Vaiando Dilma e o texto de Luiz Marcondes
Luiz Marcondes, autor dos textos eruditos Minha Experiência com o Swing, 20 coisas que você não sabia sobre sexo nem f-dendo, e Fucking in Finland, publicou recentemente um texto de cunho sociológico, onde expressa ponderações comportamentais por conta da maneira pela qual o povo brasileiro se dirigiu à presidente na abertura da copa. Segundo Marcondes, foi ‘’feio’’ ver a torcida saudando Dilma através de impropérios gritados em brado uníssono e espera que da próxima vez os torcedores tenham boas maneiras. Luiz Marcondes em negrito:
Foi feio o povo xingando a presidenta. É. Bonito não foi, não. Mas, se você pode aplaudi-la em público, também pode vaiá-la. Talvez até… Mandá-la tomar no c*?
Marcondes não se faz muito claro nas poucas linhas que introduzem o seu argumento. Não deve ser fácil para alguém que escreveu ‘’O Rap do Shakespeare’’ (‘’Essa é a história de um grande camarada/que escrevia umas poesia e umas peça irada’’) se expressar com lucidez (já que a autocrítica foi lançada às favas). De toda maneira, nota-se que a análise da manifestação dos torcedores de maneira isolada, como faz o autor, sem a contextualização necessária, é parcial, incompleta e desonesta. Afinal, em que país vive Luiz Marcondes? Pois aqueles milhares de torcedores ‘’mal educados’’ vivem em um país em que se trabalha cinco meses por ano para pagar impostos tendo como retorno um serviço público corrupto e sucateado; eles vivem em um país onde 56.337 pessoas morrem por ano, mais do que no Iraque e no Afeganistão; aqueles milhares de torcedores inconvenientes que melindraram a polidez republicana do senhor Marcondes, vivem em um país onde os seus dirigentes, ditos socialistas, zelam pela sua saúde no renomado Hospital Sírio Libanês às custas da nação que se arrasta em penitência pelos corredores infames do SUS. Mas essa é ‘’A Copa da Inclusão Social’’, como disse Dilma Rousseff em seu pronunciamento, não é? Mas inclusão de quem? Dos donos de empreiteiras ou dos carrascos do partido político que ela representa? O povo é mesmo muito mal educado, senhor Marcondes.
O único jeito de impedir algo assim seria com uma ditadura. Não tem como conter a massa numa situação dessas, seja sua vaia educada ou mal educada. Foi fruto do calor do momento o que aconteceu ali. Expressão espontânea de uma parcela do povo (se são coxinhas, ignorantes políticos ou sei lá o quê, não importa. Parcela da população tão válida quanto qualquer outra: que vota e paga imposto).. Governantes têm que estar preparados também pra isso, não só pra elogios. Concorda?
Então quer dizer que o único jeito de impedir a insatisfação popular presenciada na quinta-feira seria uma ditadura, meu senhor? Eu creio que uma demonstração séria de competência na gestão pública que gerasse resultados visíveis para todas as classes da sociedade seria mais simples, razoável e eficaz do que uma ditadura, não acha? Olha, senhor Marcondes, entendo que seja costume para o senhor escrever textos inócuos, em sua maioria vulgares, cuja apreciação da leitura exige caridade espírita ou ignorância por parte do leitor, mas acreditas então em geração espontânea? Ora, pois o que aconteceu na estreia do Brasil não foi ‘’fruto do calor do momento’’, como você afirmou, mas o resultado de doze anos de assalto aos cofres públicos, de colapso no sistema educacional, do caos do transporte público, do descontrole da inflação, da hipocrisia sórdida de uma presidente que apesar do óbvio que nos expõe a realidade, insiste em afirmar na esquizofrenia covarde dos pronunciamentos televisivos que o Brasil vive em prosperidade plena e que a inflação é uma invenção mirabolante da oposição. Em prosperidade deve viver ela que gasta R$25.000,00 em uma diária em Nova York, R$98.000,00 para jantar em Lisboa, R$36.000,00 em despesas mensais no cartão corporativo, R$19.000,00 nos custos da sua natação (com a inflação que atinge os objetos de consumo da burguesia, não deve ser fácil para ela) e mais R$54.000,00 para a manutenção do seu jardim. Não é surpreendente que tendo todas as suas extravagâncias custeadas pela república, Dilma não perceba a inflação que se espalha na economia brasileira. Deveras, não há inflação para Dilma Rousseff e o povo brasileiro é uma corja muito ingrata e mal educada mesmo.
Uns ficam satisfeitos com o governo, outros não. Como diria Clarice Lispector (sic), “nem Cristo agradou a todo mundo”. É do jogo. Quem leva vida pública tá exposto a isso. Sem entrar no mérito do governo dela. Qualquer governante está sujeito a isso. Ou pop star… Ou … Enfim. Qualquer um que se expõe pra uma multidão. Não havendo violência, acho que é tolerável. E deve ser usado como termômetro de que nem tudo são flores. Ou seja: alguns (coxinhas? playboys? reaças? isso não importa), alguns, dizia, não gostam de Dilma. Isso é ou não é democracia? Só espero que na próxima tenham boas maneiras. Sugestão: “Dilma, boba, feia e chata”, Ou, falando sério agora: que tal em vez do grito, usar o voto como arma, não só de protesto, mas de mudança de verdade? Outubro tá aí.
É, com efeito, de uma cafajestagem intelectual ímpar dizer que ‘’nem Cristo agradou a todo mundo’’ para redimir esta fraude humana chamada Dilma Rousseff. Como não entrar no mérito do governo dela, meu senhor? Que dissociação grotesca de valores é essa que propões? Chama isso de imparcialidade? Novamente: em que país vives? É justamente por entrar no mérito da gestão atroz desta presidente que o brasileiro se revolta. Como não fazê-lo? Rotular aqueles que criticam o governo como ‘’coxinhas’’, ‘’playboys’’ ou ‘’reaças’’, mais do que cair no conto do vigário petista, é dar um atestado de hipocrisia. Então 38% do eleitorado brasileiro que diz não votar em Dilma na próxima eleição em hipótese alguma é ‘’coxinha’’, ‘’reaça’’? Reacionário é aquele que defende governo, que por natureza é ditatorial e autoritário. Reacionário é aquele que vê o ministro Joaquim Barbosa sendo ameaçado de morte por petistas, tendo que se aposentar precocemente do STF, e tem a audácia de afirmar que é o povo brasileiro quem deve ter boas maneiras com as autoridades. Não entrar no mérito do governo Rousseff? Confesso que para mim, a sua imparcialidade torta, cujo odor expele uma fragrância doce de demagogia, é abjeta, no entanto, saiba que na entrada do inferno da Divina Comédia vagueiam as almas daqueles que enquanto viveram não cuidaram nem do bem, nem do mal; não foram nem amigos dos bons, nem inimigos dos maus. Viveram em estado vegetativo, despreocupados, em cima do muro, sem o nutrirem o menor sentimento de virtude, de honra. Quem sabe de lá, próximo ao Aqueronte de Dante, você possa gritar: ‘’Dilma, boba, feia e chata’’.
No mais, senhor Marcondes, e para finalizar, prefiro essa citação de Clarice Lispector: ‘’Porque há o direito ao grito, então eu grito’’. Então, eu grito também.