Observando seu próprio reflexo no espelho no vestiário masculino Marcus encheu os pulmões com o máximo de oxigênio que podia aguentar, segurando a respiração por alguns segundos para logo em seguida soltá-la, relaxando os músculos e o próprio batimento cardíaco que batia em agitação – tal exercício lhe fora ensinado pelo antigo psiquiatra que o ajudou em uma de suas primeiras sessões para o tratamento dos episódio de pânico, recomendando que o neurocirurgião repetisse o exercício sempre que se sentisse nervoso e angustiado, o que tomou uma frequência muito maior do que o próprio homem estava disposto a admitir. O sentimento ansioso, e ligeiramente sufocante, se dava em razão do primeiro dia do homem assumindo o cargo para o qual havia sido contratado, até então o médico vinha familiarizando-se com os casos que lhe foram atribuídos, estudando cuidadosamente o histórico de cada um deles; não desejava repetir os mesmos erros do passado. Ainda na semana anterior, junto aos demais casos que ficariam sob sua tutela, Ross recebeu também a escala de internos e residentes para as próximas semanas, incluindo o nome da estudante que o acompanharia por algum tempo no departamento de neurologia.
Ao deixar o vestuário, Mo caminhou até sua sala e pôde observar através das enormes janelas de vidro a aluna sentada em uma das poltronas próximas à sua mesa. Diante da porta, o homem enxugou as mãos úmidas nas laterais do uniforme, soltando um suspiro rápido para em seguida girar a maçaneta. – Senhorita Kahele? – perguntou, certificando-se de pronunciar o sobrenome incomum lentamente de modo a não causar nenhum constrangimento. – Acertei? – deu uma risada baixinha, não era muito bom com conversa fiada mas, mais do que ninguém, sabia como primeiras impressões eram importantíssimas, ainda mais com estudantes. Já do outro lado da mesa, Marcus se aconchegou na grande cadeira de couro, podendo ver o rosto da mais nova com um pouco mais de clareza. – É um grande prazer. – disse, esticando a mão destra em um cumprimento. Sob a mesa se encontrava o arquivo de Kylie, o qual o médico dera uma rápida passada de olhos. – Neurologia logo em uma segunda-feira? – perguntou com alguma descontração. – Quem você irritou? – Mo não tinha o senso de humor mais divertido de todos, ao contrário, tinha consciência de que possuía uma reputação fiel à personalidade sóbria e discreta, mas esperava que a interna não se sentisse intimidada logo de cara.