Deixa comigo – Mario Levrero
Um escritor de meia idade, separado, com dificuldades financeiras e sem muito sucesso, recebe uma estranha proposta de seu editor – um adiantamento e a publicação de um livro se encontrar o autor de um manuscrito muito bom que chegou a editora sem os dados necessários... E aí começa a aventura da procura desse escritor e o encontro com estranhos personagens....
“Era um indivíduo estranho, robusto, com uma indumentária antiga que incluía jaleco. Estava agachado, um olho colado ao visor de uma máquina fotográfica. A máquina estava sobre um tripé com patas telescópicas reduzidas a uma altura mínima....
... Me agachei e colei o olho ao visor. Fiquei fascinado. Era uma teia de aranha pequeniníssima; não imagine como o velho chegara a descobri-la. Era construída de tal forma que, aproveitando a incidência dos raios de sol àquela hora e naquele lugar, aparecia diante dos olhos como uma obra de arte, toda harmonia e colorido, reflexos e matizes.
... – Acorde, jovem: existem dois infinitos – disse, sublinhando cada conceito com um enérgico movimento do indicador esquerdo, como se dirigisse uma orquestra -; infinito muito grande, infinito muito pequeno, você no meio; e dentro de você, outros infinitos. Cada átomo corpo, pequeno planeta. Não desalentar por coisas que acontecem; vida continua. Vida igual a mosquito curioso, voa por odos os lados e mete nariz em tudo. Às vezes mosquito cai teia de aranha. Isso bom. Natureza. Lei. Não bom cair própria teia de aranha. – Golpeou-se três vezes com o indicador no centro da testa.”
Boa surpresa de um escritor uruguaio que eu não conhecia!