Morcegando
Na periferia de Belém dos anos 90, a molecada não andava nem de ônibus, quanto mais de carro. A grande oportunidade de dar uma volta em um veículo motorizado era quando algum caminhão de pequeno porte ia fazer algum frete na comunidade.
Num belo fim de tarde, quando o sol estava quase sumindo e a noite já se anunciava. Cuan estava brincando de jogar bola na esquina de sua casa com uns amigos. Passou uma caminhonete F1000 com mudança de alguém indo embora. A caminhonete estava tão cheia, que a parte de trás da carroceria não estava suspensa. Uns 6 moleques, inclusive Rodrigo, se agarraram na traseira da F1000.
Como as ruas eram de areia, lama e buracos a caminhonete ia sempre devagar, e a molecada ia descendo quanto mais próximo chegava da avenida Mangueirão (asfaltada). Aquele que fosse até o último momento era o que aproveitava mais, e era o maioral.
Cauan quis ser o maioral nesse dia. Foi até a curva da rua de terra com a avenida asfaltada para pular. Mas ele não esperava que o motorista não parasse para entrar na rodovia. O desespero bateu!
A rodovia era uma ladeira, não muito íngreme, mas no meio tinha uma lombada. Ao passar por ela, com a caminhonete abarrotada de bagulhos e em velocidade não tão reduzida, um dos pés de Cauan, que estavam apoiados no para-choque da caminhonete, escorregou. O pé descalço foi ralando no chão, mais precisamente o dedão do pé esquerdo. Era hora de tomar uma decisão ou o dedo ia ser comido pelo asfalto.
Quando não aguentava mais de dor, decidiu finalmente se soltar! Mas esperou mais um pouco, até a caminhonete chegar no fim da ladeira e começar a subir. Jogou-se! Primeiro os dois joelhos acertaram a pista, depois a cabeça. Rolou por mais alguns metros. O resultado foi a cabeça de um dedão comido, dois cotovelos e dois joelhos na carne viva e, na altura da testa, um galo para sempre! Ao chegar em casa se arrastando, para não apanhar, Cauan disse:
- Mãe, eu cair nas pedras da rua e vim rolando.
Como se ele fosse redondo...















