Eu não quero um março para as mulheres. Não é em agosto ou setembro que vivo minha sexualidade. Consciência não dura um dia de abril ou de novembro. Existo com a segurança de não ser por um só dia, uma única semana, um solitário mês. Míopes enxergam-me singularmente, embora eu seja plural, embora eu invada espaços, embora eu me sustente maneira assertiva, embora eu esteja facilmente à vista. ... À mim não foi dado o conforto de um palco para um protagonismo de feitos históricos, densos, não subordinado, não domesticável, em não deferência na vida pública. Meu espaço não me dá frescor ou alívio, ele não existe sem minha veemência. Não conheço na pele o aconchego. ... Independentemente disso, explicito aqui que meus orgulhos são duradouros e persistentes: se mantêm durante todas as quatro estações do ano, seja no hemisfério meu ou norte - e disso não restam dúvidas, tão somente marcas. Marcas. Pesadas marcas que possuo em minha bagagem e que são notórias responsáveis pelas desobstruções de dejetos patriarcais de péssima índole e que atuam em forma de direitos. Direitos os quais precisam ser escudados em fortaleza e em grande número, pois estão sujeitos às ameaças, às restrições camufladas pela organização classista, racista, capacitista, lesbofóbica e misógina. E, então, fica evidente: a convergência de interesses pela vida das mulheres sinaliza, em forte ressonância, à mim, à conhecidas, amigas, irmãs, mães; ou seja, à todas as companheiras que compartilham marcas simultaneamente diferentes e semelhantes, contrastantes com as minhas. Marcas que, em prantos e ao som dos aplausos da realidade, agradecem à todas, pois está - enfim! - sendo notada por nós. Apesar de, até esse momento da minha escrita, ocuparmos um espaço à umbra e sermos avistadas, em relevante maioria, pelos míopes nitidamente ameaçados, a minha lástima é apoucada quando abarroto o palco e são abertas as cortinas, afinal, eu avisto, manifestamente, companheiras aos lados! É com abundante convicção e em firme tom que vozeio: estamos em agrupamentos! Portanto, pluralizemo-nos! Invadamos espaços! Abramos nossos tetos! Saiamos da domesticidade! Fortaleçamos nossas bases! Encaremos, em maior número par possível, o céu. E dominemos o Universo coletivamente! O nosso brado brado têm a potência do eco, logo, construamos, sem demora, um coral!