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eu posso te transformar no meu texto favorito.
aquele que eu vou ler emocionada e querer copiar em todos os cantos que eu puder pra ler de novo
e eu vou copiar
vou te eternizar nas palavras mais bonitas e intensamente românticas que eu encontrar
eu vou virar poeta mesmo não tendo paciência pra rimar
e fazer de você o protagonista mais apaixonante que eu já li na vida
vou te descrever com minusciosidade, dar atenção a cada mÃnimo detalhe de você que eu puder acompanhar
e escrever as mais de mil e uma oportunidades que a gente teria pra ter dado certo
considerar as hipóteses, descrever como seria nosso encontro e o que eu diria, o que eu falaria, como eu reagiria
eu posso transformar você na minha leitura preferida da vida e te deixar ali guardadinho pra sempre só pra eu passar a vida toda te lendo com saudade
eu posso, quero e vou me apaixonar por você todas vezes em que eu ler e reler as coisas que fiz questão de escrever pra você
eu posso sim
mas eu não posso estar com você
e não me pergunte o porquê, eu não saberia dizer
eu não saberia o que fazer ou como lidar
eu nem sei se seria uma boa tentativa
e é difÃcil precisar assumir o quanto eu amo gostar de longe.
e gosto mesmo
gosto muito
gosto com vontade até virar amor
e eu sofrer por amor e pela dificuldade de viver esse amor
como já diriam os mais sábios do que eu: eu sou uma longa história (isso pra não dizer que sou um grande problema)
— amiga, você é intensamente poética e calculadamente realista, difÃcil de explicar.
pois bem, e eu faço o quê depois de uma declaração dessas? uma amiga me definiu assim essa semana e devo dizer que estou paralisada a dias. devo prosseguir? paro por aqui? retorno quantas casas, que dado devo jogar pra sorte?
a verdade é que não sei e no fundo não quero porque sei qual é a verdade. o meu caos e o meu paraÃso estão juntos numa moeda só. eu vou do céu ao inferno em segundos e isso compromete as minhas relações. compromete a mim mesma na verdade, porque nem sei ao certo o que quero, quando quero ou se quero mesmo.
pensei ontem mesmo sobre um termo me calha bem e achei que compartilhar seria uma boa ideia, já que nada nesse mundo é individual. sei que devem existir pelo menos uma boa dúzia de pessoas-frigideira assim como eu me sinto. e se você é efetivamente uma pessoa-frigideira, você pode fazer um doce, pode passar a vida fazendo esse doce (e eu sei que você fez), você poderia de negar para si mesma e se embolar numa porção de expectativas que geraram tentativas falhas que você no Ãntimo, sempre soube que não dariam em nada.
isso tudo pra tentar se convencer de que você não é uma pessoa-frigideira. isso tudo pra não ter que lidar e bancar uma personalidade que você tem, mas que dá trabalho já que não muitas pessoas falam sobre esse assunto. tudo isso porque não te ensinaram os trâmites de que como é ser uma pessoa-frigideira e na real, te fizeram acreditar que você deveria fazer parte da "normalidade": se apaixonar, gostar, querer ficar perto e construir uma vida ao lado de alguém.
e espero que não me levem a mal, não é que eu não ame. e não deixaria que ninguém se atrevesse a cogitar me dizer que sou alguém que não ama até porque se o amor fosse minimamente menor... tanta coisa pareceria mais fácil. eu só não consigo me ver assim como tanta gente se vê e se enxerga do lado de alguém, sabe como é?
se estiver muito cansativo esse papo, eu posso simplificar e só dizer que eu me vejo literalmente melhor sozinha. e só de pensar numa vida ativamente dividida com outra pessoa, isso às vezes me apavora. e me apavora ainda mais saber que me apavoro com isso.
me apavora saber que eu não faço parte do time das pessoas que esperam uma ligação desesperadamente porque interpretam isso como uma forma de amor. me apavora saber que eu não teria paciência o bastante pra estar ali respondendo mensagens todos os dias compartilhando com alguém tudo que estou fazendo e não me sentir confortável com aquela rotina de alguém incluÃdo em absolutamente todos os planos que você tem pra si mesma. me apavora saber que eu não consigo colocar isso em palavras sem parecer uma tremenda egoÃsta ou doida da cabeça, mas ao mesmo tempo aliviada por colocar pra fora. e me apavora saber que talvez um relacionamento possa me transformar num monstro na vida de alguém ou ter que me anular e deixar de lado tudo que realmente sou pra não machucar alguém que não tem nada ver com o fato de que eu sou assim.
e não bastasse isso tudo, tem também o meu sentimento. essa junção pavorosa entre ser uma pessoa completamente apaixonada e ao mesmo tempo terrivelmente melhor sozinha.
levei anos e anos pra entender que o meu traço mais forte é também o meu traço mais tóxico. e que é essa dualidade que existe em mim é a que mais me define e a que menos eu consigo entender: estar apaixonada é o meu combustÃvel, eu amo amar e sou apaixonada por me apaixonar em cada detalhe que isso envolve. mas me basta pesar a minha realidade dois minutos pra eu ter certeza de que eu não daria conta de evoluir uma relação. é preciso querer deixar muita particularidade pra trás pra viver em conjunto, numa comunhão entre duas pessoas. e acho tudo isso lindo, mas não pra mim. será que dá pra entender?

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