PERVERTIDOS — UM PENSAMENTO
Pervertidos soa como alguém que se sentou finalmente consigo próprio e decidiu não fugir mais. Não é um álbum que tentei agradar ou convencer — é um corpo que se expõe na sua forma mais imperfeita, mais suja, mais verdadeira. Pervertidos é como entrar numa sala onde a luz é fraca, onde o pó se vê no ar, onde existe silêncio… mas um silêncio cheio de memórias, vícios, culpas, desejos e aquele toque de fé distorcida que nunca desaparece completamente.
Cada faixa não funciona como capítulo, mas como um estado. Um pensamento que se prolonga, uma sensação que se arrasta, um eco que insiste em voltar. Há músicas que parecem oração, outras que parecem confissão, outras ainda que são só o som de alguém a tentar não desmoronar naquele dia. E tudo acontece — só com uma honestidade quase brutal.
Há qualquer coisa muito humana em Pervertidos: a vontade de mudar, mas sem saber como; a vontade de acreditar, mas com medo daquilo em que isso nos transforma; a vontade de sentir, mas o corpo cansado, dormente, a tentar lembrar-se do que é emoção.
O álbum inteiro parece uma viagem em que não há destino final. Não há redenção, nem catarse, nem moral. Há apenas um caminho, um espaço, um lugar mental onde nos deixamos cair e ficamos ali a ouvir os nossos próprios ruídos internos. É uma ferida que não pede remendo.
No fundo, Pervertidos é isso: um retrato de alguém que nunca deixou de procurar, mesmo quando já não acredita que exista algo para encontrar. Um corpo a tentar sentir. Uma voz a tentar ser ouvida. Um pensamento que continua, mesmo quando a música acaba.
O Tema Religioso em Pervertidos
A religião em Pervertidos não aparece como fé—aparece como fantasma. Não é uma crença viva, mas uma memória instalada no corpo: o peso do pecado, a culpa automática, a sensação de que alguém está sempre a olhar, mesmo quando já não acreditamos em nada.
É como se tivesse uma espécie de Deus silencioso no bolso: não fala, não guia, mas pesa. Um Deus que não é figura divina, mas metáfora para tudo aquilo que nos moldou — culpa, educação, proibições, moralidade, arrependimentos.
O álbum transforma a religião num cenário emocional: um altar destruído, uma confissão sem padre, uma alma que não sabe se está a ser julgada ou ignorada.
Talvez por isso o tema religioso aqui seja tão forte: não pela fé, mas pela falta dela. Não pelo sagrado, mas pela ausência dele. Não pela luz, mas pela sombra que ficou depois dela.
Um Pensamento Pessoal
Quando penso em Pervertidos, vejo-o como uma viagem que começa lá no topo e desce até ao fundo do próprio ser.
Há momentos de ascensão, quase como o Cenotáfio de Newton: correr, tentar transcender, tocar algo maior do que nós, procurar sentido na vida e na própria lógica das coisas. É aquela força que nos faz levantar, tentar compreender o mundo, tentar entender a nós mesmos. Um impulso de beleza, de conhecimento, de poder sentir algo sublime.
Mas a ascensão é frágil. Chega o momento da queda, o fundo do poço, como em Punido por Deus. Aqui não há lógica, nem razão: há vícios, culpa, solidão, arrependimento. Cada nota pesa, cada silêncio corta. O álbum transforma o próprio Inferno de Dante num espaço emocional: não há guia, não há redenção garantida, só a consciência do que fomos, do que somos e do que nos destrói.
Entre o subir e o cair, há a “Divina Comédia”, aquela ironia amarga da vida. Rimo-nos do absurdo, do que tentamos controlar, do que insistimos em não entender. O álbum é ao mesmo tempo trágico e satírico: o riso surge no mesmo espaço que a dor, lembrando-nos que, por mais fundo que caiamos, continuamos vivos, continuamos a sentir, continuamos a rir — mesmo que seja de nós próprios.
Cada faixa é um estado: monólogo, agonia, desejo, confissão, amor, ódio, humor negro. É a ascensão do Cenotáfio, a queda de Punido por Deus, a ironia da “Divina Comédia” condensadas em música. Não há salvação, não há respostas definitivas. Há apenas verdade — nua, intensa, crua — e a vontade de sentir cada camada de nós mesmos, mesmo quando dói.
Postes Elétricos
penso em Pervertidos, lembro-me dos postes elétricos da minha infância. Havia um mito: diziam que a exposição prolongada, podia causar depressão. Um efeito invisível, silencioso, que te puxava para dentro de ti mesmo, para a escuridão que ninguém via. Medo, fascínio e curiosidade misturados numa única sensação.
é uma teia invisível: um corpo, uma mente, uma emoção que toca outro corpo, outra mente, outro coração. Somos fios que se cruzam, fios que nos puxam, que nos sustentam e que nos fazem sentir vivos.
Amar‑me é Sofrer‑me...
Há coisas em mim que não consigo esconder. Coisas que doem, que queimam, que puxam, que chamam. E sempre que alguém se aproxima demais, percebe: amar‑me é sofrer‑me.
Não porque eu queira. Não porque eu seja cruel. Mas porque carrego dentro do peito pedaços partidos de coisas que não se recompõem. Quem fica comigo acaba por sentir o peso desse silêncio, dessas memórias que estalam por dentro como postes elétricos a zumbir ao longe — uma luz que atrai, mas que também fere.
Sempre acreditei que o amor era isso
Amar‑me é sofrer‑me porque eu não sei ser leve. Eu não sei ser meio-termo. Eu sou sempre tudo: a ascensão e o fundo do poço, o anjo e o punido, o céu e a queda. Quem entra no meu mundo percebe que não há muralhas, só feridas abertas a respirar.
E no entanto — há amor. Há sempre amor. Um amor que tenta compensar a guerra, que reza por uma porta aberta, que acredita no impossível.
Amar‑me é sofrer‑me… Mas, no meu coração, quem fica sempre leva metade de mim.









