Ontem presenciei algo que me chamou muita atenção. Posso dizer que sou uma pessoa observadora e, confesso que, este acontecimento mexeu, de fato, com meu lado sensitivo e reflexivo…
Chegando ao aeroporto internacional de São Paulo, vi uma cena de filme, que me fez pensar que ainda existe amor real, o tipo de amor que move a vida.
Pois bem, vi um casal, com seus quarenta e poucos anos e, a julgar pelos filhos já crescidos, estavam juntos por alguns bons anos.
A esposa, sentada em uma cadeira de espera desconfortável, tinha em seus olhos lágrimas que escorriam, incontidamente, pelo seu rosto, marcado por algumas linhas de expressão. Era como um grande naufrágio. As pernas inquietas e as mãos trêmulas eram sinais de sua escancarada ansiedade.
Os filhos (estimo uns 16 anos para cada um) mostravam herdar uma verdadeira mistura genética dos pais. Em seus olhares se desenhava saudade, mas seus lábios sorriam, demonstrando apoio. Os braços, estendidos ao redor do corpo alto do pai, o segurava como se o homem fosse a melhor chuteira de futebol do mundo, autografada por um astro, ou, uma linda bolsa Versace.
Quando a última chamada do voo ecoou por todo o aeroporto, a família foi retirada subitamente daquele ambiente saudosista. Últimos abraços, beijos, “vai com Deus” e últimos “eu te amo”.
O homem, que chamarei aqui de Sr. D, colocou uma pequena mochila nas costas e segurou a alça da mala pela mão esquerda, virando-se de costas para a família e seguindo seu caminho. A despedida foi calorosa, mas quando, de fato, chegou a partida, tudo se converteu num frio acinzentado (Acredito que é porque quanto mais se prolonga a dor, maior é o desatino).
As faces que antes demonstravam algum contentamento, transformaram-se em profunda melancolia. Lágrimas insistiam em continuar caindo dos olhos da Sra. P (como eu a chamei) e ela não parecia se importar em deixá-las fluir, por isso, levantou-se e deu sinal aos filhos: já era hora de ir embora.
Acompanhei-os até chegar ao estacionamento, onde uma hilux, envelhecida, estava estacionada. Os filhos entraram no carro, mas a Sra. P bambeou as pernas e tentou acalmar sua respiração. Três vezes foram suficientes para que ela se recompusesse e com rapidez, arrumasse o cabelo, antes desgrenhado, em um lindo rabo de cavalo.
Tomou seu lugar no banco de motorista, viu que os filhos já haviam se acomodado no melhor estilo “fone de ouvido”, e deu a partida. Seu coração permanecia acelerado, porém, curiosamente, seus lábios esboçaram um pequeno sorriso e, então, me dei conta de algo…
A Sra. P, estava aliviada com a partida do marido, como se um peso fosse retirado de seus ombros e, pode ser, que se você olhasse com atenção, flores brotavam de seu peito. Quero dizer, era como se uma nova mulher estivesse florescendo. Algo que antes estava murcho e ressequido, tornava a viver intensamente.
Ao pegar a estrada, ela abriu os vidros e deixou que seus cabelos fossem para onde o vento quisesse, ligou o rádio e se pôs a cantarolar como uma adolescente, nem mesmo se importando se os filhos reclamariam de sua voz desafinada.
Ainda com as mãos firmes no volante, um pequeno devaneio a percorreu: sua mente voltara ao passado, onde apenas ela trabalhava para sustentar a casa e nas horas vagas era preciso fazer serviços extras para que nada faltasse aos filhos e ao marido, que estava debaixo de um grande impasse, fazendo de tudo para conseguir um emprego que sustentasse sua família.
A situação se agravava à medida que o Sr. D não conseguia emprego e todas as suas tentativas eram em vão, pobre homem. Ou devo dizer azarado? (A esposa vivia dividida, sem saber o que pensar, transtornada pela exaustão, sem tempo ao menos para ter uma conversa com os filhos adolescentes, ser uma esposa melhor ou ir à igreja no domingo.)
Pensou em se separar, mas quem arcaria com as despesas advocatícias? Como seria a divisão de bens? E o principal, jogaria tudo que acreditava para alto ao se separar do amor da sua vida? Melhor seria encarar as dificuldades e tentar acreditar, mesmo que debaixo de pesadas lágrimas, que tudo mudaria.
Os dias passavam se arrastando e tudo piorava, pois, os últimos mantimentos do armário só dariam para mais uma semana. Semana essa a mais dura, onde os ossos da Sra. P estavam mais visíveis e seu cabelo ralo e curto.
Sim, ela carregava o peso do mundo em seus ombros, mas tentava se manter forte, sem deixar abalar sua fé. Algumas noites ouvia o marido fazer uma oração enquanto olhava para céu (ai de mim, que nem ao menos isso consigo fazer — pensava ela, em completa lassidão).
Ao final da semana, em uma sexta-feira nublada e triste, chegou pelo correio a carta de despejo. A Sra. P não havia dado conta de pagar o aluguel há alguns meses e embora tentasse remanejar a situação, o dono não teve piedade. Mais três dias, era tudo que eles tinham.
***
Acordei às sete da manhã, apesar de ter dormido apenas algumas horas na noite anterior, pensando em como a situação havia chegado nesse ponto e para onde eu iria com a minha família quando fossemos despejados e ficássemos apenas com as roupas do corpo e meus filhos tivessem que aguentar toda essa tensão.
Eu não podia parar. Meu corpo doía sem dó, minha cabeça era bombardeada por uma terrível enxaqueca. Me levantei da cama, troquei de roupa rapidamente, peguei minha bolsa e saí. Não quis acordar o Sr. D e nem meus filhos, por isso procurei fazer o mínimo barulho e fechei a porta atrás das minhas costas, agora frágeis e doloridas.
Entrei no carro, que havia sido quitado algum tempo antes, dei a partida e senti lágrimas grossas desmoronarem pelo meu rosto. Por um momento me distraí com o gosto de sal das gotas e, estranhamente, minha alma se transportou para um verão passado, quando estávamos de férias na praia e as crianças (que já não eram tão crianças assim) decidiram acordar o pai com uma surpresa agradável… Jogando água do mar, que haviam pegado mais cedo, em cima dele. Foi uma algazarra e eu, que os observava em pé, recostada na porta, fui atacada por um travesseiro.
De repente, todos estávamos na brincadeira, travesseiros voavam misturados com risadas ofegantes. A água do mar virara apenas um detalhe úmido, composto, entre outras coisas, de cloreto de sódio. O Sr. D abraçou a todos nós e nos segurou como se fossemos seu bem mais precioso. E de fato éramos; nosso amor sempre ultrapassou todas as barreiras…
Quando retomei meu senso e dei por mim, eu estava sorrindo. As lágrimas continuavam lá, mas, agora, era como se apesar do sal, elas houvessem sido adoçadas e ao pensar neles, senti meu coração queimar, pois, eles eram, realmente, o meu bem mais precioso.
Meu espírito encontrou a fé que precisava em lembranças simples. A partir de agora eu tentaria procurar algum meio de não deixar minha família e tudo que tínhamos vivido de bom serem sacrificados por um momento obscuro. Então eu decidi.
***
Talvez alguns pensassem que a decisão da Sra. P fosse ridícula, mas ela estava convicta que confiar que algo bom aconteceria, mesmo com tantas dificuldades, valeria a pena e poderia acontecer, quem sabe, um milagre.
Porém, seu corpo acumulava grande estresse há dias, seu emocional, então, atingiu seu físico e em uma fração de segundo sua visão se perdeu em um borrão, a musculatura de seus olhos entrou em espasmo e a impediu de ver o mundo. Suas forças se esvaíram.
O Sr. D acordou num súbito, olhou pela janela e viu que sua esposa estava desmaiada dentro do carro. Por quanto tempo ela via ficado lá? Estaria sem respirar? A preocupação dele era nítida. Ao abrir a porta do carro, ele tentou acordá-la e com muita dificuldade, ela despertou, mas estava muito fraca, então ele a beijou delicadamente e a ajudou a descer do carro. Colocou-a na cama e cuidou para que descansasse. Deu banho nela, afagou seus cabelos ralos e a abraçou como se ela fosse uma criança machucada. Ela dormiu profundamente.
***
Acordei no domingo sem entender muito bem como eu havia ido para cama e, apesar da sonolência, meu corpo não demonstrava sinais de dor e eu já conseguia ver com clareza. Parecia que eu havia dormido por uma noite inteira sem ter que lidar com a insônia.
Não tive tempo de tentar repassar a noite anterior na minha mente, pois o cheiro intenso e amargo de café fresco tomou conta do ar e senti meu estômago roncar. Há quanto tempo não sentia esse aroma com gostinho de quero mais?
Levantei-me assustada e fui até cozinha, o Sr. D me esperava com uma xícara borbulhante daquela bebida enegrecida e algumas torradas. Minha surpresa foi tanta que logo perguntei como e porquê. Afinal, não comprávamos café há um bom tempo, por corte de despesas…
Sr. D apenas pediu que me sentasse junto a ele e que apreciasse tudo enquanto estava quente. Então ele me contou que, às 7 da manhã, enquanto fazia uma prece matinal, recebeu uma ligação na qual o diretor de uma empresa em que ele havia se candidatado a quatro anos atrás, para buscar novas perspectivas, encontrou seu currículo e suas referências no banco de dados e ofereceu uma oportunidade única de emprego, porém com especificidades.
Eu logo perguntei quais eram as condições, pois não permitiria que ele sucumbisse a coisas baixas por dinheiro. E descobri que a condição era trabalhar fora do país. A princípio o Sr. D iria sozinho, mas dentro de alguns meses, poderíamos nos mudar para ficar junto dele e reunir, novamente, nossa família. À medida que ele ia me contando os detalhes, as torradas se tornavam macias como mel e o café como o leite de uma criança faminta.
O Sr. D, em troca, havia pedido, se possível, um adiantamento do salário, pois com o cargo que ocuparia, o dinheiro daria para resolver a situação da família antes de viajar. E o pedido foi concedido, por isso a conta do Sr. D havia aumentado em alguns dígitos da noite para o dia.
***
Nesse momento, era impossível segurar as lágrimas de farta felicidade, o casal se abraçou com força. O amor havia sido resiliente por mais um inverno e estava pronto para a primavera novamente.
O senhor D e a Senhora P abriram o jogo com os filhos, conversaram por horas a fio, se desculparam, se entenderam e aproveitaram cada segundo daquele domingo, véspera de serem despejados, com a certeza de que um novo capítulo estava por vir.
Agora, voltemos ao começo dessa história, quando contei que a Sra. P estava aliviada com a partida do marido e que uma nova mulher estava florescendo. O alívio diz respeito ao tempo que, agora, ela teria para si. Uma pausa em seu desgaste incessante. Quem sabe fazer uma nova graduação, um idioma novo, um corte de cabelo diferente… Dedicar tempo aos filhos que precisavam de seu carinho. Cuidar da alma, (re)florescer.
No fim, entendi como a Sra. Persistência e o Sr. Determinação mudam vidas. E o primeiro passo é querer virar a página e ter fé: o melhor ainda está por vir. O que te espera do outro lado da folha pode te surpreender.