.
Certo, minha imaginação estå péssima.
Mas ele nĂŁo podia ser o irmĂŁo mais novo dela!
â Eu sou o irmĂŁo mais novo dela. â ele disse, deiÂxando o meu queixo caĂdo â Ela se mudou e me disse que âocĂȘ âtava com as papeladas todas para eu poder ficar com a casa...
â Oh! Bom... Desculpe Jared, mas... Posso te chamar de Jared nĂŁo Ă©?
â Pode chamar do que quiser!
NĂłs trĂȘs rimos. Bem, nĂŁo sei por que a Claire tamÂbĂ©m riu.
â Tudo bem entĂŁo, Jared... â eu disse sorrindo, dando uma piscadela divertida â Os papĂ©is ainda nĂŁo chegaram.
â NĂŁo? â ele perguntou arqueando as sobrancelhas.
â Isso significa que vocĂȘ nĂŁo pode usar a casa, nĂŁo Ă©? Quero dizer, as chaves virĂŁo junto com os papeis! Eu sinto muito Jared.
â Ah... Tem âpobremaâ nĂŁo!
â Mas, se vocĂȘ precisar de algum lugar pode ficar aqui por enquanto! â Claire sugeriu animada.
â Ah nĂŁo! â ele disse rindo â Eu nĂŁo poderia...
Estava na cara que ele nĂŁo poderia, mas que ele queÂria.
â Bem, vocĂȘ conhece a cidade, nĂŁo Ă© mesmo? â pergunÂtei.
â Conheço um pouco... Mas o povo daqui âserrrâ âestrranhoâ! â ele disse, rindo mais uma vez.
Enquanto ele falava comecei a pensar coisas bobas. Como: Ele não deve ser tão mais novo que eu, mas tem uma cara tão juvenil! O nariz triangular, queixo levemente pontudo e os olhos... Eles são... Mel! E gente, como ele é alto! Deve ter uns dois metros de altura! Olha só, mesmo sentada eu tenho que levantar a cabeça!
â... Mas crraro, eu conheço bem o Moulin Rouge Sanders!
â Era um sonho conhecerrr! Uma pena estar desatiÂvado...
â Ă, uma pena mesmo. Mas o que podemos fazer, momĂŁe era quem coordenava ele. â Claire disse.
â âMomĂŁeâ? Ă assim que âocĂȘs chamam a mĂŁes?
â Ăhn... Na verdade sĂł nĂłs a chamamos assim...
â BĂŁo! â ele disse de repente â Eu nĂŁo quero tomar o tempo dâocĂȘis... Eu vou-me virarrr.
â Espere! â protestou Claire â VocĂȘ jĂĄ vai? Assim?
â Bem, nĂŁo. â ele deu uma risada nervosa â Eu ia perguntar âprĂŽceisâ se vocĂȘs nĂŁo poderiam me mostrar o Moulin Rouge Sanders!
Claire demorou em se dar conta do que era o MouÂlin Rouge Sanders.
â Ahhh! â ela exclamou â Ă claro que podemos...
Ela jĂĄ estava o levando para o caminho quando eu disse:
â Claire! NĂłs nĂŁo... â eu me aproximei do Jared e me dirigi a ele â Desculpe Jared, mas nĂŁo podemos entrar lĂĄ. EstĂĄ trancado hĂĄ anos e nĂŁo temos mais acesso.
Ele nĂŁo pareceu tĂŁo decepcionado quanto eu pensei que ficaria.
â Tudo bem, eu vejo outra hora! Eu preciso ir agora senhoritas... Tchau Brittany, tchau Claire!
Ele fez uma leve reverĂȘncia para nĂłs e caminhou sozinho atĂ© a porta.
Quando ele saiu de vista, Claire deu uma ârevisÂtadaâ na minha cabeça.
â Sua besta! Olha o que vocĂȘ fez! Ele saiu daqui tristiÂnho, tristinho coitado! Custava mostrar pra ele?
â Claire, vocĂȘ perdeu a razĂŁo, foi? â a pergunta foi meio Ăłbvia, eu sei â NĂŁo podemos sair mostrando o nosso Moulin Rouge para qualquer pessoa que chega aqui! Ă o nosso segredo.
â E daĂ? Agora ele foi embora, puxa vida!
â Espere... Eu nĂŁo disse o meu nome e nem vocĂȘ disse o seu, como Ă© que ele...
NĂłs duas olhamos para porta.
Todos dizem que âA primeira impressĂŁo Ă© a que ficaâ. MomĂŁe foi Ă Ășnica que me disse que isso tambĂ©m se refere Ă s pessoas.
Comigo quase sempre foi assim: dificilmente eu era amiga daquela que eu pensava ser mesquinha, irritante ou mal humorada porque, por sorte ou nĂŁo, dificilÂmente eu estava errada.
Mas parada ali, observando a porta da qual Mister Jared havia acabado de sair me deixou pensativa. Eu simplesmente nĂŁo sabia o que achar dele.