O Carnaval estĂĄ chegando, e como eu jĂĄ escrevi para vocĂȘs falando um pouco da MĂșsica Popular Brasileira atravĂ©s do movimento da Bossa Nova, eu quero aproveitar e falar um pouco para vocĂȘs da importĂąncia do ritmo com esse belĂssimo vĂdeo acima sobre os ritmos do povo Malinca.
Em uma das Cartas anteriores, eu contei para vocĂȘs que a Bossa Nova foi criada a partir da fusĂŁo entre o Samba brasileiro e o Jazz dos E.U.A.. VocĂȘs jĂĄ devem saber que a essĂȘncia da festa do Carnaval no Brasil reside na mĂșsica, e a mĂșsica do Carnaval Ă© normalmente o Samba ou uma de suas variaçÔes.
O Samba Ă© um tipo de mĂșsica que surgiu no Brasil na Ă©poca da Colonização pelos portugueses. Quando os portugueses trouxeram Ă força os negros da Ăfrica para o Brasil para trabalharem como escravos, os negros trouxeram com eles, na sua bagagem cultural, a prĂĄtica de danças rituais acompanhadas de batuques. No Brasil, em meio aos trabalhos forçados que eram obrigados a realizar nas fazendas de cana de açĂșcar e de cafĂ©, os negros mantinham a esperança e a memĂłria viva das suas origens livres na Ăfrica recriando essas danças e esses batuques por aqui. Foi daĂ que nasceu o Samba. Com o tempo, e a proibição oficial da EscravidĂŁo no Brasil, os antigos escravos que trabalhavam nas fazendas nas ĂĄreas rurais foram levando o Samba consigo para as cidades, para onde foram em busca de trabalho livre e assalariado. Com isso o Samba foi se tornando mais conhecido pelo pĂșblico e nas primeiras dĂ©cadas do sĂ©culo XX, por volta de 1910 a 1920, ele passou a fazer tanto sucesso que foi transmitido pelo rĂĄdio para um nĂșmero bem maior de pessoas. Em 1930 ele se tornou um sĂmbolo da mĂșsica tipicamente brasileira. DaĂ para frente, foi sĂł sucesso atrĂĄs de sucesso.
Mas eu quero voltar um pouco atrĂĄs no tempo, para falar um pouco mais dessa origem do Samba nos batuques e danças que vieram com os negros da Ăfrica, tal como vocĂȘs podem ver no vĂdeo acima. A principal caracterĂstica do Samba como gĂȘnero musical Ă© a força do ritmo. O vĂdeo acima fala sobre isso, sobre a importĂąncia do ritmo nas nossas vidas.Â
Todo movimento tem ritmo. Quando andamos pela rua, cada um anda de acordo com um ritmo pessoal. O ritmo estĂĄ presente nas coisas mais corriqueiras que fazemos, todos os dias. Quando escovamos os dentes, lĂĄ estĂĄ o ritmo. Quando tomamos banho, tambĂ©m. Quando comemos, fazemos isso com um ritmo especĂfico. Como nĂŁo existe vida sem movimento, e se todo movimento Ă© uma forma de ritmo, entĂŁo toda nossa vida nada mais Ă© do que uma sucessĂŁo de ritmos diferentes. No vĂdeo, que Ă© falado em francĂȘs e tem legendas em inglĂȘs, a mensagem principal Ă© que o ritmo Ă© a essĂȘncia da vida. NĂŁo existe vida sem ritmo.
HĂĄ, de um lado, o ritmo da natureza, com a noite e o dia, as quatro fases da lua ou as quatro estaçÔes do ano, e hĂĄ, de outro lado, o ritmo urbano das cidades, muitas vezes caĂłtico, bagunçado e irritante. As cidades cresceram tanto que hoje praticamente nĂŁo conseguimos mais ouvir os ritmos da natureza de dentro das cidades. E isso nos deixa doentes. Por isso, quando queremos viver melhor e recuperar a saĂșde, buscamos novamente os locais onde a natureza ainda estĂĄ preservada. DaĂ a importĂąncia de se recuperar as formas de vida humana que ainda seguem os ritmos da natureza em vez de combatĂȘ-los, como a do povo Malinca retratado no vĂdeo acima. Os Malinca sĂŁo um povo de agricultores que habita regiĂ”es da GuinĂ©, GuinĂ©-Bissau, Mali, Senegal, Costa do Marfim, Serra Leoa, GĂąmbia e Burquina Faso, na Ăfrica ocidental. Foram dessas regiĂ”es que vieram para o Brasil a maior parte dos negros ao serem escravizados pelos portugueses durante a Colonização do Brasil, ou seja, Ă© daĂ que vĂȘm as raĂzes populares do Carnaval.
VocĂȘs jĂĄ pularam Carnaval? Em vez de assistir o Carnaval pela televisĂŁo, convidem os pais de vocĂȘs para pular nos blocos populares da sua cidade, que desfilam pelas ruas ao ritmo contagiante dos batuques das baterias. Ă muito parecido com o que mostra esse vĂdeo dos Malinca. Em algumas cidades, tem atĂ© blocos infantis.