One big happy family | Linus & Bertha
Até aquele dia, Bertha tinha apenas e exatamente três lembranças claras de seu pai. A primeira, era como ele cheirava -- uma mistura entre tabaco inglês e colônia. A segunda, eram os gritos dele -- como eram absurdamente altos no meio da noite, o horário em que ele e sua mãe tinham as piores brigas por acharem que Bertha seria poupada da cena. A terceira e última, era o som que a porta (não) fez quando ele foi embora. Ao contrário do que possa parecer, Benedict desceu as escadas como se seus pés fossem feitos de vidro, e girou a maçaneta com uma delicadeza quase graciosa. Carregou silenciosamente tudo que era seu, para que, naquela casa, não ficasse nem sua mera lembrança em algum objeto esquecido, e atravessou a porta pela última vez. Saber tão pouco sobre seu pai fez Bertha, por anos, criar dezenas de versões de Benedict na sua cabeça. Ela não tinha nem um sobrenome para se basear, - Jorkins era de sua mãe, que se recusava em lhe dar qualquer outra informação sobre o homem que as abandonara - então cada versão que inventava de seu pai era mais distinta da outra, e nenhuma parecia a certa. Advogado, professor de matemática, empresário, jogador de golfe, escritor de livros de auto-ajuda... Quando descobriu o mundo bruxo, as coisas só pioraram. Ministro da magia, professor de Runas Antigas, jogador de Quadribol, jogador de Gobstone... E ainda nada parecia certo.
No fundo de sua mente, ela gostava de inventar razões pra ele ter ido embora. Talvez ele tivesse ido pra guerra, como naqueles filmes que ela via na televisão. Ou ele era um médico que precisava ajudar populações carentes em algum lugar longínquo e sem comunicação. Ou... Ou qualquer coisa que justificasse porque ela havia sido abandonada, deixada, desprezada. Tinha que haver um grande motivo nobre para seu pai ter sido forçado a deixá-la. E foi num dia tão normal quanto aquele, que sua mãe lhe contou. Contou que seu pai não era um advogado, um jogador de golfe, um professor de Runas ou o Ministro da Magia (definitivamente não era o Ministro da Magia). Seu pai era só um grande idiota. E que ele teve um motivo para deixá-la, mas que não era tão nobre quanto Bertha achava. Ele só quis outra família mais do que quis a ela. Ponto final.
E Bertha agora tinha raiva. E teve, pelos seguintes dez anos. Não havia nobreza, não havia um motivo que havia forçado seu pai a fazer nada. Ele havia escolhido deixá-la. Nunca mais quis saber mais sobre Benedict, e muito menos sobre a merda de família que ele havia arrumado. Mas vez ou outra, pegava-se pensando se algum colega de Hogwarts não era seu tão estimado irmão ou irmã. Se alguma das garotas de sua casa, quando comemorava receber uma carta de seu pai, estava comemorando uma carta que poderia ter sido de Bertha. E logo afastava o pensamento. No fundo, não queria saber. Se só a ideia do abandono a destruía por dentro, ainda que não admitisse, descobrir por quem havia sido deixada levaria o pouco de sanidade que ainda a confortava. Irônico, para uma jovem com habilidades quase sobrenaturais em descobrir qualquer coisa, não querer tamanha revelação.
Mas é claro que o universo não podia respeitar nem esse desejo. Vinte anos e dezenas de problemas mal resolvidos depois, Benedict a procurou. Num daqueles dias em que ela havia desistido completamente da vida e que se lançaria do telhado do ministério a qualquer momento gritando "adeus emprego cruel", ele apareceu. Elegante, austero, vestindo um terno que Bertha sabia que custava mais do que a casa dela. Quando Benedict parou na frente da mesa dela, Bertha simplesmente soube. E ela achou que seria o momento em que finalmente levantaria e diria tudo, com a força de vinte anos de rancor, com o rancor de um abandono. E ela achou que seria o momento em que ele pediria desculpas, em que ele diria algo, qualquer coisa que fizessem aqueles vinte anos terem algum objetivo. Mas Bertha achou errado. Porque nem ela se levantou da cadeira, e nem seu pai pronunciou qualquer coisa parecida com um pedido de desculpas. Entre toda aquela sopa de letras que ele dizia enquanto ela o encarava embasbacada demais para conseguir formular uma sentença válida, compreendeu algo como "juntar a família" "precisamos nos unir" e "seu irmão". Seu irmão.
E foi assim que, num sábado à tarde, Bertha Jorkins foi parar no Três Vassouras. Sentada numa das mesas próximas a porta, ela roía sua terceira unha até o talo e cada vez que alguém passava trazendo o vento e o frio do lado de fora, seu coração falhava uma batida e ela levantava o olhar. E a cada minuto que se passava, ela fazia menção de levantar e ir embora, acabar com aquela estupidez. Sinceramente, não fazia a menor ideia do que estava fazendo ali. Havia negado tantas coisas para outras pessoas mais importantes, mas bastou um imbecil engomado que sumiu por anos aparecer e pedir pra ela conhecer seu irmão perdido ou algo do tipo, e lá estava ela. Mordeu repetidamente o canto do lábio, encarando a porta fechada. Tudo que precisava era de cinco minutos para olhar para quem quer que fosse aquele garoto e dizer que não precisava de um irmão.













