Conto: Meu garoto preferido.
Quando eu tinha oito anos usava aparelho e óculos, era magrela, desengonçada e não tinha muitos amigos, um dia quando estava saindo de casa um garotinho que parecia ter a mesma idade que eu estava saindo da casa ao lado, vi que usava o mesmo uniforme que eu estava usando, ele sorriu pra mim e disse:
_Oiê, eu sou novo na cidade, também estou nessa escola. - Apontou para o símbolo da escola estampado na minha camisa e sorriu, eu muito tímida não disse nada apenas concordei com a cabeça e segui andando, ele foi atrás de mim e continuou falando:
_Meu nome é Vitor, qual é o seu?
Fiquei quieta, além de tímida eu não era uma garotinha com quem as outras crianças puxavam assunto por isso achei estranho e fiquei com um pouco de medo, cheguei no ponto de ônibus e sentei, ele se sentou do meu lado e continuou falando:
_Você tem gatos em casa?
Neguei com a cabeça.
_Então quem comeu sua língua? – Perguntou.
Não aguentei e ri, olhei pra ele e disse:
_Marcela.
_A Marcela comeu sua língua?
_Não! - Exclamei. - Marcela é meu nome. – Falei mais confiante.
_Uoooo muito prazer Marcela, vamos ser amigos? - Ele esticou a mão e minha direção.
Fiquei olhando para sua mão por alguns segundos, mas a apertei e acabei sorrindo na direção dele, assim que chegamos na escola descobrimos que estávamos na mesma sala de aula, logo que entramos ele foi apresentado a turma e sentou atrás de mim.
_Se você quiser ser bem visto é melhor não andar comigo. – Alertei, eu era uma total abandonada naquela sala de aula, cheguei até a pensar uma vez que as crianças tinham alguma alergia ao produto que minha mãe usava para lavar as minhas roupas.
_Por quê? –Ele perguntou no mesmo tom que eu usava.
_Por que ninguém aqui gosta de mim.
Ele franziu um pouco a testa e ficou pensativo, antes que dissesse qualquer coisa os meninos jogaram um papelzinho em minha direção, não machucou mas a intenção -que era implicar comigo como sempre - não era muito legal, ele pegou o papel e abriu para ler.
'A feiosa arrumou um namoradinho'.
Ele escreveu algo e tacou de volta, pegou na testa de um deles, a professora pediu silêncio e ninguém tacou mais nada.
_O que você escreveu? – Perguntei durante o recreio.
_Que se eu fosse seu namorado eles não deveriam mais se meter com você por que eu ia dar um jeito em todos eles.
Com certeza fiquei vermelha como um pimentão nesse momento, tive vontade de sair correndo mas disfarcei e agradeci.
Desse dia em diante, Vitor e eu nos tornamos amigos de verdade, o fato de sermos vizinhos ajudou, pois todos os trabalhos de sala de aula fazíamos juntos.Ele começou a me defender e graças a isso algumas crianças passaram a falar normalmente comigo, ganhei novos amigos e me tornei uma menina mais segura.
Tudo ia muito bem até que o final do ano chegou.
_Eu vou me mudar. – Ele me disse enquanto conversávamos na varanda da minha casa.
Minha vontade foi de chorar, mas me mantive séria e tentei parecer compreensiva, afinal ele não estava nada bem e não ajudaria nada eu agir como uma 'bebezona'.
_Podemos nos falar pelos whatsapp ainda. – Fiz um esforço para sorrir e parecer tranquila.
Vitor me mostrou um sorriso triste e desanimado, mas concordou com a cabeça.
No dia em que ele foi embora ficou na janela do carro acenando pra mim até que não conseguisse mais me ver, eu fiz o mesmo e quando a mudança desapareceu da minha vista minhas lágrimas começaram a rolar como água em uma torneira estragada.
No inicio ainda nos falávamos todos os dias, eu contava como estavam as coisas na escola, e ele me falava da nova cidade, onde tinha praia e parecia ser tudo muito divertido. Porém com o passar dos meses a gente foi perdendo o contato, até o dia em que me dei conta de que não éramos mais amigos.
Por incrível que pareça o Vitor tinha se tornado apenas uma boa memória, algo que era bom lembrar, e foi assim durante muitos anos, até que inesperadamente um dia, ele voltou para minha vida.
Eu estava no ensino médio quando isso aconteceu, já não era mais uma menina insegura e tímida, pelo contrário, eu tinha um grupo de amigas e mesmo que fossemos "as estranhas" da sala nos divertíamos muito juntas.
Eu nunca tinha pensado em me apaixonar por ninguém até que o professor de matemática entrou na sala, acompanhado de um rapaz, e nos apresentou o garoto como um novo aluno da nossa turma.
_O meu nome é Vitor. - Ele disse quando se apresentou, os meninos chamaram ele para se sentar perto deles e ele foi, enquanto conversavam lá trás eu estava paralisada.
_Marcela. – Uma das minhas amigas me chamou enquanto sacudia meu ombro.
_Sim? – Perguntei, saindo do transe.
_Você ficou estranha, gostou dele não é? – Ela perguntou com um sorriso sugestivo.
Neguei com a cabeça e olhei em direção aos meninos, eu conhecia muito bem aquele sorriso e a forma de gesticular com as mãos ... era ele, sem sombra de dúvidas, a questão agora era se ele ainda lembrava de mim.
Não nos falamos nesse dia, rolaram apenas alguns encontros de olhares, e eu continuava encucada do porque ele não vinha falar comigo.
Na sexta-feira eu estava guardando algumas coisas no armário do corredor, quando olhei para o lado ele estava vindo, me viu e sorriu um pouco tímido.
'Não acredito que o Vitor está com vergonha de mim, será que não está me reconhecendo?'. – Pensei.
Quando eu ia acenar um dos meninos da minha sala apareceu e o puxou para o lado contrario, saíram juntos, encostei no armário frustrada.
No final de semana quando estava chegando em casa, parei no portão e fiquei observando a casa onde ela morava, continuava vazia, permaneci um bom tempo olhando pra ela e suspirei, aquele rapaz com certeza era o Vitor, e continuava lindo da mesma forma que era quando menino.
Fui surpreendida por risadas de garotos vindas da rua, meu coração acelerou quando percebi que eram o Vitor e outro garoto que estavam passando ali naquele momento de skate, como a rua era uma decida apenas nos olhamos rapidamente e ele seguiu em cima do veículo.
Passamos mais ou menos um mês apenas nos olhando, eu não tinha coragem de ir falar com ele e acho que nem ele de vir falar comigo, era isso ou o Vitor realmente não tinha me reconhecido, ou se tinha me reconhecido pode não ter tido a menor vontade de voltar a ter qualquer tipo de relação comigo, mas também porque ele iria querer isso?
Pelo que eu percebi o Vitor tinha se tornado um menino popular que tem facilidade de fazer amizades com todo mundo e até mesmo podia ter as garotas que quisesse ao seu lado, porque ele viria falar qualquer coisa comigo? Uma menina que apesar das mudanças, continuava sem graça.
Fiquei com aquele pensamento durante todo o mês, e o pior é que eu comecei a pensar que realmente estava me preocupando mais do que deveria, a coisa ficou séria quando eu me peguei escrevendo o nome dele no meu caderno, arregalei meus olhos e tratei de apagar bem rápido, olhei para os lados para conferir se ninguém tinha visto e para a minha sorte, ninguém viu.
O Vitor era tão bom em todas as coisas que fazia, jogava futebol, apresentava teatro, lia os textos em sala de aula e tirava as melhores notas, se passaram dois meses praticamente e nada de nos falarmos, pode parecer um absurdo já que estudávamos juntos, mas alguma coisa me impedia de ir falar com ele, com certeza aquela timidez que estava guardada dentro de mim desde sempre.
Achei que nunca iriamos conversar até que um dia quando eu estava chegando no ponto de ônibus para ir para a escola ele estava chegando do outro lado, era uma sexta-feira e não tinha mais ninguém por ali, me sentei e fiquei quieta, ele sentou do meu lado e ficou quieto também, depois de alguns minutos tomei a coragem e disse:
_Que bom que você voltou.
Ele me olhou surpreso e eu sorri de volta.
_Pensei que nunca iria falar comigo. – Ele disse.
_Achei a mesma coisa. – Sorri sem graça.
Ele e negou com a cabeça e eu continuei:
_Afinal as pessoas que chegam é que tem que cumprimentar ...
_Eu estava com vergonha.
_Vergonha? Você? Não acredito.
_É que você se tornou uma menina tão bonita, eu pensei que não iria querer um moleque engraçadinho puxando papo ou te fazendo lembrar do passado.
'Uma garota tão bonita?' – Pensei sem acreditar que ele estava dizendo aquilo, então ele realmente me achava uma garota bonita?
_Você continua incrível... – Falei sem perceber, ficamos sérios nos olhando de uma forma estranha, parecia que palavras não conseguiriam descrever o que estávamos sentindo.
Fomos despertados pelo ônibus que passou por nós a toda velocidade, o motorista não nos viu sentados lá e quando nos demos conta saímos correndo atrás dele como uns doidos, o Vitor correu na frente porque ele bom atleta, conseguiu alcançar e começou a bater no veículo até que ele parou, eu cheguei quase morrendo na porta, o motorista nos deu uma leve bronca por termos corrido atrás o ônibus e prometemos ficar mais atentos da próxima vez.
Entramos juntos e nos sentamos um do lado do outro, eu estava do lado da janela, olhei lá pra fora enquanto recuperava a minha respiração, estava muito sem graça para encara-lo até que senti uma coisa na minha orelha, ele tinha colocado um lado do fone dele ali e o outro no ouvido dele.
_Você tem que ouvir essa música. – Vitor disse.
Colocou uma música para tocar e ela era realmente muito legal, depois desse dia não nos desgrudamos nunca mais, semana passada ele me pediu em namoro e eu aceitei, mesmo depois de tanto tempo eu ainda posso dizer com toda certeza que ele é o meu garoto preferido.













