Eu era daquelas que via uma criança esperneando em público e fazia cara de ryca e phyna de novela das 9. Que horror. Que gentalha mais primitiva. Minha mãe tentava me dizer que aquilo acontecia mais ou menos com todas. Tinha acontecido, inclusive, com ela. Mas a empáfia juvenil não me permitia ouvir. Filho. Meu. Nunca. Faria. Aquilo. Eu saberia educar. Caiu um respingo da cusparada pro alto aí? Aqui caiu um rio inteiro. Como toda boa criança, meus filhos já deram seus devidos chiliques. Fizeram (e fazem até hoje) muita pirraça. Viraram prato de comida no chão, me bateram (quando eram bem pequenos), se bateram, riscaram as paredes da minha casa, enfiaram um rolo inteiro de papel higiênico na privada, bateram porta e um monte de outras artes. E, claro, já se jogaram no chão esperneando algumas vezes. Em algumas, ela estava por perto. Minha mãe. Para rir bem alto da minha cara. Lição aprendida: ninguém escapa de episódios de mau comportamento filial.
O pior de tudo é encarar o julgamento dos passantes. Pessoas como a jovem e tola Claudia. Se a criança tá se esperneando no chão e você está pacientemente tentando fazê-la levantar, sempre tem alguém pra lançar aquele olhar “nossa, que mãe banana”. Se você já perdeu a paciência e está falando um cadinho mais grosso, alguém vai te lançar o “que grossa, falando desse jeito com uma criança tão pequena”. E você ali. Naquela situação. Que vergonha. Quanta humilhação. Com o tempo eu aprendi uma tática infalível (pelo menos funcionava com os meus): se jogou no chão e começou a dar piti, eu saía andando, com passos firmes, dizendo que ia embora, numa atuação digna de Oscar, sem olhar para trás. Dava um, dois, três segundos, os bichinhos secavam as falsas lágrimas e vinham atrás. Sem plateia, sem show. Simples assim. Já fiz isso em pleno aeroporto de Congonhas lotado. Sempre funcionou. Mas, infelizmente, não me livrou de outras modalidades de chilique.
A pior fase eu achei entre os dois e três anos, mundialmente conhecida como “Terrible Two”. Nessa idade minha mais velha teve um episódio tão sério de ataque histérico, se batendo contra a parede, gritando, babando e chorando até quase vomitar, que eu e meu ex-marido trancamos a bichinha no quarto, de castigo. A gente já não sabia mais o que fazer. Conversar não tinha adiantado, botar de castigo, ameaçar comer o fígado da boneca favorita, nada. Ela nem ouvia. Pois a menina esmurrou a porta com tanta força, falando tão grosso, que a gente pensou seriamente em chamar um padre exorcista. Eu não estou brincando. Tivemos essa conversa a sério. Hoje a gente morre de rir da lembrança. Mas naquele dia, a gente acreditou de verdade que ela estivesse possuída por um espírito do mal.
Não havia espírito algum. Só dois jovens adultos completamente inexperientes e perdidos, com muito medo de errar. E uma criança fazendo o que crianças sabem fazer de melhor: fornicando com o juízo dos pais, pra ver até onde eles podem ir. À medida que eles foram crescendo, fui ficando mais confiante. E aprendi a sinalizar de forma mais ou menos tranquila até onde eles podem ir. Não é nada fácil. Tampouco impossível. Mas continuei e continuo me deparando com dezenas de “filho meu nunca” que eu disse e a vida tem se divertido em me fazer desdizer. Faz parte. A moral da história, amiga-mãe-caminhoneira, é que a gente tem que evitar ao máximo dizer isso. Antes e durante a maternidade. Porque, só de sacanagem, só pra você deixar de ser otária e parar de apontar tanto o dedão pros outros, é muito provável que ele vá fazer.