Um dia, poderei olhar-me nu em um espelho sem baixar os olhos.
Caio Fernando Abreu, Limite branco.

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Um dia, poderei olhar-me nu em um espelho sem baixar os olhos.
Caio Fernando Abreu, Limite branco.

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As coisas e as pessoas que fazem parte da minha vida vão aos poucos entrando em mim, depois de algum tempo já não sei dizer o que é meu e o que é delas. Mesmo assim, bem no fundo, há coisas que são só minhas. E embora me assustem às vezes, é delas que eu mais gosto.
Caio Fernando Abreu, in ‘Limite Branco’
Cada um é plenamente responsável por aquilo que é?
Caio Fernando Abreu, Limite branco.
Vem, antes que eu me vá, antes que seja tarde demais. Vem, que eu não tenho ninguém e te quero junto a mim. Vem, que eu te ensinarei a voar. Vem, que tomaremos banho na chuva, desafiaremos o vento e venceremos o tempo. Vem, que o frio será tão grande, não sentirás mais dores, não sentirás mais nenhum mal. Vem que eu te quero junto a mim.
Caio Fernando Abreu, Limite branco.
Não há uma verdade única. Há uma verdade por dia, ou pior ainda, mais complicado: uma verdade por hora, à s vezes até mil verdades num minuto. Quando a gente hesita entre fazer e não fazer determinada coisa, e se debate no meio de conceitos encravados no cérebro, no meio de idéias próprias e alheias, recusas e aceitações — labirintos de verdades que não mostram as faces, mesmo depois do ato feito. Não sei se será possÃvel à gente escolher as próprias verdades, elas mudam tanto. Não só por isso, nossas verdades quase nunca são iguais à s dos outros, e é isso que gera o que chamamos de solidão, desencontro, incomunicabilidade. Talvez a maneira como me debato seja natural, e até positiva. É possÃvel que eu parta daà para um conhecimento maior de mim mesmo. Então estarei livre. Acho que meu mal sou eu mesmo, esses cÃrculos concêntricos envolvendo o centro do que devo ser. Mas só poderei me aproximar dos outros depois que começar a desvendar a mim mesmo. Antes de estender os braços, preciso saber o que há dentro desses braços, porque não quero dar somente o vazio. Também não quero me buscar nos outros, me amoldar ao que eles pensam, e no fim não saber distinguir o pensar deles do meu. Criar alguma coisa, como eu queria. Novos mundos, outras vidas. Não para fugir dos meus, mas para projetá-los em outros, para enriquecê-los e descobri-los. Mas quando sento em frente ao papel em branco o que aparece nas palavras é só eu, eu e mais nada. E o papel em branco parece uma boca escancarada, mostrando os dentes, rindo da minha pretensão. Ao mesmo tempo, alguma coisa em mim não consegue desistir, mesmo depois de todos os fracassos. E tento, tento. Não desisto. Um dia, um dia, quem sabe? Acreditar, só preciso acreditar um pouco mais em mim.Â
— Caio Fernando Abreu, Limite branco.

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A porta fechada e o tilintar sem resposta da campainha lá dentro deixaram nele uma sensação de ausência. Uma ausência interna, como se dentro de si mesmo não encontrasse resposta. Pensou vagamente que sempre, de muitas formas, encontraria portas fechadas e campainhas soando inutilmente.
Caio Fernando Abreu, Limite branco.
Quero mudar a minha vida. É tempo de fazer alguma coisa. Talvez eu tenha medo demais, e isso chama-se covardia. Fico me perdendo em páginas de diários, em pensamentos e temores, e o tempo vai passando. Covardia é uma palavra feia. Receio de enfrentar a vida cara a cara. Descobri que não me busco ou, se me busco, é sem vontade nenhuma de me achar, mudando de caminho cada vez que percebo uma luz. Fuga, o tempo todo fuga, intercalada por perÃodos de reconhecimento. Suavizada à s vezes, mas sempre fuga.Â
Quero ser eu mesmo. Será difÃcil? Com tudo de mau que isso possa trazer. Mesmo não sendo mau, fácil não será, mas estou disposto a correr o risco. É preciso agora concretizar a idéia: tirá-la dos limites do pensamento, arrancá-la apenas do papel e torná-la um pedaço de mim, decisão cravada no corpo. Não sei como fazer, por onde começar, mas sei que o farei. Hoje, amanhã ou depois. De uma vez só ou pouco a pouco, eu o farei.
— Caio Fernando Abreu, Limite branco.
Quando se deseja realmente dizer alguma coisa, as palavras são inúteis. Remexo o cérebro e elas vêm, não raras, mas toneladas. Deixam sempre um gosto de poeira na boca — a poeira do que se tentava expressar, e elas dissolveram. Quanto mais palavras ocorrem para vestir uma idéia, mais essa idéia resiste a ser identificada. As sucessivas roupas sufocam a sua nudez. E todas as palavras são uma grande bolha de sabão, à s vezes brilhante, mas circundando o vazio.Â
Ah, se eu pudesse escrever com os olhos, com as mãos, com os cabelos —  com todos esses arrepios estranhos que um entardecer de outono, como o de hoje, provoca na gente.
Procuro palavras para definir o que sinto e não encontro. Talvez elas nem sequer existam, talvez seja apenas um fluxo mais forte de vida abrindo os sentidos, embrutecendo o raciocÃnio.Â
— Caio Fernando Abreu, Limite branco.