Kuaray ha’e Jaxy mba’eypy
Nhanderuxy’i, a mãe do sol, quando era mocinha, esteve no mundo. Era uma jovem muito bonita e feliz, e adorava a companhia das aves. Um dia, teve a ideia de fazer um laço para pegar o pássaro inhambu. Conseguiu fazer uma bela armadilha, mas quando percebeu o que tinha feito, viu que no laço tinha caído uma corujinha. Gostou tanto dela que resolveu leva-la embora para criar, e desistiu do inhambu.
Quando chegou em casa, a mãe do sol tentou alimentar Urukure’a’i, a corujinha, e ofereceu a ela alguns Kyju, grilos, que havia caçado, mas o bichinho não aceitava. Voltou então à procura de outras coisas para comer, e trouxe muitas Popo’iju, borboletas coloridas, mas ainda assim a coruja não aceitava. Nhanderuxy’i já não sabia mais o que fazer, quando ofereceu farelo de mbeju, o alimento de milho verdadeiro, e Urukure’a’i finalmente comeu. A moça gostava tanto da corujinha que a deixava dormir ao lado de sua cabeça, e às vezes, durante a noite, sentia ela bater as asas e se aconchegar no seu cabelo.
Um tempo se passou, e aos poucos a moça percebeu que seu ventre começou a crescer. Ficou muito assustada e preocupada, porque não sabia o que era estar grávida, e não entendia o que estava acontecendo. Urukure’a’i, percebendo o seu desamparo, apareceu como era de verdade, transformando-se em um homem adulto muito austero e muito bonito. A moça viu que era Nhanderu Papa Tenondé, nosso Pai Primordial, que disse a ela:
— Minha esposa, eu vou embora para o meu trono, você quer ir comigo?
Ao que Nhanderuxy’i respondeu:
— Não vou, pois a esposa que está lá em seu reino pode achar isso ruim.
Deixando ao mundo o exemplo de que os casais se separam, Nhanderu’i disse a ela, ao partir:
— Se você mudar de ideia, mais cedo ou mais tarde, vá atrás de mim. Se tiver dificuldades para achar o caminho, pergunte a meu filho Kuaray, o Pequeno Sol, que ele saberá guiar vocês.
No dia seguinte, ela resolveu ir atrás de Nhanderu’i, mas pela mata onde ele seguira havia várias picadas, e ela não sabia por onde ir. Lembrando-se do que Nhanderu Papa havia dito, perguntou ao bebê que estava em sua barriga qual era o caminho, e Kuaray disse que pegasse o caminho da direita, que tinha muitas flores. Ele pedia também para que ela as colhesse, para que ele as levasse para brincar na morada de seu pai.
O bebê pedia que Nhanderuxy’i apanhasse todas as flores do caminho, e ela já não aguentava mais carregar tantas coisa, quando por fim apareceu um kuaray yvoty, um lindo girassol, e quando Kuaray pediu que a mãe o colhesse, ela foi picada no dedo por uma mamangava . Furiosa, ela dá tapas na própria barriga:
— Você ainda nem viu o mundo e já está querendo brincar! Agora veja o que você fez com sua mãe!
Continuando a viagem, Nhanderuxy’i chegou novamente a um ponto onde havia três picadas: na do meio o mato estava muito fechado, a da direita era cheia de plantas espinhentas e a outra estava bem limpa. Ela perguntou:
— Filho, por onde seu pai foi, por onde devo seguir? – mas o bebê não respondeu. Ela perguntou por três vezes, mas o bebê não respondeu. Escolheu então a picada à esquerda, que era a mais limpa, sem saber o perigo que corria.
Seguindo por esse caminho, que parecia ser o mais tranquilo, a mãe do sol acabou chegando em domínios perigosos, na toca de Xiviypy Jaryi, a Avó Primeira-Onça, que lhe diz:
— Filha, você não deve vir por aqui, que não é seguro para os da sua raça. Volte imediatamente para o lugar de onde veio, pois minhas crianças são muito ferozes, e podem devorá-la.
Porém, Nhanderuxy’i não sabia mais como voltar sozinha pela mata, e disse que teria que passar a noite na terra das onças. Quanto Xiviypy viu que não tinha mesmo jeito da moça voltar, virou seu caldeirão de boca pra baixo, e escondeu a mãe do sol lá dentro. Perguntou se ela tinha fome, e ela disse que sim, que gostaria de comer milho , mas as onças não sabem plantar milho, então a onça velha deu a ela algumas frutas que encontrou.
No dia seguinte, chega Hemiarirõ, o mais novo dos netos da Onça, que começa a farejar a toca:
— Vó, a senhora caçou alguma coisa?
— Claro que não! Eu não tenho idade para isso, vocês é que têm que caçar para mim!
Não muito tempo depois, chega outra das onças:
— Mãe, a senhora caçou alguma coisa?
— Se nem vocês conseguem caçar, imaginem eu, velhinha como estou...
E assim foi. Todo filho ou neto que chegava perguntava a mesma coisa, e ouvia a mesma resposta. Até que à noite, quando a toca já estava cheia de onças, chegou Tyke’y Inhapynguave va’e, o irmão mais velho de todas, o que tinha o melhor faro dentre seus parentes, que cheira muito e muito a toca, dizendo:
— A senhora está mentindo! – e virou o caldeirão. Imediatamente, com suas patas enormes, arranca Nhanderuxy’i do seu esconderijo, jogando ela sem piedade para as outras onças, que a despedaçam e a devoram. Uma delas, exaltada, grita:
— Tem um filhote! Tem um filhote!
Xiviypy Jaryi intervém na algazarra, dizendo:
— Esse bebê vocês deixem para mim, pois estou velha e quero cozinha-lo para comer a carne bem macia.
A Avó Primeira-Onça pôs então o menino nas brasas, mas estas se apagaram. Tentou colocá-lo no espeto, mas ele era muito liso e ela não conseguia furá-lo. Pôs o bebê em cima de uma pedra e tentou esmaga-lo batendo com um pau, mas ele pulava pra lá e pra cá, e ela não conseguia acertá-lo de jeito nenhum. Demorou tanto e deu tanto trabalho que ela cansou.
Assim, Xiviypy resolveu cuidar de Kuaray, e o colocou na luz do dia para secar, pois ainda estava molhado da placenta. Assim que o bebê secou, ele cresceu rapidamente, e virou um menino grande, que já saiu andando. Sentia-se entediado e pediu à onça velha um arco e flechas, que ela fez, e com eles começou a caçar borboletas e grilos e, depois de um tempo, muitos passarinhos para alimentar Xiviypy, seus filhos e netos. Eles gostavam muito disso, e viviam bem com Kuaray.
Porém, o menino que seria o sol sentia-se muito sozinho, e um dia, andando pela mata, pegou uma folha da árvore Kurupika’y, o leiteiro , e com o seu saber das coisas, disse:
— Irmãozinho, levante-se!
Dito isso, a folha transformou-se em um menino. O menino sol disse a ele:
— Você é meu irmão mais novo. Meu nome é Kuaray, e teu nome é Jaxy.
Quando os dois voltaram para a terra das onças, Xiviypy Jaryi questiona a identidade de Jaxy, e seu irmão apenas explica:
— Ele é meu amiguinho que encontrei na mata, e o trouxe comigo para me fazer companhia.
— De onde você veio, criança? – ainda pergunta a Primeira-Onça.
— Eu não tenho mãe, e não tenho pai – responde Jaxy.
Xiviypy permite que o menino mais novo também viva entre eles, para que Kuaray não fique triste. Porém, logo que começam a brincar, ela os adverte:
— Quando forem caçar borboletas e passarinhos, nunca se aproximem de Ka’aguy Ovy, a Mata Verde, pois lá as árvores são muito juntinhas e é perigoso.
Kuaray sempre caçava nas matas próximas da terra das onças, mas Jaxy, curioso que era, vivia pedindo para o irmão para irem até Ka’aguy Ovy, porque lá havia muito mais passarinhos diferentes e bonitos. Depois de um tempo, o menino concede, e os dois vão até lá. Logo que chegam, veem muitas aves, e começam logo a caçá-las. Kuaray faz um cinto com guembe pi, uma corda feita de banana-de-mico, e pede a Jaxy que amarre os passarinhos nela, mas seu irmão não consegue parar quieto:
— Irmão, pode ir amarrando, enquanto eu vou dar uma voltinha.
— Jaxy, pode ir, mas volte logo, e não fique muito longe.
Andando pela mata verde, o menino que seria a Lua fica maravilhado com tantas plantas e animais diferentes, quando olha para cima e vê um papagaio maravilhoso, todo colorido, e pensa: “Vou fazer uma surpresa para o meu irmão, vou matar esse papagaio e levar pra ele!”. Tenta acertá-lo com suas flechas, mas toda vez que dispara uma, o papagaio salta pra outro lado, e desvia da morte certa. A ave, que se chama Parakau, diz então:
— Por que você quer me matar?
Mas Jaxy não a ouve, e dispara mais uma vez.
— Por que está levando esse monte de pássaros para alimentar aquelas onças?
O menino o ignora novamente, e atira outra flecha.
— Por que vai alimentar as onças que devoraram sua mãe? – diz por fim Parakau.
Jaxy não entende o que o papagaio diz, e tenta flechá-lo mais duas vezes. Sem sucesso, chama o irmão. Kuaray tenta acertar Parakau, mas este continua desviando, e diz a mesma coisa ao menino. Este entende toda a verdade, apoia o arco no chão e, junto com o irmão, começa a chorar. Injuriado, pergunta:
— Primo Parakau, você sabe onde podemos encontrar os ossos da nossa mãe?
O papagaio então responde:
— Perto da toca das onças tem duas pedras grandes. No meio delas você achará os restos da sua mãe verdadeira.
Revoltados com o que descobriram, os meninos então voltam para onde estavam os pássaros mortos que haviam caçado, e desamarrando-os soltam um a um, dizendo seus nomes e trazendo-os novamente à vida:
— Tukã! Havia! Tangara’i! Kyky’i! Guyra’itapu! Mainõ’ĩ! Myro’õ! Jaku! Jeruxi! Inambu!
Kuaray amassou o cinto de guembe pi que haviam feito para amarrar os bichos e o jogou para o alto. Quando o fez, as tranças da corda se desfizeram e ela se transformou no pássaro Jayru. Depois disso, os meninos voltaram para casa sem pássaro ou borboleta alguma.
Ao chegar lá, a Primeira-Onça então pergunta:
— Cadê os pássaros? Não trouxeram nenhuma caça?
— Hoje não estávamos com vontade de caçar.
— O que aconteceu? Vocês estão com os olhos vermelhos, parece que choraram...
— É, choramos pois levamos muitas picadas de marimbondos.
O menino que seria o Sol e o menino que seria a Lua saem e vão ao local onde estavam os ossos de sua mãe; os encontram no lugar onde Parakau os indicou. Kuaray então diz:
— Jaxy, vai dar uma volta na floresta e espantar os inambu daqui, deixe-me sozinho um pouco.
Quando Jaxy saiu, relutante, Kuaray, com o seu saber das coisas, fala com os restos no chão:
Os ossinhos de Nhanderuxy’i estalam, e Kuaray ampara a mãe fraca nos braços. Jaxy, que não foi muito longe porque estava muito curioso com o que iria acontecer, pula do meio das árvores assim que vê a mãe, grita, chora e corre para mamar em seu peito. Muito fraquinha, ela desmonta estalando e cai no chão.
— Por que você voltou tão logo, Jaxy? – ralhou Kuaray – Não disse para me deixar só? Agora vá mais longe!
Não adianta nada. O irmão mais novo continua à espreita; a cena se repete, segue o barulho dos ossos caindo e de Nhanderuxy’i se desmanchando, e Kuaray então decide:
— Mãe, de hoje em diante, você será um animalzinho, será considerado caça para ajudar a humanidade.
Com seu saber das coisas, soprou o esqueleto, e ela transformou-se em Jaixa , uma paca, que pulando foi embora pro mato. Hoje em dia, quando a paca é caçada, o Sol sai bem fraquinho, pois fica triste com pena da mãe.
Depois disso tudo, os irmãos decidem vingar a morte da mãe, e numa clareira nas bordas de Ka’aguy Ovy fazem um mondéu, com um sabugo de milho. A primeira onça chega e zomba de uma armadilha feita com material tão leve.
— Com esse sabugo tão levinho, essa armadilha não vai pegar nem mosquito!
— Entra aí então pra ver! – desafia Kuaray.
Ela entra no mondéu e morre, pois o sabugo tinha um peso inimaginável.
Chegaram várias onças-macho, uma atrás da outra agindo da mesma forma, até que morrem todas elas, porque eram muito estúpidas. A Avó Onça vem caminhando, vê a cena, e repreende Kuaray e Jaxy:
— Meninos! O que estão fazendo com seus irmãos?
— Ora, não sabemos, eles é que quiseram entrar aí e morreram.
— Então destruam já essa armadilha!
Os meninos pensam então em outra estratégia para terminar com as onças que restaram. Com sua sabedoria, criam uma lagoa enorme, com uma pequena ilha dentro. Nessa ilha, com o seu saber das coisas, Kuaray fez surgir a árvore da Gabiroba.
Traz à casa das onças a sua fruta e começa a comê-la, dando inveja às onças que, sem machos para caçar, passavam fome. Elas experimentaram e adoraram. Os meninos então contam que tem muitas dessas frutas numa ilha, e se oferecem para fazer uma ponte para elas irem até lá, onde podem comer à vontade e descansar. Kuaray combina com Jaxy de virar a ponte quando todas estiverem em cima dela.
O menino mais velho arranca a casca da árvore que serviria de ponte, e depois a juntar várias coisas no mato e jogar na água, dizendo:
— Vocês serão todos bichos da água, alguns perigosos, outros não.
Assim, com o seu saber das coisas, assim que Kuaray terminou de falar o cipó virou Kuriju Jagua, uma cobra grande; os espinhos se tornaram Jagua Xῖ, os peixes-espada; a casca da árvore se transformou nas Guairáka, as ariranhas, e as folhas viraram diversos tipos de Ypo, animais da água e monstros aquáticos que devorariam as onças-fêmeas. O menino que seria o Sol ainda disse:
— Esse rio imensurável vai se chamar Para Guaxu, e suas águas serão salgadas.
Depois retornaram para a toca das onças. Chegaram lá à tarde, dizendo:
— Tudo pronto. Amanhã cedo iremos buscar as frutas – e todas ficaram alegres.
Quando amanheceu, todos foram à lagoa e, chegando lá, Kuaray disse assim:
— Meu irmão fica aqui, e eu atravesso para o outro lado, segurando a tora para não virar, assim vocês podem atravessar com segurança.
Kuaray atravessa para a ilha, e Jaxy fica na terra firme. As onças começaram a passar devagar pela ponte, mas havia uma que ficou por último porque estava grávida e não conseguia subir na tora. Kuaray fez um sinal para Jaxy esperar, pois só faltava essa onça subir, mas Jaxy entendeu que era para virar a tora, e virou. Aí foram todas água abaixo, exceto a onça grávida que não conseguira subir. Neste momento, Kuaray gritou:
— Então você é a única, mas não a última, e é a que vai ficar para reproduzir a espécie.
Nem bem o menino terminara de falar e a onça começou a rugir como as de hoje em dia; perdeu o dom da fala e, grávida, teve um filho macho. Do relacionamento incestuoso entre os dois é que nasceram todas as onças que hoje vivem, e nenhuma delas sabe falar como gente.
O primeiro filho de Nhanderu’i ficou chateado, achando que não era para ter feito aquilo e, nesse momento, a tora virou uma serpente gigante, e mergulhou no rio. Então Kuaray, o futuro Sol, ficou na ilha, e Jaxy, o futuro Lua, na margem do lago.
Os irmãos ficam separados, e Jaxy gritava desde a terra firme, perguntando sobre as frutas que achava, se era para comer e como.
— Que fruta é essa? Dá pra comer?
— Ela é vermelha com uma manchinha redonda embaixo.
— É gabiroba, espere, não coma. Para não fazer mal você tem que a defumar antes com o cachimbo.
Jaxy continuou andando e achou outra fruta, gritando novamente para Kuaray:
— É dura e tem a casca bem avermelhada.
— É coquinho. Pode comer, é só bater com uma pedra para abrir.
Jaxy continua andando e perguntando para Kuaray:
— Que fruta é essa? Dá pra comer?
— Ela é comprida, amarelada e bem macia.
— Então é aguaí. Pode assar e comer, e guarde as suas sementinhas para mais tarde.
Jaxy gritou mais uma vez:
— Com o que ela se parece?
— Essa tem a casca meio azulada.
— É guabijú, essa também você não deve comer antes de defumar.
Continuou andando, e tudo o que via perguntava para Kuaray. Ele, já impaciente depois de tantas perguntas, diz:
— Faça uma fogueira e ponha na brasa as sementes de aguaí. Segue bem firme seu arco e flecha.
Assim ele faz; depois de um tempo, elas explodem por causa do calor e, com o impacto ele vai parar do outro lado das águas, junto a seu irmão. Kuaray diz então:
— Nessa ilha vamos formar o nosso mundo, Yvy Marã e’ỹ, a Terra Imperecível, que será grande.
E continuaram caminhando pela Ilha Originária, que se tornava tão grande conforme andavam, parecendo não ter fim algum. Enquanto perambulavam, chegaram a um rio, e lá viram seu tio Xariã, o irmão mais velho de seu pai Nhanderu Tenondé, pescando com um pari, uma armadilha para peixes. Kuaray diz então a Jaxy:
— Vamos aprontar com ele. Fique aqui me esperando e deixe que eu vou, pois é muito perigoso.
Kuaray mergulhou e foi por baixo d’água até o lugar onde o demônio estava pescando. Quando um peixe entrava no pari, o menino tirava o bicho de lá e mexia a armadilha; assim, o diabo achava que tinha pego alguma coisa, mas quando puxava a corda, via que não tinha nada. Kuaray pegou seis peixes, que levou para ele e Jaxy assarem e comerem.
Em seguida, Jaxy queria tentar fazer a mesma coisa, mas seu irmão achou melhor que não. O caçula ficou insistindo, até que Kuaray deixou, dizendo para ele tomar bastante cuidado, e que esperasse o peixe entrar no pari antes de mexer nele. Jaxy, querendo se exibir para o irmão, logo que o peixe entra na armadilha enfia a sua cabeça lá dentro, tentando pegá-lo com a boca, mas acaba ficando preso e é arrastado para fora por Xariã, que o mata e depois leva para casa para devorá-lo. Por isso às vezes tem eclipse: é quando o diabo engole a lua do céu.
Tentando consertar as coisas, Kuaray vai até a casa do tio como visitante, mas quando chegou lá viu que Xariã já havia feito uma sopa com os pedacinhos do seu irmão. O diabo convida o sobrinho para almoçar, mas esse diz:
— Agora não, pois estou com pressa e preciso seguir viagem. Mas se puder me oferecer, gostaria de levar um pouco dessa sopa com o crânio para comer mais tarde.
O diabo deu a sopa para ele; Kuaray agradeceu e continuou caminhando. No caminho, o menino pegou o crânio, o limpou todo e colocou a sopa dentro. Com o seu saber das coisas, disse:
— Levanta, irmão! – a sopa então virou cérebro e o crânio transformou-se novamente em Jaxy.
Kuaray deu uma bronca nele:
— Eu não falei para você tomar cuidado? Você não me ouviu, agora veja se aprende! – e andando mais um pouco, fala:
— Agora já chegamos, e é hora de você usar o seu arco. Aponte-o para o céu e dispare uma flecha.
Jaxy esticou o seu arco e soltou a flecha. A ponta dela atingiu o chão do céu e lá ficou presa. Kuaray mandou que ele continuasse atirando, e cada flecha acertava exatamente a forquilha da outra flecha, ficando uma presa na outra até chegar na terra. Kuaray falou:
— Deixe seu arco na terra, pois ele se transformará no Guyrapaju, que servirá para fazer os arcos e flechas verdadeiros dos nossos irmãos mais novos que ainda virão.
Dizendo isso, os dois sobem pelas flechas, recolhendo uma a uma conforme vão subindo. Assim, chegam até o céu, onde seu pai já estava os esperando em seu trono. Ele os abraçou, cumprimentando-os pelos exemplos que deixaram aos homens. Sua missão na terra havia terminado, mas muito ainda os esperava.
Adaptado de (1) Kanguá, V., & Poty, P. M. (2003). A vida do sol na terra - Kuaray'i ywy rupáre oiko'i ague. São Paulo: Anhembi Morumbi e (2) Pierri, D. C. (2013). O perecível e o imperecível: lógica do sensível e corporalidade no pensamento guarani-mbya. São Paulo.