Sacolas plásticas
(T) Rodrigo Sanches & Maristela Schaufelberger (I) Alexandre Sato (D) 26.01.2016
Para a historiadora de medicina Louise Foxcroft, em seu livro A Tirania das Dietas: Dois mil anos de luta contra o peso (Três Estrelas, 2013), formas corporais desejáveis têm especificidades culturais, e os preconceitos se acumulam sobre aqueles cujos corpos são diferentes. Se o indivíduo não emagrece, a culpa é dele. Muitas vezes, é taxado de desleixado.
Tanto a bulimia quanto a anorexia nervosa, transtornos alimentares que têm em comum a busca pela perda de peso e que têm sido bastante discutidos na mídia nos últimos anos, são mais comuns em mulheres. No entanto, eles são apenas uma parcela dos transtornos alimentares. Além deles, formas atípicas e incompletas de transtornos relacionados ao comportamento alimentar são observadas com frequência cada vez maior e agrupados nas classificações diagnósticas psiquiátricas sob o termo “Transtornos Alimentares sem outra especificação”.
Um destes transtornos é chamado de Pica, que consiste na ingestão de uma ou mais substâncias não nutritivas, não alimentares, de forma persistente em um período mínimo de um mês, em pacientes acima dos dois anos de idade.
Em artigo recente publicado na revista Debates em Psiquiatria, os psiquiatras Eduardo Alves Guilherme e Roberto Ratzke relatam um caso sobre o tema. Conforme discutido pelos autores no artigo, a categoria dos Transtornos Alimentares Sem Outra Especificação (TASOE), embora altamente prevalente, tem recebido pouca atenção.
Neste relato de caso nos é apresentada a saga de um paciente de 21 anos do interior do estado de Santa Catarina que passou a ingerir diariamente sacolas plásticas na tentativa de emagrecer. O paciente, que pesava 99 kg, decidiu emagrecer em virtude das críticas e ofensas dos seus tios e primos no ambiente de trabalho, na zona rural. Antes de começar a ingerir sacolas plásticas, já havia começado a fumar, chegando a fumar 100 cigarros por dia, além de passar a consumir 5 litros de café diários, com o mesmo intento de perder peso. O “hábito” de ingerir sacolas plásticas foi descoberto porque o paciente precisou de atendimento médico por complicações clínicas causadas pela ingestão das sacolas, sendo necessária que elas fossem retiradas por endoscopia.
Ao contrário da ideia prevalente de que são as mulheres apenas as afetadas pela obsessão pela magreza, neste caso impactante notamos que os homens também podem ser afetados pela “lipofobia” atual.
Além disso, o caso nos mostra que além dos bem conhecidos métodos empregados pelos portadores de anorexia ou bulimia para perda de peso (tais como: jejum, uso de laxantes e diuréticos, excesso de atividade física, etc), as pessoas podem chegar a fazer uso de técnicas bizarras e que fogem do padrão comumente descrito em pacientes com transtornos alimentares típicos e que desafiam nossa compreensão. Casos como esse servem de alerta para quão graves podem ser as consequências da epidemia atual de “lipofobia”.
Referências:
FOXCROFT, Louise. A tirania das dietas: Dois mil anos de luta contra o peso. São Paulo: Três Estrelas, 2013. Tradução: Luiz Carlos Borges.
GUILHEME, Eduardo Alves; RATZE, Roberto. “Transtorno Alimentar sem outra especificação (Pica): ingestão de sacolas plásticas como tentativa de emagrecer resultando em abdômen agudo”. Relato de Caso. Revista Debates em Psiquiatria Maio/Junho 2015, páginas 32-35.
Rodrigo Sanches
Graduado em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pelo Centro Universitário Ibero-Americano. Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC/SP). Doutorando em Psicologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto (FFCLRP/USP). Desde o Mestrado, estudo a relação entre o corpo e a mídia, o que resultou no livro “Do homem-placa ao pixman: o corpo como suporte midiático”, publicado com o apoio da FAPESP. Minha pesquisa de Doutorado tem como tema “O sujeito no discurso contemporâneo das dietas: efeitos do novo e da novidade”, a respeito da relação entre o sujeito e o discurso midiático das dietas. Contato: [email protected]
Maristela Schaufelberger
Graduada em Medicina pela UNICAMP, com Residência Médica em Psiquiatria e Doutorado em Ciências pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (FM-USP) e Pós-Doutorado pela Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto (FMRP-USP). Sou docente do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento e da FMRP-USP, e orientadora no Programa de Pós-Graduação em Saúde Mental da mesma instituição, além de pesquisadora do Laboratório de Neuroimagem em Psiquiatria (LIM-21) do Hospital das Clínicas da FM-USP. Minhas áreas de interesse incluem: Esquizofrenia e Transtornos Psicóticos, Transtornos de Humor, Tabagismo, Neuroimagem dos Transtornos Mentais e Psicologia Analítica. Contato: [email protected]
Alexandre Sato
Nipo descendente formado em arquitetura na FAU/USP. Moro em São Paulo e trabalho com ilustração na Pingado Sociedade Ilustrativa e no coletivo oitentaedois, que criei com amigos da faculdade. Também faço animação e impressões serigráficas. No campo do desenho, faço experimentações gráficas entre a imagem na tela e a imagem impressa, utilizando scanner e impressoras caseiras. Meu trabalho autoral faz referência à escala e à rotina nas grandes metrópoles. Tenho interesse pela vida urbana, quadrinhos, jogos e games. Um dia vou fazer o meu próprio jogo e o meu próprio quadrinho. www.oitentaedois.com













