Flor de figo
Naquela noite fazia frio. O outono já havia sido deixado para trás há alguns meses, dando lugar a um inverno muito mais quente que o convencional. Calor nunca foi algo pra ser aproveitado para ele, evidenciando uma preferência incomparável pelo frio e, por associação, pelas noites em detrimento dos dias. Desde aquela estação preferida, já deixada para trás, até o atual inverno, essa predileção pelas noites vinha sendo reforçada – dia a dia, noite a noite – pelos eventos que se sucederam de lá, até aquele momento gelado em que se dispunha a dedilhar um texto indescritivelmente inferior à motivação que o levava ao ato. Em poucos meses, era criada a curiosidade por descobrir o cheiro de flor de figo, tão destacada que havia sido em uma conversa despretensiosa; ou mesmo do porquê o gosto de suco da goiaba parecia tão agradável naquela boca, saciando uma sede insuperável; e quem sabe, o charme que irradiava pontualmente do cabelo dividido ao meio, magnético em desejo de uma carícia.
A rotina era bastante simples: acordava e sentia vontade de mandar uma mensagem; tomava café e pensava que faria aquele mesmíssimo coado para impressionar quando tivesse a chance; preparava o almoço enquanto esperava a vibração do celular prestes a dissipar uma onda de ocitocina pelo sistema nervoso; deitava a tarde e pensava o quão específico eram 9 minutos de descanso; mais um café, mas dessa vez, dominado pela atenção por qualquer assunto que era desdobrado naquela ligação; na aula, sabia que se passasse todo o tempo do mundo quando chegasse em casa falando sobre aquele tema, que nem sequer era interessante, ouviria um elogio e teria todo o foco – conforme o possível; por fim, se deitava e torcia que durante aquele sonho, pelo menos enquanto no mundo físico não fosse possível, em um universo fantástico eles estivessem muito mais próximos.
Em uma dessas noites frias, em um dos diversos universos que eram criados no embalo de um sono qualquer, vestia um macacão jeans muito semelhante àquele do dia 16 de maio e sentava-se numa cama, logo após despertar (como se o dormir para o mundo real fosse o abrir de olhos naquele universo). À sua frente, uma ampulheta – daquelas clássicas, madeira escura com duas colunas talhadas que sustentavam um recipiente de vidro parcialmente preenchido por uma areia cristalina. Era como se aquele instante já havia sido repetido como parte de um cotidiano desde tempos antigos e, sabendo que o próximo passo seria assistir a areia escorrendo por tempo suficiente para tomar coragem, saltaria da cama em direção a uma cozinha americana, com uma porta de vidro que dava para um quintal verde com uma grande árvore cheia de flores brancas.
O tempo ali corria desinteressado, como se argumentasse que não havia motivo para passar; em seu ritmo, arrastava-se em um som manco que, vira e mexe, fazia a atenção tropeçar em si mesma em pensamentos aleatórios. Então, caminhava até a porta de correr e recebia uma lufada de vento no rosto, carregada daquele cheiro misterioso – aspirava todo o ar disponível e era dominado por um arrepio sutil de uma noite bem dormida enquanto esticava o corpo com os braços acima da cabeça. Realizados os primeiros passos de uma manhã de sonho comum, abria uma das duas portas de uma geladeira e tirava uma garrafa do suporte, preenchida com um líquido avermelhado; derramava em um copo indefinido e caminhava com ele na mão até estar embaixo de galhos alongados, com os pés sobre raízes firmes que saltavam da terra, escolhendo tal como um gato antes de deitar, o lugar que ficaria para ver o nascer do sol.
A aurora não demorou para surgir enquanto criava-se também um riso frouxo no rosto – já era capaz de sentir a luz tocando-lhe e trazendo aquele aconchego tão particular, de um sol que não queima a pele. Da casa, um cheiro suave de alecrim; na cabeça, um pensamento de maio em outono já no meio do inverno. As flores, que agora se revelavam ser de uma figueira, começavam a despencar dos galhos em uma dança espiral que comporia uma harmonia sutil, tecendo uma colcha sobre sua cabeça, ombros e colo. Naquele momento, o universo surpreendia com uma novidade: a aurora carregava consigo sol e lua, em uma dança astral jamais vista – como em um eclipse, a luz do sol era laranja arroxeada e a lua não se fazia presente senão pela circunferência enegrecida. Ele pode constatar que talvez, naquela manhã, a noite não se desfaria no seu mundo particular; com esforço, desfez-se da vista e acordou, mas sentiu que ainda vivia no sonho.
Lincoln R. Souza, com dengo para alguém muito especial.












